É preciso hastear as bandeiras

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09 Setembro 2021

 

"A Pátria anda com pouca paz, em pé de guerra, com muitas armas, muito doente, com muito desemprego, muita fome e pouco feliz. Junto com a pandemia do coronavírus, que se abateu sobre a humanidade há quase dois anos, foi insuflado cotidianamente muito ódio. E nossa Pátria foi e está sendo amplamente acometida por este vírus social generalizado, elevando a níveis absurdos a intolerância e a estupidez humana", escreve Dirceu Benincá, professor de Humanidades na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

 

Eis o artigo. 


Uma bandeira é um capital representativo. Ela carrega um poder simbólico, como diria o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Qualquer que seja, a bandeira significa aquilo que ela representa. Mas, o que ela exprime pode estar muito além do sentido objetivo que lhe é atribuído. Os simbolismos e representações estão permeados de conotações subjetivas. Isso vale para as bandeiras nacionais, estaduais, municipais, de movimentos sociais, de partidos políticos, de grupos, organizações, agremiações, de igrejas, pastorais, etc. Há bandeiras que são coletivas e outras que podem ser pessoais. A propósito, vale indagar: Qual sua principal bandeira?

Acabamos de “comemorar” a Semana da Pátria, período em que a bandeira do Brasil foi (e ainda segue) mais exposta por todos os cantos e recantos, indicando diversos encantos e também muitos desencantos por conta do que é feito nestes tempos no território nacional. Na fâmula há um slogan herdado do positivismo, sintetizado nas palavras “ordem e progresso”. Diferentes e divergentes compreensões se constroem e se propagam acerca do que deveria significar, na prática, esse binômio. Entre elas, está uma bela canção de Zé Pinto, apontando para os princípios da ordem e do progresso, não visto como simples crescimento econômico, mas como desenvolvimento humano e social integral e integrado. A propósito, a canção afirma que “a ordem é ninguém passar fome, progresso é o povo feliz”.

 

 

A Pátria anda com pouca paz, em pé de guerra, com muitas armas, muito doente, com muito desemprego, muita fome e pouco feliz. Junto com a pandemia do coronavírus, que se abateu sobre a humanidade há quase dois anos, foi insuflado cotidianamente muito ódio. E nossa Pátria foi e está sendo amplamente acometida por este vírus social generalizado, elevando a níveis absurdos a intolerância e a estupidez humana. O que fazer com essa força bruta que emerge de dentro de muitos corações e mentes? Este é o grande nó górdio que nos atemoriza e inquieta.

O Hino Nacional Brasileiro, composto por Joaquim Osório Duque Estrada, ressalta que “o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria”. Também enfatiza que há “um sonho intenso, um raio vívido, de amor e de esperança”. Mais adiante convoca o Brasil a ser “símbolo de amor eterno” e não de ódio permanente. Clama para que haja “paz no futuro”, mas se esquece de assinalar que só haverá paz no futuro se ela for construída no presente. E, embora o hino não deixe bem claro, sabemos que a paz verdadeira só advém da justiça social praticada como um projeto nacional. Ainda afirma que “um filho teu não foge à luta”. Mas, quem são os filhos que não fogem à luta? De que luta não se deve fugir e quais lutas deve-se evitar?

O mesmo hino repete seis (6) vezes que a Pátria é amada ou deveria ser amada por todos os seus filhos e filhas e mais aqueles que resolveram adotá-la como mãe. Não há nenhuma ocorrência no Hino Nacional de que a Pátria (e os ditos “patriotas”) deve estar armada com fuzis ou qualquer outra arma para matar os próprios irmãos. Acresce dizer (embora pareça redundância) que a Pátria é (deveria ser) de todos. Não obstante, há uma multidão de excluídos, desterrados e oprimidos em sua própria terra. Nesse contexto, é altamente oportuno afirmar que os/as verdadeiros/as patriotas são os que cuidam da mãe natureza (multicolorida) e do território com sua riqueza incomensurável, por sinal muito mal repartida entre os filhos seus.

Diante desta realidade intrigante, há 27 anos a Comissão Pastoral para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), juntamente com um conjunto de organizações, pastorais e movimentos sociais realiza, no dia 7 de setembro, o Grito dos Excluídos/as. Este ano teve como tema “a Vida em primeiro lugar” e como lema “na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já”. Importantes manifestações aconteceram por todos os cantos do país com esta motivação. Em quase todos os lugares, houve distribuição de alimentos para pessoas necessitadas, num gesto de solidariedade, princípio não só do verdadeiro patriotismo (em oposição a apropriações indevidas desse conceito) como também da fraternidade e do senso de humanidade que deveria governar a todos.

Agora e sempre é preciso, sim, hastear e manter hasteadas várias importantes bandeiras. Não com mero espírito ufanista, nacionalista, triunfalista, exclusivista, extremista, etc. Excede e já vai tarde a necessidade que temos de manter bem erguidas as bandeiras da paz, da justiça social, da equidade, do cuidado com a natureza, do respeito ao diferente, do diálogo, da saúde para todos e todas, da democracia, da educação humanizadora, da espiritualidade libertadora, da solidariedade. Ao invés de patriotas arrogantes e intolerantes, precisamos ser irmãos e irmãs que promovem e lutam pela vida digna acima de tudo e para todos!

 

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