Além da esquerda. Artigo de Flavio Lazzarin

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07 Setembro 2021

 

Na época lulista do Partido dos Trabalhadores, misturam-se esquizofrenicamente discursos radicais de classe, feitos à luz do dia, com decisões políticas “noturnas” a serviço do capitalismo e corroboradas pela despudorada aliança com a direita oligárquica e com a classe empresarial.

A opinião é de Flavio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em artigo publicado em Settimana News, 02-08-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

 

Eu digo: “Vamos além da esquerda”, assim assusto todos aqueles que se escondem atrás da negação dogmática da “terceira via”, apenas para, no fim, se oporem a uma outra via e a uma outra esquerda.

Admiro-me do fato de que ainda hoje sejamos reféns de uma polaridade arcaica entre direita e esquerda, prisioneiros de uma falsa dialética que paralisa toda a criatividade. A responsabilidade por esse impasse não é da direita, que nos últimos 150 anos, infelizmente, sempre soube repropor a sua violenta hegemonia sobre a sociedade, sem se renovar, sem perder a iniciativa.

As culpas desse beco sem saída, de fato, são todas da esquerda, que sempre sofreu devido a um trauma aparentemente incurável: a coação a se repetir. Foi no século passado que a esquerda inaugurou com o stalinismo a corrida às repetições.

O stalinismo não se limita à geografia da antiga URSS que, desde os primórdios leninista e trotskista, traiu, junto com Nestor Makhno e os marinheiros de Kronstadt, os conselhos operários e camponeses, mas era apoiado e defendido pela solidariedade de todos os partidos comunistas ocidentais.

Renunciar a abrir os olhos sobre as purgas e os gulags, e omitir a crítica aos horrores do regime comunista era o preço a ser pago para poder se considerar fiel ao campo anti-imperialista. E, ao que parece, estamos condenados a isso também hoje quando, tranquilamente, repetimos o esquema stalinista, ou seja, optamos pela fidelidade canina aos mitos de esquerda e renunciamos a ler criticamente aquilo que ocorre em Cuba, na Nicarágua, na Venezuela ou no Brasil do Partido dos Trabalhadores.

Os sintomas dessa síndrome são a obtusidade e a feroz parcialidade de comportamentos que seriam considerados bárbaros mesmo no caso das torcidas de futebol. Parece que a certeza da complexidade dos eventos e das relações políticas não faz parte da bagagem política da esquerda.

Ao lado dessa posição encontramos, como no processo de transformação do Partido Comunista Italiano, a solução de “jogar o bebê fora com a água do banho”: a renúncia, no âmbito das grandes mudanças sociais, a reler a história em termos de luta de classe, rendendo-se, já desarmados, à farsa da democracia liberal.

Algo semelhante ocorreu durante a época lulista do Partido dos Trabalhadores no Brasil, onde se misturam esquizofrenicamente discursos radicais de classe, feitos à luz do dia, com decisões políticas “noturnas” a serviço do capitalismo e corroboradas pela despudorada aliança com a direita oligárquica e com a classe empresarial.

Além disso, não devemos ignorar o destino de tantos comunistas que, tranquilamente, mas com o álibi de uma leitura dialética supostamente marxista, passaram da luta armada contra a ditadura civil-militar à adesão entusiástica ao comunismo albanês e, por fim, à oportunista e corrupta aderência ao status quo.

Nestas terras, não podemos esquecer a invenção – totalmente latino-americana – do casamento entre stalinismo e caudilhismo, versão em que as únicas classes sobreviventes mas ocultadas – os burocratas e os militares – se defrontam com um povo genericamente entendido.

A esquerda que prevalece no chamado Novo Mundo é aquela que se considera satisfeita quando pode ter a identidade garantida por um inimigo, como figura fundadora e legitimadora: a única coisa que ela sabe fazer é ser contra alguém.

Isso ocorreu no Maranhão, onde a esquerda se definiu há cerca de 50 anos apenas pela oposição a Sarney e à sua família. Com o desastroso nada que se seguiu. Sem acompanhar as mudanças sociais e o surgimento de novos desafios políticos. Sem um projeto.

E isso se repete hoje, quando o inimigo é o Bolsonaro e o bolsonarismo. Ser “contra”, desse modo, é oportunisticamente mais eficiente para garantir o jogo dos interesses eleitorais. Desse modo, o declínio do Ocidente, as questões ambientais e climáticas, junto com os desafios anticoloniais, deixam de existir como eventos que interpelam a política.

 

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