A Páscoa de uma Nova Civilização. Artigo de D. Mauro Morelli

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01 Abril 2021

 

"Vamos celebrar a Páscoa em nossas casas, como nos primórdios, em volta da mesa, melhor se redonda, para o diálogo e a partilha que ajudem a entender quem nós somos, em que mundo vivemos e caminhar em busca de vida sempre mais plena", convidam Dom Mauro Morelli, Bispo Emérito da Diocese de Duque de Caxias - RJ, e o Padre Dênis Cândido da Silva, da diocese de Luz-MG e mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE - Belo Horizonte, MG.

 

Eis o artigo. 


Eis que de novo chega a Semana Santa reinando a Pandemia com os males que a acompanham, obrigando-nos a fechar portas e portões, em debandada para salvar a própria pele! Na reclusão, perdendo fôlego e alegria de viver, batemos de frente com a angústia e o calafrio do risco iminente da morte se esgueirando para se aninhar nas profundezas de nosso ser.

Pouco a pouco janelas e portas vão se abrindo, pois o alarme para alguns é falso, nada mais do que uma gripezinha, que se afasta com tratamento precoce e, mais ainda, pelo poder de Deus acima de tudo. Vamos pois, porta a fora, para tocar a vida. Afinal, religião é religião; negócio é negócio. Como viver sem nossos botecos, restaurantes, supermercados e shopping centers, sem nossas festas, cultos e procissões?

Nos templos e igrejas, sinagogas e terreiros, como nos demais espaços sagrados, com nossos ministros, guias espirituais, padres e pastores, ganhamos o céu sem perder a terra! Tudo continua como dantes, uns com muito, outros com muito pouco e a imensa maioria com quase nada! Sempre foi assim, é o normal da vida. Assim será e Deus seja louvado!

Porém, o tempo passa, e o vírus vai ganhando mais força por causa de nossas falsas certezas. Mais do que uma gripe, a peste avança penetrando a fundo em casebres e palácios, uns morrendo à míngua, enquanto outros gozam de recursos que permitem atravessar a tormenta. Gritos e alaridos, protestos são ensaiados para defender a economia, enquanto a saúde despenca ladeira abaixo. O desespero bate nas portas das casas, dos templos e hospitais. Os centros de poder; alicerçados na falsidade de seus objetivos escusos e de alianças espúrias, permanecem omissos e coniventes com o genocídio galopante.

Nas entranhas degradadas da Mãe Terra, não mais fonte de vida, são gestados os vírus da peste que devora crianças, jovens e velhos. O senhorio humano desvairado e insano, rompeu a harmonia da Casa Comum. O tempo se esgota, e nossa presença na Casa Comum se torna cada vez mais insuportável. Apelamos para o milagre, quando a resposta está com a ciência e com a consciência que exaltam e honram a biodiversidade e a unidade do pluralismo das formas de vida em comunhão.

Desta forma, confusos e perplexos, “provavelmente viveremos a Páscoa mais insólita de toda a história cristã. Talvez, com exceção de alguns períodos de perseguição em alguns países e em certas épocas da história, as maiores festas cristãs nunca ocorreram sem celebrações públicas. Talvez não tenha havido até agora uma Páscoa, numa tão grande parte do mundo, com as igrejas vazias e em muitos casos fechadas” (HALÍK Tomás, O Tempo das Igrejas vazias, ed. Paulinas, pp 67-77).

Vamos, então, celebrar a Páscoa?! Mas qual Páscoa? Onde e como? Assim como nos questiona o teólogo tcheco Thomás Halík, criado num regime ateu diverso do nosso, pretensamente católico e evangélico, estamos dispostos a superar as barreiras ideológicas para encontrar o caminho da fé em Deus que se revela identificado com os descartados, deserdados e crucificados da civilização do ter, do poder e do prazer?

Em plena crise civilizatória, estamos sonhando com a volta à normalidade? Logo mais com meio milhão de vidas ceifadas pela peste nutrida pelo descaso, deboche e omissão, vamos continuar delirando alicerçados em nossas crendices e religiosidade? Ou, rompendo com as amarras que nos escravizam, ousaremos passar pelo vale da morte onde sepultaremos as caricaturas de nossa idolatria e de nosso modo de viver que nos transformou em hóspedes insuportáveis na Casa Comum?

A Pandemia torna-se para nós “Kairós”, uma dádiva do Amor Misericordioso que transforma a desgraça em graça! Muita coisa vai morrer e precisa morrer para o amanhecer do novo. Páscoa é a celebração da Vida triunfando sobre a Morte. Segundo Hálik, “neste tempo, a fé de muitos crentes é sacudida, e também muitos 'não-crentes' começam a interrogar-se sobre questões fundamentais”. (HALIK, Tomás in: A Pandemia como experiência ecumênica. Demolição e Reconstrução 2020).

A Páscoa é uma história de morte e ressurreição! Celebrar a Páscoa é uma decisão muito exigente, com implicações e desdobramentos que mudam o curso da história, seja a primeira reinando o Faraó, ou a de Jesus de Nazaré, que encerra a disputa entre Jerusalém e Garizim, pois Deus se encontra e se revela em Espírito e na Verdade da Vida; ou agora na Pandemia, inaugurando uma nova civilização, em que tudo será novo ou não será!

Estamos dispostos a enterrar nosso modo de ser e de crer como Igreja? Como posso dizer que sou evangélico e católico, reduzindo a fraternidade ao círculo fechado e restrito dos que pensam e creem como nós cremos e pensamos? Nada resolve mudar de Igreja ou descobrir novas estratégias e fazer piruetas mirabolantes para garantir a relevância e a adesão à nossa Igreja!

Coisa mais estéril e ridícula os gritos histéricos e a pressão para abrir e lotar os templos para louvar a Deus, bem como para acolher as generosas ofertas que garantam o esplendor e os serviços de seus templos.

Quantas coisas nos amarram e desfiguram, distanciando-nos dos primórdios da nossa herança e legado. Não havia senhores e nem servos, nem príncipes ou plebeus, nem ala masculina ou feminina, abastados e carentes; o ministério pastoral era exercido para uma Igreja toda ministerial, uma nova criatura que nasce mergulhando no mar de sangue e água que jorram da cruz.

Esperamos voltar com novas reflexões sobre o serviço convertido em poder, sobre as alianças que transformaram um pobre pescador em rei dos reis, pastores em príncipes revestidos com as pompas das cortes e palácios.

Quais os critérios que nos congregam e regem? Unidade no Pluralismo, Autonomia e Comunhão? Ou Centralização e Subserviência, Feudos e Senhorios?

Nesta Quinta-Feira Santa, ao recordar a Santa Ceia, em nossos cultos e missas, estamos celebrando e vivendo a Eucaristia? O Concílio Vaticano II nos ensina que “a liturgia é o cume para o qual tende toda a ação da Igreja”. (SC10).

Jesus de Nazaré, o Verbo encarnado, despojado de glória e poder faz um gesto de escravo que lava os pés de seu senhor! Na Igreja os últimos são os primeiros, os descartados são acolhidos, os chagados são curados?! Os impuros são acolhidos e purificados com o manto da misericórdia?!

A Eucaristia bem celebrada dispõe de duas Mesas para a Palavra e o Pão, pois a Palavra se fez Gente como nós e Pão que sustenta o peregrino. Eucaristia é Diálogo e Partilha do Amor Misericordioso. Acolher, entender, respeitar e amar as diferenças em suas variantes. Repartir o bocado, isto é, aquilo que é vida para mim.

Vamos celebrar a Páscoa em nossas casas, como nos primórdios, em volta da mesa, melhor se redonda, para o diálogo e a partilha que ajudem a entender quem nós somos, em que mundo vivemos e caminhar em busca de vida sempre mais plena.

“Se para muitos católicos a ida à missa dominical era um dos principais pilares da sua identidade cristã, agora terão de se questionar sobre o que pode ser uma nova e mais profunda fonte da sua vida de fé. O que faz de um cristão verdadeiro cristão, quando o funcionamento da Igreja tradicional de repente deixa de funcionar?” (HALIK, Tomás. O tempo das Igrejas vazias, p.13).

Essa pandemia tornou nossas mesas mais vazias. Há uma ausência, um vazio, uma saudade. A mesa é profundamente um lugar eucarístico. Os evangelhos nos mostram Jesus em várias mesas, rodeado de gente, sobretudo de pecadores. O Cardeal José Tolentino, diz que “no centro da liturgia encontrarás a mesa. A mesa onde Jesus quis comer a Páscoa com os discípulos, a mesa de todas as refeições abertas onde acolheu os pecadores, a mesa da Eucaristia onde ele repetidamente se oferece” (MENDONÇA, José Tolentino. Rezar de olhos abertos, p.186).

Votos e preces para a Páscoa de uma nova civilização!

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