Abusos: “De uma conscientização coletiva deve surgir uma responsabilidade colegial”. Entrevista com Nathalie Sarthou-Lajus, primeira editora da secular revista Études

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24 Fevereiro 2021

Passaram-se dois anos desde que o Papa Francisco convocou os presidentes de todas as conferências episcopais a Roma para uma grande cúpula sobre a crise de abusos sexuais.

Esse encontro – que ocorreu entre 21 e 24 de fevereiro de 2019 – não pôs fim a um dos mais devastadores escândalos e crises que já abalaram a Igreja. Na verdade, seu objetivo era forçar os bispos e todos os católicos batizados a lidar de forma mais resoluta com o abuso dentro de sua comunidade.

Os bispos da França estão no momento reunidos a três dias, de forma online, para refletir sobre suas responsabilidades nos casos de abusos sexuais por padres.

E uma das coisas que eles estão lutando contra é a linha tênue entre a culpa pessoal daqueles que cometeram os abusos e a responsabilidade coletiva daqueles que são parte da Igreja.

Esse é o tema da entrevista com Nathalie Sarthou-Lajus, filósofa e editora da renomada revista francesa jesuíta, Études. Trata-se da primeira mulher nomeada como editora da tradicional revista jesuíta francesa.

A entrevista é de Christophe Henning, publicada por La Croix, 22-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

 

Como a responsabilidade em uma agressão pode ser definida para além da parte culpada?

O princípio da responsabilidade é responder pelos próprios atos, mas também é poder responder pelo que fizemos ou deixamos de fazer.

O relacionamento está no cerne do exercício da responsabilidade... O que os bispos podem dizer hoje às vítimas ou, mais amplamente, aos fiéis?

A responsabilidade é uma dívida moral. Os bispos têm a obrigação de reconhecer o sofrimento das vítimas e reparar.

Não é mais simplesmente uma questão pessoal. Em virtude de seu cargo, os bispos devem ser responsáveis e prestar contas.

 

Mas então é uma responsabilidade muito mais ampla...

É uma obrigação moral que ultrapassa a obrigação legal.

O juiz pergunta pelo que sou responsável, enquanto a questão moral se pergunta por quem sou responsável, o que exige uma consciência do sofrimento causado.

Na verdade, testemunhamos o surgimento da responsabilidade sem culpa, um assunto sobre o qual o filósofo Paul Ricœur trabalhou muito.

Em certas situações vinculadas a organizações burocráticas, o emaranhado de causas e a interconexão de ações dificultam a avaliação das responsabilidades individuais e assistimos a uma responsabilidade descriminalizada que pode ser compartilhada no espaço e no tempo.

Por exemplo, em relação às gerações passadas, há arrependimento das falhas históricas – ou para as gerações futuras, há responsabilidade ambiental.

 

Como pode um grupo, um corpo, tomar consciência de sua responsabilidade?

A dificuldade com a responsabilidade coletiva é que ela não tem um rosto identificável e pode levar à perda da responsabilidade pessoal.

Por isso prefiro a noção de responsabilidade compartilhada, que não é mais atribuível apenas a um indivíduo, mas a toda uma rede de pessoas, pois o que é incriminado é mais o resultado de uma sucessão de intermediários.

Isso põe em causa a máquina infernal de um sistema burocrático construído no cancelamento da responsabilidade pessoal. Mas cada pessoa teve que escolher, ou simplesmente manter o silêncio.

É necessário superar a negação e caminhar para uma verdadeira conscientização coletiva da seriedade dos atos para que possa surgir a responsabilidade colegiada.

 

A conscientização também deve ser coletiva...

É muito difícil imaginar uma responsabilidade que pudesse envolver todos e ninguém em particular ao mesmo tempo... A responsabilidade moral é pessoal.

Hannah Arendt aponta para o julgamento de Adolf Eichmann de 1961 em Jerusalém como um exemplo dessa noção problemática de responsabilidade coletiva.

Entre a recusa de um líder nazista em assumir responsabilidades pessoais e o sentimento excessivo de culpa coletiva dos jovens alemães, ela afirma que ambas as atitudes são moralmente repreensíveis porque constituem uma fuga da realidade da responsabilidade pessoal.

É mais fácil se sentir responsável por um mal que alguém cometeu do que se sentir responsável por um mal que realmente você cometeu!

É verdade que podemos nos sentir responsáveis por atos cometidos por um membro de nosso grupo, nosso país, nossa religião e por solidariedade.

Mas até onde essa solidariedade deve se estender? Devemos pagar pelas falhas de nossos ancestrais?

É uma responsabilidade que envolve apenas indiretamente o indivíduo.

 

A responsabilidade coletiva é mais sobre pertencer a um grupo?

Existem responsabilidades em vários níveis, mas não se deve confiar apenas nos representantes do grupo ou da comunidade.

Gostaria de relembrar estas linhas de “Spotlight”, o filme sobre a investigação premiada do Boston Globe sobre o abuso sexual do clero: “Se é preciso uma aldeia para criar uma criança, é necessária uma aldeia para abusar deles”.

O senso de responsabilidade dos fiéis na crise dos abusos é uma oportunidade para colocá-los em pé de igualdade com os bispos e assumir sua parcela de responsabilidade na vida da comunidade religiosa a que pertencem.

“Só podemos escapar dessa responsabilidade política e puramente coletiva deixando a comunidade”, diz Hannah Arendt.

O que você acha dos fenômenos de arrependimento coletivo?

Tem um valor simbólico importante para o reconhecimento e memória do mal feito, desde que dê origem a uma verdadeira consciência coletiva e a uma mudança de atitudes.

As demonstrações públicas de arrependimento coletivo são delicadas porque também podem ser expressões teatrais baratas.

O arrependimento tem sentido moral apenas na relação interpessoal entre o agente que cometeu o mal e a vítima, pois implica uma transformação do agressor arrependido, com desejo real de mudança.

No arrependimento coletivo, quem se arrepende? Em nome de quem? A quem se dirige?

É muito importante manter a dimensão singular da ferida e, portanto, do arrependimento.

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