Um lugar para nós: ser gay no sacerdócio. Artigo de Jim McDermott, SJ

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08 Fevereiro 2021

“Ser gay em uma instituição na qual o único debate real em torno da homossexualidade a enquadra como um pecado a ser enfrentado ou como um segredo que deve ser mantido tem seus custos.”

O comentário é do padre jesuíta Jim McDermott, escritor e roteirista de cinema em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Segundo McDermott, “com o passar do tempo, você pode começar a perder a noção do fato de que ser quem você é, na realidade, não tem problema algum ou mesmo de que você existe. É como se você aprendesse a prender a respiração tão bem que esquece que ainda precisa respirar”.

O artigo foi publicado por National Catholic Reporter, 26-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nos últimos nove meses, o famoso piano-bar Marie’s Crisis, em Greenwich Village, tem transmitido cinco horas de apresentações ao vivo todas as noites. Os artistas cantam os clássicos da Broadway de suas casas e telhados, enquanto os espectadores enviam pedidos de música e, com sorte, gorjetas.

Tenho sintonizado as apresentações há algum tempo. Não há nada como alguém cantando “Oklahoma” em seu quintal, enquanto seu sobrinho dá cambalhotas atrás dele, para desviar a sua mente do infindável fim de semana infernal que foi o ano de 2020.

Mas eu descobri que assistir às apresentações também me ofereceu outro tipo de alívio. Por quase 30 anos, eu tenho trabalhado na Igreja Católica como seminarista e padre jesuíta. Tem sido uma vida extremamente gratificante, cheia de desafios para enfrentar e inspirando pessoas.

Ao mesmo tempo, ser gay em uma instituição na qual o único debate real em torno da homossexualidade a enquadra como um pecado a ser enfrentado ou como um segredo que deve ser mantido tem seus custos. Com o passar do tempo, você pode começar a perder a noção do fato de que ser quem você é, na realidade, não tem problema algum ou mesmo de que você existe. É como se você aprendesse a prender a respiração tão bem que esquece que ainda precisa respirar.

Então, você se depara com uma página do Facebook em que as pessoas estão cantando músicas com o gênero trocado, sem vergonha. E de repente você percebe: “Espere, está certo. Eu estou aqui”.

* * *

Eu sempre fico surpreso com as pessoas que sempre souberam que seriam padres. Na infância, a minha escola de planejamento de carreira futura era muito mais do tipo “Homem-Aranha, mas no espaço sideral”. Quando eu cheguei à Universidade Marquette, no outono de 1987, eu nem sabia o que era um jesuíta.

Cinco anos depois, eu estava me inscrevendo para me tornar um. Em parte, eu queria ajudar as pessoas, assim como os jesuítas que eu conheci me ajudaram. Eu também ansiava pelo tipo de relação com Deus que eles pareciam ter.

Eu vejo agora que um terceiro elemento na minha escolha foi uma sensação nascente de mim mesmo, uma consciência de que eu era mais eu mesmo na companhia de outros homens.

Enquanto eu crescia nos anos 1980 em um subúrbio sonolento de Chicago, a homossexualidade não era algo sobre o qual você realmente ouvisse falar. Os meus anos de adolescência foram como os filmes de John Hughes daquela época – um monte de cabelos compridos, grupinhos e ansiedade por status, e as crianças queer nunca vistas ou mencionadas.

Na medida em que ser gay era para mim apenas um conceito naquela época, isso estava nas lacunas que eu havia criado para mim – as pessoas que eu evitava, os filmes que eu não assistia, as escolhas que eu fazia e que ignorava cuidadosamente. Como um vilão de um filme noir, todos os dias eu repassava os meus passos, apagando qualquer evidência da minha própria identidade.

Na época em que eu me inscrevi nos jesuítas, eu estava mais autoconsciente. Mesmo assim, quando o entrevistador principal me perguntou onde eu me colocaria em uma escala de 1 a 10, onde 1 era heterossexual e 10 era gay, eu não sabia a resposta.

Mas, nos anos que se seguiram, com bons colegas de turma e um diretor de noviços que sempre citava para mim o poeta alemão Rainer Maria Rilke, eu lentamente comecei a me ajeitar em mim mesmo. A parte inicial da minha formação foi como uma comédia romântica dos anos 1980, com muitos momentos em que eu me batia nos batentes das portas e tropeçava nas palavras enquanto finalmente começava a ver e a sentir as coisas que estavam enterradas há tanto tempo.

Tive muita sorte de passar por tudo isso nos jesuítas. De fato, durante toda a minha vida na ordem, eu tenho estado rodeado por amigos e mentores de todas as orientações, que me aceitaram, riram comigo (e ocasionalmente de mim) e me mostraram, através das suas vidas, muito sobre como ser generoso, humano e feliz. Tenho convivido com homossexuais hilários, que adoram ser eles mesmos e ser jesuítas, e outros que suportaram silenciosamente um grande sofrimento por serem quem são.

Quando a minha irmã de 13 anos morreu repentinamente em um acidente de carro pouco antes de eu entrar, os jesuítas cuidaram de mim com uma ternura e uma vulnerabilidade que continuam sendo a pedra de toque do que nossa vida pode ser.

No início da minha formação, eu me lembro de alguns de nós, heterossexuais e gays, assistindo ao episódio de Ação de Graças da série “ER”, em que Legaspi diz a Weaver que é lésbica. Estávamos sentados bebendo e comendo torta. Quando Legaspi “saiu do armário”, nós espontaneamente aplaudimos.

* * *

Ninguém diz a você: “Nunca fale que você é gay” enquanto você se prepara para ser ordenado. Você não encontrará isso listado em nenhum código de conduta, nem ouvirá uma menção disso em uma cerimônia. É algo simplesmente entendido, geralmente expressado em virtudes aparentemente benignas como “prudência”, “discrição” e “não se vestir de vermelho enquanto estiver em Pamplona”.

Eu não tive nenhum problema com essa expectativa. Eu não via como o fato de apresentar o silêncio como discrição pode fazer o desejo normal de compartilhar a sua própria experiência parecer autoindulgente, ou como chamar isso de prudência pode fazer você se sentir um vândalo. Eu não percebia o peso que pairava silenciosamente sobre a ideia de ser honesto e verdadeiro, com os âmbares faiscantes avisando do mal que você pode provocar não apenas a si mesmo, mas à própria ordem que cuidou de você e o ajudou.

Não, eu estava simplesmente feliz, após 11 anos de formação, por poder presidir os sacramentos e ser amigo das pessoas como padre. Além disso, eu poderia pregar facilmente com base no meu próprio entendimento da autoaceitação e do amplo amor de Deus por todos nós, sem ter que usar uma estola de arco-íris. E, se eu fosse mencionar pessoas queer em uma homilia ou artigo, provavelmente não seria uma má ideia pensar em incluir outros grupos marginalizados ou maltratados também. Afinal, o sacerdócio não deve ser o púlpito para a agenda ou as necessidades de nenhum padre individual.

Fazer o melhor com aquilo que me era permitido, tentar ser um lugar de acolhimento para as outras pessoas que se sentem rejeitadas ou fora da Igreja e voltar para casa todas as noites indo ao encontro de uma comunidade na qual eu fosse conhecido e pudesse me sentir seguro: essa era a minha esperança para o sacerdócio e, em grande parte, essa tem sido a minha vida.

Com o passar do tempo, cheguei a me considerar “fora do armário”, porque a maioria das pessoas que eram importantes para mim sabiam quem eu era. Acho que muitos padres gays sentem o mesmo. Somos vistos e conhecidos pelas pessoas de quem gostamos. Isso basta.

Mas, que inferno!, em muitos lugares, isso é tudo o que é possível. Mesmo que a nossa vida real como padres gays não seja terrivelmente incomum, muito menos controversa, a retórica que pode ser levantada sobre a homossexualidade pode ser intensa e assustadora. Se você é um homossexual de 60 e poucos anos que ama a Deus e passou a vida inteira trabalhando pela Igreja, você não teria exatamente boas perspectivas de emprego caso fosse expulso.

* * *

Mesmo que eu me sentisse feliz em minha vida como jesuíta, em algum momento eu comecei a notar mudanças no meu comportamento. Eu me preocupava com o fato de “curtir” muitas postagens de pessoas abertamente queer; isso poderia me causar problemas? Em casa, eu me encontrava aberto com menos pessoas e, ao interagir com outras pessoas queer, eu rapidamente me desculpava.

Não que eu tivesse medo de ser associado a elas, como eu percebi. Eu tinha medo de ser visto.

Eu já testemunhei o mesmo em outros padres às vezes, uma cautela que parece se aprofundar à medida que envelhecemos. Parte disso não é uma função da sexualidade em si mesma, mas do envelhecimento e das lutas mais gerais da Igreja com a afetividade. Muitos de nós fomos ensinados a tratar os nossos sentimentos como os troféus de beisebol do colégio que você guarda no sótão – tudo bem em tirar o pó deles e dar uma olhada neles em casa de vez em quando, mas, caso contrário, provavelmente é melhor mantê-los fora de vista.

Mas os afetos mantidos em segredo são como os planetas ocultos que me fascinavam quando criança; mesmo quando você não pode vê-los, eles deformam o espaço ao seu redor. E assim nós, clérigos, podemos nos tornar cáusticos quando deveríamos ser atenciosos. Construímos muros quando deveríamos ser vulneráveis. Vivemos escondidos, enquanto pregamos: “Não tenham medo”.

Conforme fui ficando mais velho, também me vi confrontado com as possíveis consequências das minhas escolhas em relação aos outros. Tenho sete sobrinhos e sobrinhas, um afilhado, uma afilhada e muitos amigos com filhos. Ser o padre que visita quando os filhos dos seus amigos são pequenos é como visitar os Muppets. É caos e hilaridade, e você volta para casa se perguntando como eles conseguem fazer aquele show todos os dias.

Mas, então, essas crianças ficam mais velhas, e você as vê começando a se abrir para o mundo ao redor delas e fazendo grandes perguntas sobre a vida. E eu me perguntava se o fato de elas terem um padre como tio ou como um amigo da família poderia encorajá-las a levar mais a sério não apenas a ideia de que existe um Deus que as ama, ou que eles têm dons destinados aos outros, mas também que as mulheres são de alguma forma menos capazes de liderança do que os homens. Se elas fossem queer, teriam mais probabilidade de pensar que há algo de errado com elas?

Eu li em algum lugar que, certa vez, Flannery O’Connor refletiu sobre o fato de que alguém poderia se converter ao cristianismo e, mesmo assim, se tornar uma pessoa pior. A minha preocupação era semelhante: o fato de me terem como tio, padrinho ou amigo da família poderia encorajar os jovens que eu conhecia a desconfiar ou a desprezar a si próprios ou a outros? Esse efeito já tinha sido causado nos alunos do Ensino Médio aos quais eu havia lecionado?

Como padre gay, você tende a pensar no seu silêncio como um ato obrigatório de autossacrifício. Mas, na verdade, nosso autoapagamento também contribui para que outras pessoas acreditem que não há lugar para elas na Igreja ou no mundo, assim como às vezes lutamos para acreditar que realmente há um lugar para nós.

A nossa reticência em compartilhar as nossas histórias dentro da Igreja ou em falar abertamente quando pessoas queer são demitidas ou maltratadas também abre espaço para a narrativa eclesial sobre a homossexualidade, principalmente por parte de quem nos entende mal ou nos demoniza.

Sonhamos com uma Igreja que nos aceite. Mas, de forma realista, será que a nossa instituição crescerá na sua compreensão sobre a sexualidade se nós, que temos experiência tanto como gays quanto como clérigos, não nos posicionarmos junto de outras pessoas queer e de outras Igrejas cristãs, e não compartilharmos aquilo que Deus nos mostrou, que, embora adorássemos não ter mais medo ou vergonha para não nos sentirmos em perigo ou como um fardo, nunca escolheríamos não ser quem somos? Que experimentamos as nossas vidas e sexualidades como um enorme dom?

Quem pode dizer que não foi por isso que Deus chamou homens gays ao sacerdócio, acima de tudo? Certamente, ele chamou muitos de nós.

* * *

A minha imagem de Deus costumava ser Jesus, filho cabeludo do carpinteiro, que anda por aí com aquela que parece ser uma roupa desconfortavelmente pesada – “O que é isso? Serapilheira?” – oferecendo uma palavra de esperança e de acolhimento, e permanecendo fiel ao seu amor por nós, embora isso lhe custasse tudo.

Mas, hoje em dia, eu me vejo pensando em Deus mais como um mistério. É a experiência de olhar para um céu noturno repleto de estrelas e ser dominado pela sua imensidão infinita. O primeiro instinto é correr e se esconder da consciência de como somos ridiculamente pequenos. Mas, do outro lado desse momento, há um grande alívio. Passamos grande parte das nossas vidas pensando que tudo gira ao nosso redor. Perceber que não é assim é se livrar de um fardo terrível.

Quando se trata de sexualidade, acho que alguns na nossa Igreja e em outras Igrejas ficam presos naquele momento inicial de terror. Sobrecarregados pela vastidão infinita que é o coração humano, eles se agarram a modos de se sentirem no controle. E então insistem em definições que não correspondem à experiência vivida, aos estudos científicos ou ao exemplo de Jesus. Eles silenciam, criam bodes expiatórios, condenam.

Esses não são atos de indivíduos tentando encarnar o amor infinitamente acolhedor de Deus, ou mesmo apenas tentando ser uma fonte de bondade no mundo. São escolhas de pessoas que se encontram fora do seu domínio, com raiva e com medo.

Eu entendo essa sensação de estar sobrecarregado e com medo. Muitas pessoas queer também.

Mas a Igreja não precisa ficar nesse lugar de medo, como o próprio Papa Francisco demonstrou recentemente com seus comentários de apoio às uniões civis.

Para quem está disposto a fazer uma pausa e a se sentar por um momento antes do maravilhoso, bobo, doloroso mistério espiritual que é ser humano, eu posso lhe garantir que há alguém online no Village que tem uma música para você. É apenas uma canção de um musical, eu sei. Mas você ficará surpreso com o quanto isso pode lhe ajudar a começar a respirar.

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