“Estamos deixando para trás uma certa fobia em que as mulheres deveriam ficar à margem do institucional”. Entrevista com Anne-Marie Pelletier

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18 Janeiro 2021

O Papa Francisco oficializou a possibilidade das mulheres fazerem as leituras durante a missa, bem como participar no serviço do altar ou dar a comunhão. Revolução ou normalização? As explicações da biblista Anne-Marie Pelletier.

A entrevista é de Sophie Lebrun, publicada por La Vie, 12-01-2021. A tradução é de André Langer.

Fazer uma leitura durante a missa, servir ao altar ou dar a Eucaristia: para todas estas tarefas, as mulheres podem agora receber uma missão específica e estável da Igreja. É o que estabelece a carta apostólica na forma de Motu Proprio Spiritus Domini, tornada pública pelo Papa Francisco na segunda-feira, 11 de janeiro, ao abrir o ministério instituído do leitorado e do acolitado, até agora reservado aos homens, a todos. Uma evolução que oficializa práticas já comuns em muitas Igrejas ao redor do mundo.

Esta evolução faz parte de um “desenvolvimento doutrinal”, acredita o papa numa carta que acompanha esta modificação do direito canônico, que “destacou como certos ministérios instituídos pela Igreja baseiam-se na condição comum dos batizados e do sacerdócio real recebido no sacramento do batismo”.

“No horizonte de renovação traçado pelo Concílio Vaticano II, há hoje um crescente sentimento de urgência para redescobrir a corresponsabilidade de todos os batizados na Igreja e, em particular, a missão dos leigos”, especifica Francisco antes de acrescentar: “O fato de oferecer aos leigos de ambos os sexos a possibilidade de acesso ao ministério do acolitado e do leitorado, em virtude de sua participação ao sacerdócio batismal, aumentará o reconhecimento, também por meio de um ato litúrgico (instituição), da preciosa contribuição que há tempos muitos leigos, inclusive mulheres, oferecem à vida e à missão da Igreja”.

Esta mudança ocorre em um contexto particular: a questão dos ministérios das mulheres na Igreja foi objeto de um estudo particular no Vaticano nos últimos anos, em particular com o estabelecimento da comissão histórica vaticana sobre o diaconato em abril passado. Uma de suas integrantes, a biblista francesa Anne-Marie Pelletier, Prêmio Ratzinger de Teologia em 2014 e autora do recente L’Église, des femmes avec des hommes (Cerf), analisa para La Vie as implicações desse motu proprio.

Eis a entrevista.

O Papa modifica o direito canônico, abrindo a possibilidade de que seja confiado às mulheres o ministério do leitorado e do acolitado. Do que estamos falando?

O ministério do leitorado diz respeito à proclamação da Palavra de Deus, durante a celebração da Eucaristia, exceto a do Evangelho que pertence ao sacerdote ou ao diácono. Quanto ao ministério do acolitado, está relacionado com o serviço do altar, portanto, com os atos necessários para assistir o oficiante, em particular distribuir a comunhão, mas também levar solenemente o evangeliário ou o círio.

O que, na prática, muda com este motu proprio?

Estes gestos já não pertencem mais, desde 1972 e do motu proprio Ministeria Quaedam de Paulo VI, às ordens menores que eram passos para a ordenação presbiteral. Eles se tornaram acessíveis aos leigos. Desde que esses leigos sejam homens, especificava o direito canônico! Uma disposição bem em sintonia com uma longa tradição desfavorável às mulheres, mas que, felizmente, hoje nos parece insustentável, para não dizer escandalosa. Não apenas as mulheres, como sabemos, são cuidadosamente mantidas longe do sacerdócio, mas uma discriminação entre homens e mulheres foi adicionada dentro do próprio laicato. O bom senso antropológico e teológico é que muitas comunidades adotaram as práticas nas quais meninas e mulheres há muito tempo desempenham essas tarefas com seriedade e naturalidade. Longe de uma lógica de reivindicação ou de rivalidade. Uma realidade que o Papa Francisco legitima.

Isso se traduzirá em uma mudança das práticas nas Igrejas?

Em todos os lugares, muitos, onde se vive esta paridade batismal, a sua justeza será confirmada. Em outro lugar, deve haver matéria para aprofundar a reflexão. Continuamos aqui e ali a envergonhar-nos de preconceitos antiquíssimos relativos a uma alegada impureza das mulheres que as tornaria inaptas para o serviço do altar! Uma oportunidade para acabar com essas fantasias. De fato, no plano prático, este texto nos leva de volta a uma relação simplesmente normal entre os sexos, que a Igreja precisa urgentemente restaurar.

No entanto, tem um valor simbólico indiscutível na medida em que permite que as mulheres tenham acesso aos ministérios instituídos, os quais só os homens podiam reivindicar. É aí que reside a novidade. Já não se trata apenas de vislumbrar e permitir uma participação extraordinária das mulheres na ação litúrgica, como se faz amplamente. É a realidade de um ministério instituído que é legitimado. Canonicamente, transpomos uma fronteira. E isso é muito feliz. Estamos deixando para trás uma certa fobia em que as mulheres deveriam ficar à margem do institucional, para que a ordem clerical não fosse questionada.

Como essa mudança se encaixa nas reflexões da comissão histórica vaticana sobre o diaconato?

A pandemia dificultou os trabalhos desta comissão, que ainda não conseguiu se reunir. Mas esse motu proprio levanta, na realidade, questões próximas aos debates sobre um diaconato feminino. Também aqui a assimetria discriminativa entre homens e mulheres não é mais sustentável. O mundo católico se desqualifica ao se apegar a esta exclusão. Porém, neste caso, o debate se tornará mais difícil na medida em que o diaconato dos homens é objeto de ordenação. As mulheres diáconas poderiam ser ordenadas nesta diaconia? De qualquer modo, teremos de ter cuidado para não cair na armadilha que faria do diaconato das mulheres uma versão subdimensionada do diaconato dos homens.

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