“A meritocracia é um sistema de legitimação de privilégios herdados”. Entrevista com César Rendueles

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07 Outubro 2020

Se há um discurso recorrente na direita, é sua aposta entusiasmada na meritocracia. Como resposta veemente em que define a meritocracia como uma fórmula proposta pelas elites para perpetuar os seus privilégios, e como defensor da necessidade da centralidade das políticas igualitárias em uma sociedade democrática digna, César Rendueles (Girona, Espanha, 1975), professor de Sociologia da Universidade Complutense de Madrid, escreveu Contra la igualdad de oportunidades. Un panfleto igualitarista (Editora Seix Barral), um livro que derruba o mito da igualdade de oportunidades e afirma que “os países onde há mais mobilidade social, que mais se aproximam daquele ideal em que cada um consegue se dedicar ao que faz de melhor, são os países mais igualitários”.

A entrevista é de Rodrigo Ponce de León, publicada por El Diario, 02-10-2020. A tradução é do Cepat.

Diante do sequestro do ideal de liberdade pelos setores mais reacionários, Rendueles defende que a esquerda “reaja e reivindique a liberdade como um valor, que também se retroalimenta positivamente com a igualdade” e que as forças progressistas façam uma defesa intensa da institucionalidade contra a posição da direita, que busca apenas “esvaziar as instituições para depois de destruí-las pedir que sejam substituídas pela empresa privada e seus puxadinhos.

Eis a entrevista.

Como interpreta as medidas tomadas nas zonas sanitárias do sul de Madrid? Talvez não exista uma situação mais clara que exemplifique que esta suposta igualdade de oportunidades seja uma mentira, dependendo do local onde se vive.

O desdobramento da pandemia colocou uma espécie de lente de aumento na dinâmica social que já estava em andamento. Em particular, intensificou as desigualdades sociais em cidades já altamente estratificadas, como Madrid. A Covid-19 transformou processos mais ou menos inertes e invisíveis, dos quais normalmente não tínhamos consciência, em uma guerra aberta.

O bairro de Salamanca e, em geral, as elites econômicas e sociais de Madri foram às ruas, em maio, para enviar uma mensagem muito clara à presidente da Comunidade de Madrid. Isabel Díaz Ayuso aceitou esse mandato e está agindo em conformidade. Isso torna as desigualdades que já existiam mais manifestas, mais visíveis.

Durante a pandemia, uma série de empregos, como o de caixa ou repositor em um supermercado, foram considerados essenciais, mas as condições econômicas para esses tipos de empregos permanecem absolutamente precárias. Há reconhecimento, mas é claro que tentar alcançar a igualdade material é uma meta política de longo prazo, conforme você expõe em seu livro.

A pandemia mostrou claramente o valor social negativo e positivo de alguns trabalhos. Rapidamente, vimos que alguns empregos com salários muito baixos e sem muito prestígio eram realmente essenciais para as nossas vidas: do trabalho dos repositores à equipe de limpeza do hospital. Desses trabalhos, depende a vida e, no entanto, são mal remunerados e poucos valorizados.

No início da quarentena, acredito que experimentamos uma certa reavaliação coletiva desses trabalhos, mas foi algo fugaz e sobretudo expressivo: refletiu-se em aplausos e mensagens de agradecimento. Para que tal mudança penetre em nossa estrutura social é complicado, sorrisos não são suficientes. Implica que alguns grupos sociais muito amplos, não apenas uma pequena minoria dos super-ricos, assumamos - falo em primeira pessoa - mudanças e sacrifícios para permitir que aqueles que estão em situação pior melhorem sua situação. É imprescindível que os milionários comecem a pagar impostos dignos de tal nome, mas também os 20% e 30% da sociedade espanhola que vivem melhor precisam arcar com os custos. Isso é politicamente complicado e muito difícil de vender em um programa eleitoral.

Em seu livro, destrói o mito da meritocracia como um exemplo de igualdade e sugere que a igualdade de oportunidades ainda é uma falácia. Como explicaria isso para alguém da direita?

Gosto dessa pergunta porque escrevi este livro pensando em um leitor de direita, não tanto em um leitor de esquerda. Penso que não é tanto o caso que muitas pessoas conservadoras ou de direita rejeitem o igualitarismo, mas, sim, estão preocupadas que que este projeto seja incompatível com os valores associados à responsabilidade e ao esforço. Parece-me um ponto importante. Os valores relacionados às obrigações são imprescindíveis para um projeto igualitário e de esquerda, nem sempre conseguimos integrá-los em nosso discurso.

O que eu responderia a essas pessoas é que a meritocracia está lhes fazendo passar gato por lebre. Não é um sistema de recompensa pelo esforço, mas de legitimação de privilégios herdados. Na Espanha, os resultados acadêmicos de uma criança podem ser previstos com bastante precisão, simplesmente sabendo seu código postal. A meritocracia não serve para aumentar a mobilidade social, pelo contrário, bloqueia essa possibilidade para a maioria.

De fato, sabemos que os países onde existe mais mobilidade social, que estão mais próximos daquele ideal em que cada um consegue se dedicar ao que faz de melhor, são os mais igualitários. A maneira mais simples de promover a filha de um encanador a engenheira é que encanadoras e engenheiras ganhem o mesmo. Desta forma, sim, a mobilidade social é fomentada.

Agora, o discurso neoliberal tenta impor que devemos escolher entre igualdade e liberdade, que são conceitos incompatíveis e que a igualdade é um freio à liberdade.

A direita e, sobretudo, a extrema direita se tornaram atores políticos muito dinâmicos. Na última década, reformularam suas posições para encontrar novos nichos discursivos. Uma das guinadas mais surpreendentes é que os mais conservadores e reacionários estão conseguindo monopolizar o discurso em defesa da liberdade, o que é manifestamente absurdo e contraditório, mas em termos de projeção pública estão conseguindo. Temos que reagir e reivindicar a liberdade como um valor progressista, como um valor claramente de esquerda que também retroalimenta positivamente a igualdade.

A liberdade que a direita defende é muito limitada, é a liberdade do 'deixe-me fazer o que eu quero', do 'não me diga quanto vinho posso beber', de Aznar. A igualdade nos ajuda a entender que a liberdade é algo complexo, que temos que ir descobrindo com a ajuda de outros. Ajuda-nos a descobrir o que significa ser livre. A igualdade nos permite entender que ser livre não consiste apenas naquela coisa infantil de satisfazer nossos desejos imediatos o mais rápido possível, mas também em descobrir dimensões mais ricas de nossa subjetividade compartilhada.

Poderia dar um exemplo?

Acredito que é evidente no caso da igualdade de gênero. Os homens que tentam viver uma vida igualitária com as mulheres não têm menos liberdade do que aqueles que desejam preservar seus privilégios. Acredito que viver em liberdade com nossos iguais nos permite ter acesso a uma liberdade enriquecida, mais plena do que a de quem precisa de subalternos.

Você afirma no livro que “as bases de nossa servidão voluntária ao mercado é que parecem extrapolíticas, alheias ao controle e a qualquer intervenção e, portanto, também insubstituível”. Mas a realidade é que todos nós sabemos os nomes e sobrenomes dos grandes empresários, os nomes das empresas, como funcionam os lobbies, que partidos defendem certas políticas, etc.

Bem, é verdade que o mito do mercado anônimo e invisível como uma espécie de engrenagem social em que nenhuma instância ou grupo de interesse desempenha um papel protagonista, mas que é fruto de um equilíbrio espontâneo, é uma lenda completamente lisérgica. A realidade é que todos os processos de mercantilização são impulsionados, muitas vezes de forma violenta, pelo Estado e por grupos sociais muito específicos. Existem interesses com sobrenomes que contaminam permanentemente as relações comerciais, especialmente na Espanha, onde uma parte importante das elites econômicas são estritamente parasitárias, dedicam-se a vampirizar o público e são incapazes de desenvolver seu projeto próprio.

Em seu livro, também destaca que “só para reverter os efeitos da revolução neoliberal e voltar ao ponto de partida dos anos 1960, precisaríamos de medidas econômicas igualitárias que hoje nos parecem quase utópicas”. Quais seriam essas medidas? Ao defini-las como utópicas, não as estamos tornando impossíveis?

São medidas rotineiramente tratadas no debate político e sociológico de esquerda, como uma reforma tributária agressiva, mudanças no mercado de trabalho que restaurem direitos perdidos, políticas de restauração e expansão do Estado do Bem-Estar, como a renda básica... Mas mesmo com medidas desse tipo, muito ambiciosas na perspectiva atual, demoraria muitos anos para voltar ao cenário de antes da revolução neoliberal. É um diagnóstico de Anthony B. Atkinson, e é bastante angustiante.

Apesar de tudo, não sou pessimista. Há uma lição que devemos aprender com os neoliberais: plantando a semente da mudança, são gerados processos de retroalimentação positivos que fazem com que as mudanças se acelerem progressivamente. De fato, a própria velocidade do processo de mercantilização nos dá a ideia de que, às vezes, as transformações históricas são possíveis e muito rápidas.

O que considera que aconteceu com os sindicatos, durante a revolução neoliberal? Não souberam falar com as novas gerações em um determinado momento, falhou o discurso... Estou perguntando isso porque você coloca o trabalho sindical e a negociação coletiva como peças fundamentais para alcançar a igualdade.

Por um lado, o modelo keynesiano enfrentava uma crise real, era um sistema que se desfazia. As direitas souberam encontrar um projeto capaz de desafiar um grupo social heterogêneo, que iludiu as pessoas e conseguiu transformar as subjetividades e a cultura política vigentes até então. Por outro lado, pela esquerda, competiram diferentes projetos, não se conseguiu construir uma alternativa com um amplo apoio social.

Na Espanha, como em outros países, a resistência mais importante ao projeto de mercantilização veio dos sindicatos. Os grupos políticos à esquerda do PSOE não tiveram capacidade para se mobilizar, para resistir ao tsunami neoliberal. E o que aconteceu foi, simplesmente, que os sindicatos foram derrotados. Foi um processo global, aconteceu em quase todo o mundo, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Mas é justo reconhecer que os sindicatos tentaram, talvez não com toda a firmeza que alguns de nós pediam, mas foram a única oposição real que houve naqueles anos.

Com a revolução neoliberal que veio depois, vivemos uma espécie de experiência de laboratório traçada para que o trabalho sindical seja praticamente impossível, exceto para alguns trabalhadores com contratos estáveis. Toda a nossa regra trabalhista está delineada para que o sindicalismo não seja difícil, mas, sim, impossível.

No século XXI, faz sentido manter um discurso como a luta de classes ou devemos nos contentar em tentar explicar por que o imposto sobre a herança é justo e defender medidas dessa magnitude?

Faz sentido falar de luta de classes porque é uma forma de recolher os conflitos essenciais do nosso tempo, conflitos que estruturam as nossas sociedades, que não são episódicos, nem setoriais. Por isso, é uma ferramenta analítica indispensável. Dito isso, às vezes, tal tipo de terminologia se torna uma bandeira identitária. Existe conflito de classes em nosso país, mas também é verdade que as classes sociais na Espanha são complexas. Existe um conflito entre os 99% mais ricos e o 1% da sociedade, mas também existem outros conflitos entre os 30% mais ricos e os 70% restantes. Ou seja, há toda uma série de conflitos além daquele grande confronto entre os superpoderosos e todos os outros. Essa ideia da luta de classes como um objeto muito simples, muito fácil de entender, esconde outros conflitos.

Em seu livro, escreve que “o que nos compromete com a emancipação são as responsabilidades compartilhadas que estamos dispostos a assumir coletivamente” e, posteriormente, destaca que “o igualitarismo é incompatível com a competição generalizada, mesmo que seja uma competição de interesses virtuosos”. Qual a sua opinião a respeito das lutas dentro da esquerda com movimentos como o feminismo ou a reivindicação LGTBI?

As lutas faccionais são uma doença da esquerda há dois séculos. A esquerda sempre se dedicou a dar bofetadas em organizações que caberiam em uma cabine telefônica. É a nossa doença política porque não somos capazes de nos tratar com generosidade política e de saber dirimir o importante do acessório.

Outra questão distinta é a desconfiança daqueles movimentos que, nas últimas décadas, fizeram reivindicações que não fazem parte do patrimônio político da esquerda mais tradicional. Culpar esses movimentos pela fragmentação da esquerda é um absurdo. Esses movimentos que foram chamados de identitários enriqueceram a esquerda porque ajudam a compreender justamente que a igualdade é um projeto complexo, que a igualdade é um projeto que não consiste em dar o mesmo a todos, mas em dar a todos o que necessitam, o que requer para seu pleno desenvolvimento individual e coletivo.

A tese de que há 100 ou 150 anos os movimentos emancipatórios eram um grande bloco sociológico homogêneo é uma lenda urbana. Selina Todd, em seu livro El Pueblo, oferece um dado divertido e bastante revelador: na Inglaterra do início do século XX, o grupo trabalhista mais numeroso era o serviço doméstico. E era uma fonte de imenso conflito para as classes burguesas, porque era como ter o inimigo literalmente em casa. O sujeito da luta de classes não eram apenas os mineiros e os trabalhadores siderúrgicos, mas também, talvez sobretudo, as criadas. E o mesmo poderia ser dito dos migrantes e outros coletivos.

Chamou a minha atenção o fato de você destacar em seu livro que a sociedade de mercado “é essencialmente desinstitucionalizada” e que “o traço mais característico do capitalismo contemporâneo, ao menos no Ocidente, não é seu anticomunitarismo, mas sua rejeição ao institucionalismo”. No entanto, na Espanha, vemos como as principais potências econômicas, os grandes empresários, são os principais defensores de certas instituições como a monarquia.

Claro, porque fazem uma defesa muito ardilosa e niilista das instituições. Para começar, nem todas as instituições merecem ser preservadas. Existem algumas, como a escravidão e a monarquia, que são irreformáveis e deveríamos nos desfazer delas o quanto antes. Existem outras instituições, como as educacionais, sanitárias e judiciais, que vale a pena conservar e reformar.

Às vezes, na esquerda, nós nos concentramos nessa tarefa crítica, com a qual gostaríamos de melhorar essas instituições. Parece-me razoável. Mas também deveríamos fazer valer que somos seus autênticos defensores. Pelo contrário, a suposta defesa da institucionalidade por parte da direita é basicamente retórica: o que fazem é esvaziar as instituições para depois de destruí-las pedir que sejam substituídas pela empresa privada e seus puxadinhos.

 

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