Espaço, formato e partilha (e agora covid-19 e ‘distanciamento social’)

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21 Agosto 2020

"Como deveremos arranjar o espaço para a Liturgia da Palavra?". 

A pergunta é de Thomas O’Loughlin, padre da Diocese de Arundel e Brighton, na Inglaterra, e professor de teologia histórica na Universidade de Nottingham. Seu mais recente livro intitula-se Eating Together, Becoming One: Taking Up Pope Francis’s Call to Theologians (Liturgical Press, 2019). O artigo é publicado por La Croix International, 19-08-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo. 

 

Não experienciamos sem invocar o nosso senso de espaço – mesmo em matéria de fé nós imaginamos o “céu” como um lugar “nos céus”

Os filósofos normalmente destacam que o espaço é um dos pré-requisitos básicos da experiência humana. Nós existimos como criaturas espaciais: temos tamanho, local e movimento. Nós nos imaginamos no espaço, arranjamos as coisas no espaço em relação a outros itens localizados ao nosso redor. Constantemente nos localizamos (isto é, pomos em um lugar no espaço) as pessoas, coisas e ideias.

Não experienciamos sem invocar o nosso senso de espaço – mesmo em matéria de fé nós imaginamos o “céu” como um lugar “nos céus”.

Talvez saibamos não ser tão simples assim – rimos quando ouvimos que Yuri Gagarin dizer que deus não existe porque Gagarin esteve no espaço e não o pôde ver –, mas não conseguimos imaginar sem haver um tipo de localização. Portanto, rezamos para o nosso Pai que está no céu.

Porém, raramente paramos para refletir sobre este aspecto da nossa humanidade. E isso é particularmente verdade a respeito de nós, cristãos, que celebramos a liturgia: nós fazemos uso de um espaço e lugar para expressar a nossa relação com Deus, a relação de Deus com nós e as nossas relações uns com os outros, como irmãs e irmãos no batismo.

Em outras palavras, se somos pessoas que se envolvem em uma liturgia, então precisamos começar a pensar seriamente sobre o espaço – o arranjo do ambiente no qual realizamos as nossas adorações – e como este espaço pode facilitar ou dificultar a partilha.

Depois do Vaticano II, pretendíamos pensar sobre o espaço no qual adoramos – e como ele poderia manifestar uma eclesiologia –, mas, na maior parte, não falamos sobre o assunto.

Em vez de transformar o espaço no qual nós, o Povo de Deus, fazemos os nossos cultos, acabamos apenas mudando a mobília que estava em torno ao presbítero.

Em muitos casos, essa questão foi tão pouco considerada que até mesmo as pessoas responsáveis achavam que era apenas uma questão de visibilidade: como se o presbítero, presidente da liturgia, fizesse algo sobre um palco e a congregação estava lá como observador.

O desafio posto pelo Sacrosanctum Concilium foi o de encontrar um arranjo espacial que ajudasse todo mundo a vivenciar, como comunidade celebrante, unida em Cristo e em agradecimento ao Pai.

Hoje, muito de repente, estamos pensando sobre o espaço.

Na maioria dos lugares, as igrejas parcialmente reabriram suas portas e tivemos de nos arranjar de uma forma diferente. Para nos manter distanciados socialmente, tomamos ciência da questão espacial. Portanto, vivemos um bom momento para pensarmos os espaços dos nossos cultos, e o que estes espaços poderiam nos revelar e o que poderiam ser.


Duas salas de aula

Se formos pensar sobre a importância do espaço para nós enquanto comunidades, vale começarmos com um caso simples. Todos temos a experiência de sala de aula, todos passamos alguns anos frequentando-as.

Uma sala de aula é um formato, um espaço físico que modelou cada um de nós e, possivelmente, nos moldou mal em nossas atitudes para com a aprendizagem e a educação.

Observemos esta imagem – ela é praticamente idêntica à sala de aula em que passei todos os meus anos escolares – e o que ela nos diz?

Configuração da sala de aula (Foto: Reprodução)

É uma sala onde a vida mostra-se bem organizada; uma sala que exala autoridade em seu arranjo. Ela não foi projetada para incentivar a dúvida, a discussão ou a individualidade. A disciplina é um prêmio. Por sua vez, este seu arranjo relaciona-se com uma filosofia da educação.

Os alunos são uma tábua vazia que é preenchida pelo professor que despeja os fatos necessários.

Há uma lousa limpa atrás do professor, literalmente uma tábula rasa, o que combina com a mente dos alunos sentados às carteiras: cada mente é uma tábula rasa e imagina-se que o professor, ao pôr os fatos sobre a lousa, imprime os mesmos fatos às mentes mais jovens.

A educação é vista como essencialmente um descarregamento de informações a partir de alguém que as dá (o professor que é uma figura de autoridade diferente em seu status para com os pupilos) a um grupo de receptores.

Esta configuração espacial existe em um mundo binário: os que dão X os que recebem; os possuidores X os não possuidores; os falantes X os ouvintes; os superiores X os inferiores. Pouco espaço há para as sobreposições: ou sabemos ou não sabemos.

É uma imagem não muito diferente da imagem da Igreja promovida pelo Papa São Pio X: a Igreja é feita de duas partes desiguais: os clérigos que ensinam, comandam e formam a parte “ativa” (a ecclesia docens), e os leigos que são liderados, ouvem e obedecem, e cujo papel é passivo e receptivo (a ecclesia discens).

Agora, vejamos uma sala de aula moderna e que resposta ela evoca?

Nova configuração da sala de aula (Foto: uca.edu.ar)

Esta configuração pressupõe que a educação é um processo muito mais complexo do que se poderia sugerir como uma tábua vazia sendo preenchida com fatos nela lançados.

Este novo arranjo das salas de aula aconteceu porque os professores e os psicopedagogos perceberam que o arranjo antigo gerava resultados péssimos. Isso se apresenta como uma verdadeira surpresa para muitos daqueles conservadores que sonham com um tempo tranquilo de “escolarização séria” e professores que distribuem “leitura, escrita e aritmética” junto de um catecismo de perguntas e repostas.

Mas, se funcionava tão bem, então por que se as linguagens – precisamos aprender para ser criativos – são um tema tão raramente dominado através deste processo?

Aprendemos, lentamente porém com segurança, que mover o mobiliário das salas de aula, tendo muitos formatos e alterando-os, e tendo arranjos novos para os assentos, seja para o grupo todo, seja em pequenos grupos, facilita o aprendizado, a partilha, a descoberta e o crescimento não só na compreensão, mas também na significação do que está sendo apreendido.

O formato espacial da sala de aula pode impactar na atenção prestada durante uma lição, na criatividade, na motivação, no bem-estar dos alunos, e no quanto eles levam consigo (aqui uma outra imagem espacial). Em suma, ele é projetado para fomentar a colaboração entre todos, pupilos e professor, e o professor é menos um oráculo e mais um guia experiente.

Agora reflitamos sobre a subjacente filosofia de conhecimento que está em jogo na segunda configuração. Ela pressupõe que cada um na sala traz algo para o aprendizado e para o grupo. Além disso, a aprendizagem é pessoal: cada indivíduo aprende de forma diferente e aquele com quem nos sentamos faz a diferença.

As mesas comunitárias mostram que nós aprendemos dentro de comunidades e que devemos compartilhar o conhecimento. Dito de outra forma, não somos páginas em branco, mas sabemos coisas e temos inteligência.

Não registramos informações para a repetição, mas as processamos para usar durante a vida.

Isso se dá em grupo, e é dentro de pequenos grupos que realizamos o nosso crescimento mais importante. E, mais importante ainda de tudo: o próprio conhecimento não é um corpo fixo de fatos, mas algo que evolui, que se desdobra, o resultado da descoberta.

 

Agora um espaço litúrgico

Vejamos esta cena familiar: uma igreja vista do santuário na direção da porta. É uma igrejinha do interior do país e que poderia ser uma igreja católica de tantos outros lugares nestes últimos séculos. Os bancos chegaram depois da Reforma e foram postos aí para incentivar o povo a se sentar quieto e a ouvir os sermões.

Pequena capela (Foto: Pixabay)

Diferentemente das igrejas protestantes, não há uma ênfase na escuta das leituras durante a missa. Estas leituras eram em latim, e já que havia a pressuposição de que ninguém de fato as ouviria, elas eram normalmente lidas pelo padre – de costas para o povo ao qual ele presumivelmente dirigia a leitura – em voz baixa, a ponto de não se poder ouvir além do altar, mesmo em igrejas pequenas como esta.

Tal atitude para com as leituras começou a mudar no começo do século XX, com alguns padres incentivando os “missais do povo”. Nestes livros, alguém poderia fazer as leituras na língua local, mas poucos se importavam. Tais missais eram tidos como livros de orações pela minoria que poderia se dar ao luxo de tê-los.

A noção de que a assembleia poderia ouvir as leituras – lidas por um padre no púlpito na língua local enquanto o presidente da cerimônia as lia em latim – é uma ideia do final dos anos 1950. Na verdade, ouvir as leituras só começou no final da década 1960, e a prática atual começou em 1970.

Olhando para esse prédio, a questão que se levanta é: Ele se parece mais com a antiga sala de aula ou com a moderna? Poucos duvidariam de que se trata de um espaço muito parecido com a sala de aula com carteiras individuais antigas.

De fato, o auditório e a nave formam espaços muitas vezes comparados. Em ambos os casos, o arranjo dos assentos serviu para promover a quietude dos ouvintes, enquanto a parte ativa de transmissão acontecia mais à frente.

 

Não retomar simplesmente, mas renovar

Agora que precisamos ficar arranjados de um modo especial nos bancos das igrejas para garantir o distanciamento social, nos tornamos cientes do espaço real de um jeito novo.

Realmente, podemos nos perguntar se esse espaço – análogo, em diversos sentidos, ao arranjo em uma sala de cinema ou teatro – é apropriado para o que fazemos quando nos sentamos / ficamos de pé nele.

Por motivos de espaço, vamos apenas olhar para a adequação do arranjo à primeira parte dos nossos encontros de domingo: a Liturgia da Palavra.

Nesse momento, nos colocamos espaçados, normalmente nos bancos / assentos fixados firmemente. Mas há um jeito melhor?

Comecemos com as leituras. Devemos ouvir a primeira leitura (tirada do Antigo Testamento) e o evangelho aos domingos como parte de uma história que revela a nossa mais profunda identidade como discípulos.

O Antigo Testamento é o alicerce que fez os primeiros seguidores ouvir a Jesus. Temos uma história negativa, de tratá-lo como “apenas um antecedente” ou “algo ultrapassado”. Porém temos que continuar nos lembrando dele – é por isso que o lemos aos domingos – porque, sem absorvê-lo até certo ponto, não conseguiremos apreciar o que está sendo anunciado no Evangelho.

Assim, necessitamos de um arranjo que facilite a atenção para o que o leitor nos apresenta. O modo normal de se facilitar uma tal leitura são assentos bem espaçados, de forma que cada um possa enxergar diretamente aquele que lê.

Imaginemos uma pessoa adentrando um escritório e lendo os últimos dados financeiros, e percebamos como as pessoas se põem para ouvir: eis o modelo para a escuta da primeira leitura (e, nesse caso, a leitura de um dos autores da Igreja primitiva como Paulo).

Mas nós não apenas ouvimos como também respondemos: o salmo é um hino de louvor. Portanto, deveríamos ter um arranjo a permitir que um grupo cante ou um grupo especial de cantores.

Da mesma forma, muitos dos salmos pressupõem certo movimento. De fato, até a chegada de assentos fixos, este momento era muitas vezes um momento de procissão, um movimento e uma dança. Eis por que muitas das “sequências”, que não funcionam quando simplesmente lidas, têm um ritmo de percussão.

Ouvimos Evangelho não só como informação – o que pode ser verdadeiro tanto para a leitura do Antigo Testamento quanto para a Epístola –, mas como um momento em que os discípulos se apegam às palavras do Mestre. Ficar de pé juntos é um ato de solidariedade comunitária: somos aqueles que se põem juntos de pés como discípulos. Não se consegue transmitir isto de pé em fileiras, uma atrás da outra.

No universo militar, vemos uma demonstração curiosa deste arranjo espacial. Quando as instruções formais acabam, instrutor a falar ao grupo pede que os soldados “se aproximem ao redor” e aí todos sentem uma união entre si, com o instrutor e com a causa.

Esta sensação de união, ombro a ombro, assume um novo significado quando chegamos à Oração dos Fiéis. Aqui não se trata das nossas “cartas individuais ao Papai Noel” sobre o que queremos, mas dos batizados agindo como presbíteros, fazendo intercessão, com Cristo, para a assembleia, para toda a Igreja de Deus e para toda a humanidade.

Aqui também devemos nos imaginar, usando um imaginário que remonta ao templo de Jerusalém chegado até nós através da Carta aos Hebreus, como estando no pátio do céu, com a dignidade de ficar na presença de Deus e interceder. É um ato corporativo, e o arranjo exterior deveria manifestar isso.

Da mesma forma com a Profissão de Fé, outro ato corporativo: afirmamos quem somos e, mais uma vez uma imagem espacial, “onde nos encontramos”.

Somos o grupo que acredita em Deus – Pai, Filho e Espírito – e que espera ansioso pela ressurreição dos mortos e pela vida do mundo por vir. Estamos juntos nesta profissão!

Resta a homilia.

Suponhamos que queremos deixar uma mensagem de amizade, ajuda e coragem a um grupo de pessoas que consideramos da família, uma fala como irmãos e irmãs.

Que tipo de arranjo escolheríamos? As probabilidades são as de que adotaríamos qualquer forma, exceto adotar arranjos espaciais que usamos normalmente aos domingos.

A nossa configuração espacial padrão assemelha-se com aquele que fala com superioridade aos outros, a pessoas em situação inferior, lembra a desigualdade, um modelo educacional de “eu sei, mas você não”, e incentiva o estilo da retórica de auditório.

A palavra “pregação” é uma palavra com conotações negativas. É nesse momento que fica mais fácil ver por que uma pesquisa sociológica sobre o culto cristão descobriu que as pessoas se desligavam nessa hora por ser “pomposo e paternalista”. Covid-19 ou não, a verdade é que temos um grande problema com os arranjos espaciais nas nossas pregações.

Não mais nos referimos a este momento como um “sermão”, mas como uma “homilia”. Que palavra curiosa: por que não chamar de discurso (por vezes essa é tão enfadonha quanto prolixa) ou palestra (este frequentemente tem um tom didático que lembra a música: “Papa, don’t preach”)? Homilia, palavra grega, implica um diálogo, uma conversa, uma partilha de ideias.

Essa situação também requer respeito de parte daquele que profere a homilia: o Espírito está trabalhando em cada coração e muitos dos que escutam têm mais a dar à conversa do que o homilista. Nenhum arranjo espacial necessita mais de renovação do que esse.

No presente momento, parece que o espaço se reduziu a uma questão de demarcação sobre até onde podemos X até onde não podemos nos sentar nos bancos das igrejas.

Rezemos para que, em breve, não mais precisemos de “medidas à la covid-19”. Aí então, será a vez de pensarmos: como deveremos arranjar o espaço para a Liturgia da Palavra?

 

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