Os três rostos da solidão: a reflexão de Hannah Arendt à luz do recente confinamento

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • É preciso um lockdown nacional. Com urgência

    LER MAIS
  • O rosto feminino de Deus. Uma leitura do Salmo 22. Artigo de Lidia Maggi

    LER MAIS
  • O lugar da universidade brasileira. Palestra de Marilena Chaui

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


19 Agosto 2020

As últimas páginas do livro As origens do totalitarismo (“The Origins of Totalitarianism”, edição em inglês, 1951), de Hannah Arendt, são dedicadas à análise de três termos – isolation, loneliness e solitude – que representam três modos de estar sozinho que a filósofa alemã naturalizada estadunidense analisa com uma alta precisão linguística, que leva a esclarecer o conceito de solidão e ajuda a se orientar dentro desse sentimento que se manifestou com grande evidência no recente confinamento e que, no entanto, representa uma condição com a qual o ser humano deve se defrontar desde sempre.

O comentário é de Lucio Coco, estudioso italiano de espiritualidade e literatura cristã grega e antiga, em artigo publicado em L’Osservatore Romano, 18-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na sequência que a autora apresenta, que assume o caráter de um verdadeiro “clímax ascendente”, primeiro bem o isolation, o isolamento. Ele equivale a uma condição de solidão na qual “todos os contatos entre os indivíduos são rompidos”, e “as capacidades de ação, frustradas”.

O isolamento afeta a função relacional e política do ser humano de se organizar, de formar equipe, de criar grupo. O ser humano isolado paga o preço, em primeiro lugar, da impossibilidade da socialização. Normalmente, diz Arendt, os regimes totalitários sempre se beneficiaram dessa situação, na qual o uno prevalece sobre os muitos (pollói), sobre os quais, pelo contrário, se constrói a democracia da polis, que deve a sua etimologia precisamente ao adjetivo polýs [muito]”.

Do ponto de vista psicológico, o isolamento interrompe as malhas da relacionalidade dentro das quais o ser humano está inserido, faz dele uma ilha, mas nada impede que, nessa ilha, possa haver vida. De fato, embora isolado, o ser humano conserva intactas as suas faculdades criativas. Pelo contrário, o isolamento corresponde à exigência delas para que o ser humano possa se afirmar como homo faber.

No isolamento, ele pode continuar trabalhando, projetando. O mundo, do qual ele está isolado, permanece sempre no seu horizonte, precisamente por meio do seu fazer e realizar. Com efeito, escreve Arendt que, “no isolamento, o ser humano permanece em contato com o mundo como artifício humano”, e isso na medida em que ele consegue conservar “a capacidade de acrescentar algo de próprio ao mundo comum”.

A situação é diferente com a segunda forma de solidão, a loneliness, levada em consideração pela filósofa alemã. Na loneliness, o horizonte mundano que o ser humano pressupõe no seu isolamento é completamente anulado. O que predomina nessa segunda condição é o dado existencial do “sentido de absolutamente não pertencer ao mundo [not belonging to the world at all]”, que, para a escritora alemã, “é uma das experiências humanas mais radicais e desesperadas [which is among the most radical and desperate experiences of a man]”.

A loneliness, acrescenta ela, “está estreitamente ligada ao desenraizamento e ao supérfluo [uprootedness and superfluousness]; o desenraizamento de não ter um lugar reconhecido e garantido pelos outros; o supérfluo de não se sentir parte do mundo”.

A solidão da loneliness corresponde, por isso, a uma forma de alienação que é “contrária às exigências fundamentais da condição humana”. No entanto, como acontece com Dante que, na confusão da “selva”, também entrevê o “bem”, essa obscura passagem existencial que coincide com o estranhamento de si mesmo, do ponto de vista psicológico, também representa “uma das experiências fundamentais de toda vida humana [one of fundamental experiences of every human life]”, no sentido de que toda vida, para se formar e se fortalecer, deve necessariamente fazer as contas com tal condição de abandono.

A loneliness, porém, especifica a filósofa em uma passagem muito significativa da sua argumentação, não é a solidão. Na loneliness, de fato, “eu sou efetivamente uno, abandonado por todos os demais [deserted by all others]”, enquanto, na solitude, eu estou “comigo mesmo e, por isso, dois em um [two-in-one]”.

Na solitude, eu mantenho um “diálogo pensante [thinking dialogue]” comigo mesmo, no qual eu nunca perco de vista os meus semelhantes e o mundo, que permanecem sempre presentes no eu com o qual eu conduzo o diálogo.

Na loneliness, essa referência ao mundo se perde, e o ser humano se encontra na incapacidade de fazer companhia a si mesmo no colóquio íntimo que mantém entre si e consigo. É precisamente esse tipo de solidão boa, que leva Cato, no De re publica, de Cícero, a dizer (a citação também é de Arendt) que “nunca estava menos sozinho do que quando estava sozinho” [numquam minus solum esse quam cum solus esse]”.

O contrário é a má solidão da loneliness, que “perde o contato com o mundo dos seus semelhantes” e entrega o ser humano à condição de se sentir “abandonado por toda a companhia humana [I as a person feed myself deserted by all human companionship]”.

Há, no entanto, uma saída para essa situação. Isso ocorre quando o lonely man consegue se reencontrar e recomeçar “o diálogo da solitude [the dialogue of solitude]”. Ou seja, quando ele volta a falar consigo mesmo de modo que o mundo e os seus semelhantes voltem a povoar o seu eu como referências possíveis, embora não presentes.

É evidente que aqui a autora de “A banalidade do mal” se refere ao destino de muitos internados nos campos de concentração nazistas, que conseguiram se salvar do desespero e da loucura, quando não caíram nas mãos dos seus algozes, precisamente encontrando espaços de solidão verdadeira.

No entanto, desse modo, a escritora de origem judaica está mostrando a todos nós o caminho para subir novamente ao cume da “perda do eu” que ocorre na loneliness através da reconquista “da confiança em si mesmo como parceiro dos próprios pensamentos [the trust in himself as partner of his thoughts]”, que representa o pressuposto para transformar uma condição de fechamento em uma vivência positiva de abertura à vida que está na base de toda “solidão boa” em que cada um não sente que se perdeu, mas sim que se reencontrou.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Os três rostos da solidão: a reflexão de Hannah Arendt à luz do recente confinamento - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV