Bispo alemão reage à instrução paroquial vaticana, volta-se ao Caminho Sinodal como resposta ao ‘desafio romano’

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24 Julho 2020

Um bispo alemão reagiu à nova instrução vaticana sobre a vida paroquial, voltando-se para o Caminho Sinodal da Igreja alemã como “a única resposta a este desafio romano”.

A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Novena, 22-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Uma “mera repetição do direito canônico em vigor hoje” e uma “volta ao clericalismo”

A instrução publicada segunda-feira pela Congregação para o Clero “pegou nós bispos completamente de surpresa”, disse Dom Franz-Josef Bode, bispo da Diocese de Osnabrück, em nota, de 22 de julho, como reposta ao novo documento vaticano, que tem sido criticado por supostamente fortalecer o clericalismo e sufocar, ao mesmo tempo, o protagonismo dos leigos na Igreja.

“Embora estivesse claro que Roma comentaria as mudanças pastorais dos últimos anos, eu esperava um contato prévio com as realidades locais e uma melhor atenção à muito lembrada sinodalidade”, lamentou o bispo, que também é vice-presidente da Conferência Episcopal Alemã.

O prelado de Osnabrück lastimou que, embora a primeira parte da instrução vaticana “trace um caminho em direção à conversão pastoral para a evangelização e missão”, a segunda parte consiste numa “mera repetição do direito canônico em vigor hoje” e, assim, constitui uma “volta ao clericalismo”.

“Temo que as normas, por mais vinculantes que sejam, não serão eficazes se estiverem, em grande medida, ultrapassadas pela realidade”, disse.

Ele observou que os bispos alemães, com as diretrizes publicadas em agosto de 2015 e intituladas Gemeinsam Kirche sein (“Ser Igreja Juntos”) já dispuseram “há alguns anos a base para a resposta aos desafios dos tempos” em que os leigos, os religiosos, as religiosas e os padres “trabalham juntos para a salvação das almas”, base plenamente em sintonia com o que estipulam as leis católicas.

A necessidade de empregar leigos para cobrir a falta de padres “vai existir de modo permanente em muitos lugares”

A principal preocupação de Dom Franz-Josef Bode a respeito do documento recém-lançado é a representação que faz dos padres, os quais são reafirmados, na instrução, como os líderes supremos da paróquia, são eles quem tem a autoridade final para o “cuidado das almas” e quem tem palavra final, até mesmo nas reuniões pastorais e no conselho de finanças das paróquias.

Nesse sentido, o bispo de Osnabrück alegou que a especificidade do ministério ordenado “é enfatizada de maneira muito forte” na instrução, dado que, embora o padre tenha a vocação especial de preservar a unidade paroquial, a sua liderança neste sentido “só pode acontecer juntamente com a liderança de muitos”, já que o protagonismo da Igreja “tem muitos rostos”, como afirmaram os bispos alemães no Gemeinsam Kirche sein.

Atualmente na Diocese de Osnabrück há cinco leigos trabalhando em sete paróquias como “agentes pastorais”, cargo que a nova instrução vaticana estritamente proíbe.

No entanto, Franz-Josef Bode falou que a nomeação dessas pessoas está “completamente dentro do enquadramento do cânone 517, § 2, e também nos nomes dos ministérios”. Esta referência ao cânone 517 foi uma alusão à lei católica que permite que os bispos confiem aos leigos “a participação no exercício do cuidado pastoral da paróquia” em face da “escassez de sacerdotes”, mas a nova instrução do Vaticano insiste que um tal arranjo com pessoas não ordenadas só pode ser uma “solução pastoral extraordinária e temporânea”.

O bispo também se referiu àqueles poderes emergenciais que um bispo tem de nomear leigos a cargos que envolvam cuidados pastorais em resposta à falta de vocações, mas acrescentou que, a seu ver, a necessidade de empregar leigos para cobrir a falta de padres “vai existir de modo permanente em muitos lugares da Alemanha”.

“Dependemos da cooperação intensiva dos leigos. Caso contrário, não pode haver conversão à evangelização e à missão”

Apesar da instrução emitida pelo Vaticano, o bispo alemão afirmou, em seu comunicado, que, por enquanto, não ver “nenhuma necessidade de mudança na Diocese Osnabrück” em se tratando da “Igreja da participação” que a diocese tem construído, pois, segundo ele, os papéis dos leigos e leigas, no ministério pastoral, estão bem definidos e bastante dentro do escopo das diretivas vaticanas.

Entretanto, o religioso observou que o novo texto do Vaticano “é uma freada tão brusca contra a motivação e o apreço dos serviços dos leigos que fico preocupado sobre como vamos encontrar novos cristãos comprometidos dentro dessas condições e sobre como podemos continuar acompanhando e apoiando os nossos agentes de pastoral também”.

“Vivemos um momento em que há destacadamente muito poucos padres que podem ser pastores”, escreve Dom Franz-Josef Bode, razão pela qual “dependemos da cooperação intensiva de todos os que formam batizados e confirmados. Caso contrário, não pode haver conversão à evangelização e à missão”.

O bispo de Osnabrück enfatizou ainda que a instrução da Congregação para o Clero “faz do nosso Caminho Sinodal, na Alemanha, muito mais necessário, já que são exatamente estas as questões eclesiológicas que estão em jogo: a questão de como é uma Igreja da participação, como devemos entender o ministério presbiteral (...) e como as mulheres e os homens modelam a Igreja juntos”.

“Somente o Caminho Sinodal pode ser uma resposta a este desafio romano”, sublinhou.

O prelado conclui a nota prometendo que a Diocese de Osnabrück continuará a incluir os leigos em cargos de liderança, ao mesmo tempo que irá enfrentar as questões levantadas na instrução, dentro dos limites do direito canônico.

“Nisso, tentaremos permanecer conectados, de forma vigilante, ao Caminho Sinodal e ao desenvolvimento do formato da nossa Igreja”, comprometeu-se o bispo, convidando os seus companheiros de episcopado a preocuparem-se “de uma forma ainda mais intensa” com as questões em torno do papel dos leigos nas paróquias, o que o religioso notou ser um assunto de relevância especial “na maioria das dioceses” há muito tempo.

 

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