Platão e a sombra de Sócrates

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08 Julho 2020

“A sombra de Sócrates chegou até nossos dias. Suas ideias ainda nos ajudam a esclarecer o presente. Erasmo de Roterdã escreveu: Sancte Socrates, ora pro nobis! Não me ocorre nenhum motivo para interpretar suas palavras como uma hipérbole”, escreve Rafael Narbona, escritor e crítico literário, em artigo publicado por El Cultural, 07-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Platão foi um místico. Assim acreditava Simone Weil. Sua obra é uma manifestação de fé. Não no Deus cristão, que não conheceu, mas na profundidade do ser, cuja matriz última só é possível conhecer por meio da razão. É impossível desvincular sua figura da de seu mestre, Sócrates, que batizou a si mesmo como o “mutuca de Atenas”. Sua ironia, que desmontava com implacável rigor os argumentos de seus adversários, não brota da insolência, mas do propósito de ensinar os homens a exercitar sua própria razão, tal como destacou Condorcet em seu “Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano”.

É impossível averiguar até que ponto Platão atribuiu teorias próprias a Sócrates. Platão é um mistério. Conhecemos muitas coisas sobre sua vida, mas muito pouco de sua intimidade. Aparentemente, não se casou, nem teve filhos. Ou talvez nem sequer tenha feito menção por considerar algo irrelevante. Também não podemos descartar a possibilidade de que abraçasse um ideal ascético para consagrar todo o seu tempo ao estudo. Talvez, tenha considerado que os laços sentimentais eram apenas um estorvo.

Diógenes Laércio nos contou que seu verdadeiro nome era Arístocles e que Platão era um apelido, que significa “o que tem as costas largas”. Recebeu-o de seu professor de ginástica. Ninguém questiona a importância de sua filosofia, uma junta entre o Ocidente e o Oriente. É conhecida a frase do filósofo e matemático inglês Alfred Whitehead, segundo a qual a história da filosofia europeia é apenas um conjunto de notas de rodapé do pensamento de Platão.

Platão, que elaborou tantos mitos, já é um mito, assim como Sócrates e Aristóteles. Todos caminharam pela história, mas agora fazem isto por essa Academia celeste pintada por Rafael Sanzio, apontando-nos que o centro do saber é um eterno debate entre a terra e o céu, a caducidade da matéria e a perenidade do espírito.

Coleridge disse que todos os homens nascem platônicos ou aristotélicos. Eu, sem negar o gênio de Aristóteles, sinto-me mais perto de Platão. Em sua “Ode a um rouxinol”, John Keats escreveu: “Mas você não nasceu para a morte, oh, pássaro imortal!”. Penso que o canto do rouxinol triunfará sobre a morte. A beleza não é uma ínfima partícula na corrente do ser. O devir só adquire sentido sub specie aeternitatis.

Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. De linhagem aristocrática, nunca acreditou nas bondades da democracia. O primo de sua mãe, Crítias, foi um dos Trinta Tiranos. Platão sempre se mostrou partidário de que governassem os melhores, uma elite de sábios e guerreiros. Especula-se que foi aluno de Crátilo, seguidor dos ensinamentos de Heráclito. Em 407, houve o acontecimento capital de sua vida: conheceu Sócrates.

Durante oito anos, foi seu discípulo. Sócrates o ensinou que a filosofia não é um certame agonístico, mas uma divagação de resultado incerto. Essa perspectiva não agradou a seus concidadãos, que entendiam o debate filosófico como um concurso entre oradores que lançava vencedores e vencidos. Não compreendiam que era possível discursar tão somente testar, explorar, esboçar, conformando-se com um final infrutífero.

Platão aprendeu de Sócrates, “um samurai da sabedoria, impassível, simples, sem vaidade” (Yvon Belaval), que a filosofia é autodomínio, uma vitória sustentada sobre si mesmo. A sabedoria não é um saber positivo e empírico. Platão mostra Sócrates buscando inutilmente uma definição universal do valor (Laques), a piedade (Eutífron) e a moderação (Cármides). Em “Hípias mayor”, não se atreve a definir a beleza, pois não sabe com clareza em que consiste, e não esconde suas oscilações e dúvidas: “Ando errante por todas as partes em perpétua incerteza”.

Sócrates apenas deseja passar à posteridade como uma parteira que ajudou a dar à luz ideias. Não supõe certezas, mas não é um homem sem convicções. Pensa que não é necessário responder à injustiça com outra injustiça. É preciso fazer o bem por si mesmo, sem esperar recompensa. Não é pessimista. Entende que só o bem engendra alegria. A virtude não é uma paixão triste. Nossa natureza nos inclina a fazer o bem e só quando obedecemos a esse impulso, conseguimos paz e serenidade. O mal é apenas insuficiência, carência de bem.

Para seus contemporâneos, Sócrates foi um peixe flutuante, que amola, paralisa e desconcerta, obrigando a retificar o rumo. Sua sabedoria era para eles uma provocação com tons de bufonaria.

Quando em 399 foi acusado de ateísmo e de corromper os jovens, e condenado a tirar a vida com uma taça de cicuta, Platão fugiu para Mégara, temendo sofrer alguma espécie de represália. Não presenciou a morte de Sócrates, mas reconstruiu seus últimos momentos no “Fédon”, baseando-se nos depoimentos das testemunhas.

Nos anos posteriores, Platão viajou para o Egito, para Cirenaica (uma meseta situada na costa noroeste do que hoje é a Líbia) e para a Itália meridional, onde se relacionou com os círculos pitagóricos. Diz-se que Filolau vendeu para ele os escritos secretos de Pitágoras. Naquelas datas, começa a escrever seus primeiro diálogos: “Apologia de Sócrates”, “Protágoras”, “Górgias” e “Mênon”.

Em 388, viaja a Siracusa para assessorar Dionísio I, sonhando em instrui-lo até o tornar rei-filósofo, mas o tirano se cansa de seus conselhos e o vende como escravo. Resgatado por um amigo, volta a Atenas e em 387 funda a Academia, a primeira grande escola da Antiguidade, com aulas e biblioteca. A instituição permaneceria em funcionamento até Juliano I ordenar que fosse fechada em 529 d. C., alegando que todas as escolas pagãs representavam um perigo contra o cristianismo. Naquele período, escreve seus grandes diálogos: “Fédon”, “O Banquete”, “Fedro” e inicia “A República”.

Com a morte de Dionísio I, seu sobrinho Dion fala com Platão e pede para que retorne a Siracusa para educar Dionísio II, o Jovem. Quando desembarca na ilha, descobre que Dion, caído em desgraça, foi banido. Platão se torna um hóspede não desejado. Durante um ano, viveu quase como um prisioneiro. De retorno a Atenas, escreveu “Parmênides”, “Teeteto”, “Sofista”, “O Político” e “Filebo”.

Dionísio II, o Jovem, convida novamente Platão e este aceita. Não podemos lhe negar o dom da tenacidade. O resultado será catastrófico. Confinado em uma vila, Platão consegue abandonar Siracusa a duras penas. Já a salvo, declara que jamais voltará a se envolver em questões políticas. No entanto, sua última obra, “Leis”, que fica inconclusa, aborda o assunto do governo da pólis. Morre em 347 a. C. Sua vida segue envolvida no mistério. Talvez seja o destino dos grandes homens que rompem a monotonia do devir histórico.

Platão nos deixou em seus diálogos um comovedor e eloquente retrato de Sócrates, cuja filosofia é um convite a viver bem, ou seja, com sabedoria e justiça. O homem só se separa do reino dos brutos quando exerce a razão. Ainda que estivesse em jogo sua vida, Sócrates não bajulou e nem suplicou ao tribunal que o julgou, como era de costume.

Em sua “Apologia”, Platão nos conta que falou com o mesmo tom irônico que empregava na ágora. Quando lhe perguntam se não preparou sua defesa, responde que sua única arguição é sua vida, inteiramente dedicada a “considerar o que é o justo e o injusto” e a “praticar a justiça e a fugir da iniquidade”. Não aceita as acusações de sofista, destacando que nunca cobrou por suas aulas. Esclarece que apenas busca uma sabedoria “na medida do homem”.

Sócrates não se gabava de expor teorias incontrovertíveis. Apenas compartilhava sua perplexidade com os outros. Quando Querefonte, cidadão de notória virtude, interrogou ao oráculo de Delfos, perguntando-lhe quem era o homem mais sábio, respondeu Sócrates, pois era o único homem que compreendia a dimensão de sua ignorância. Esse reconhecimento é particularmente fecundo, pois constitui um irrenunciável ponto de partida para avançar rumo a um saber livre de dogmas absolutos e superstições.

Sócrates atacou a elite de Atenas: oradores, políticos, técnicos, homens de negócios, poetas. Fez isso porque considerou que não eram movidos pelo anseio de verdade e beleza, mas por uma insaciável vontade de poder. Seu desafio não ficou impune, pois foi considerado um perigo para os interesses das classes dominantes.

No julgamento contra Sócrates, Meleto representa os poetas, Lícon, os oradores, e Ânito, os políticos e homens de negócios. Não era fácil encontrar frentes vulneráveis contra um homem que não havia acumulado riquezas, nem privilégios. Sua integridade e coragem eram seu único patrimônio.

Por que o consideraram uma ameaça? Porque os jovens o escutavam com fervor e o imitavam, perguntando-se se a pólis está governada pelos homens apropriados. Porque mexia com as consciências. Porque examinava a tradição em uma perspectiva crítica. Humano, demasiado humano, quando errava, corrigia, sem sentir que se humilhava por reconhecer um erro. Sentia um profundo amor por Atenas, mas esse sentimento não obscurecia sua mente. Pensava que o afeto só é fecundo quando aponta as imperfeições. Um cavalo esperto e de boa raça é lento e pesado sem uma mutuca que o pique e desperte.

Sócrates não desejava ter discípulos, mas amigos. Seu discurso é político e pedagógico, mas, sobretudo, moral e filosófico. Em “Apologia”, comenta: “Nunca fui mestre de ninguém. Mas se alguém tem o desejo de me ouvir quando falo e cumpro minha missão, seja jovem ou velho, não o proíbo”. Sócrates tenta desmascarar o falso, mostrando os abusos e inconsistências daqueles que se erguem como juízes e se atribuem o poder de decidir sobre a vida de seus concidadãos.

A vida de Sócrates é um exemplo de responsabilidade cívica e exigência moral. Não conspira e nem arquiteta utilizar a força para se dar com o poder. Somente convida a pensar, sacudindo a cegueira que acarreta viver apegado à rotina e ao conformismo. Quando os juízes lhe oferecem várias penas, rejeita todas as alternativas. Não quer ser um prisioneiro que viva à custa dos cofres públicos. Não tem dinheiro para pagar uma multa. Não está disposto a fechar a boca, pois se nega a desobedecer à voz de sua consciência, a esse deus que o instiga sem cessar, obrigando-lhe a pensar e falar.

A possibilidade de exílio lhe resulta inaceitável: “O que seria a bela existência para mim, na minha idade, partindo para o exílio, mudando sempre de residência, de cidade em cidade, expulso de todas!”. Ser condenado à morte não o preocupa. A alma é muito valiosa para acompanhar o corpo em seu processo de putrefação.

Confinado em uma vila para que ele mesmo execute a sentença, seu amigo Críton o visita, suplicando-lhe que fuja. Ninguém o perseguirá. Sócrates responde que seu compromisso cívico o impede de infringir a lei, ainda que a pena imposta seja injusta. Sócrates morre cercado por seus amigos. Platão escreve com dor que a pólis acabou com a vida do melhor e mais sábio dos homens. Seu injusto final será o ponto de partida de sua determinação em filosofar. Não demorará a concluir que abominações como a condenação de morte contra seu mestre só poderão ser evitadas quando os governantes forem filósofos.

Sua catastrófica experiência em Siracusa o aconselha a esquecer a política, mas não renuncia a seu ideal do rei-filósofo. Nisto sim, destaca que a filosofia não pode ser simples retórica, mas um pensamento claro e consequente. Por isso, nem todos podem participar em assuntos de política. Só os melhores devem governar a pólis. Seria desejável uma sabedoria coletiva, mas essa esperança é vã. A excelência só é uma meta acessível para uma exígua minoria.

Em “A sociedade aberta e seus inimigos”, Karl R. Popper colocou Platão entre os inimigos da liberdade, afirmando que a utopia apontava para a dominação totalitária. Merece esse juízo? Herdou essa perspectiva de Sócrates, seu mestre? Seria absurdo julgar o pensamento de dois gregos da Grécia clássica com o critério de nosso tempo. Caso façamos, só chegaremos a conclusões grotescas.

O certo é que hoje ninguém questiona a necessidade de uma pedagogia seletiva que promova as inteligências mais notáveis para assumir a gestão das áreas mais complexas. Caso se deseje rebater a Sócrates e Platão, é preciso rejeitar a autoridade da razão, invocando outros valores, como o gênio irracional e a vontade de poder. É o que fez Nietzsche. A sombra de Sócrates chegou até nossos dias. Suas ideias ainda nos ajudam a esclarecer o presente. Erasmo de Roterdã escreveu: “Sancte Socrates, ora pro nobis!” Não me ocorre nenhum motivo para interpretar suas palavras como uma hipérbole.

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