A fisicalidade do corpo de Cristo

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05 Junho 2020

"Como podemos falar da Igreja como o "corpo de Cristo" e daquela "familiaridade com o Senhor" que Francisco indicou como condição da vida cotidiana da vida cristã e que ele sancionou como perigosa, se não for comunitária, continuando a perpetuar a subordinação das mulheres? Talvez, depois da pandemia, tenhamos que nos perguntar se podemos continuar a nos chamar e sentir comunidade, se à igualdade batismal não corresponde aquela eclesial", escreve Marinella Perroni, teóloga e biblista, fundadora da Coordenação das Teólogas Italianas, autora de vários livros, professora no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, em artigo publicado por Vita Pastorale, junho de 2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Não deve surpreender que a decisão sobre a possibilidade de celebrar publicamente a Eucaristia também tenha sido tão conturbada. A Igreja italiana vive em uma sociedade secular e altamente articulada, na qual a necessidade de uma participação institucional é premente, o que se torna ainda mais indispensável no momento de emergência que estamos enfrentando. Por outro lado, até Noé, para decidir quando abrir a porta da arca, teve que proceder por tentativas: primeiro ele soltou um corvo, e seu vai e volta mostrou que ele não conseguia encontrar um lugar para pousar; depois uma pomba, que voltou, porque ainda havia água sobre toda a terra; depois, embora após de sete dias a pomba finalmente tivesse voltado com o ramo de oliveira no bico, esperou por mais sete dias até que, soltando a pomba novamente, ela não mais retornou (cf. Gn 8,8-12) . E sabemos bem que o "quarenta" bíblico - dias ou anos não importa - não tem o significado de uma determinação numérica, mas remete a um tempo que, embora definível, permanece não mensurável.

Proceder por tentativa e erro em uma situação como a que estamos enfrentando é inevitável. Isso não significa, no entanto, agir como se nada tivesse acontecido. Tivemos a experiência de que "viver no mundo" significa aceitar suas leis quando elas são para o bem comum, não apenas para nós cristãos, mas para todos. Por outro lado, é uma experiência compartilhada que a situação de emergência permite ver a realidade mais claramente, enfrentar situações com maior realismo. O importante, então, não é o conflito de percepções ou o de aspirações e, talvez, nem mesmo o de decisões, mas a crivo das argumentações. É isso que nos permite tornar esses dias um tempo de graça. E talvez possamos chegar a entender a exortação de Paulo aos cristãos de Roma, quando ele os convida a "apresentais os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus" e o define como "vosso culto espiritual" (Rm 12,1). Corpos, adoração, espírito: três palavras em torno das quais se desenrolou o debate sobre a celebração das missas com ou sem pessoas, presencial ou virtual.

O que emergiu são, na realidade, problemas nodais, que não devem ser achatados na alternativa seca "missa-sim" ou "missa-não" ou no número de presenças possíveis ou nos metros de distanciamento físico. E, menos ainda, sobre possíveis ferramentas para distribuir a comunhão à distância. Ouvimos sugestões de todos os tipos e modelos, até causar arrepios. Parar nesse tipo de pergunta afasta a atenção dos graves problemas que surgiram e dizem respeito à teologia eucarística em que se baseia a prática celebrativa. Obviamente, não tenho pretensões aqui de entrar em um tema que merece uma ampla discussão, mas gostaria de chamar a atenção para o fato de que essa emergência celebrativa contribuiu para destacar ainda mais o quanto a nossa Igreja precise hoje de muitas competências teológicas.

Uma das questões cruciais da reflexão contemporânea, marcadamente influenciada pelo desenvolvimento das ciências humanas, é a da centralidade do corpo. Uma centralidade analisada e altamente teorizada, examinada também no âmbito filosófico e teológico. Portanto, não surpreende que a questão da presença real do corpo de Cristo em todas as suas formas sacramentais também se torne crucial no debate sobre a celebração da Eucaristia, numa época em que o mundo virtual oferece botes salva-vidas, não apenas para as relações familiares e de amizade, mas também, e maciçamente, do mundo da escola-universidade e do trabalho. Sem esquecer que a afirmação da inteligência artificial em breve imporá a superação de outras fronteiras e a movimentação em outros espaços. O debate, às vezes até duro, sobre "missas virtuais" destacou, no entanto, que ainda estamos longe desses mundos que, mais cedo ou mais tarde, se tornarão nossos cenários diários. Se teremos que aprender que o tele-trabalho não coincide com o smart working, ainda mais teremos que entender que as tele-missas não são absolutamente a alternativa que a revolução digital pode oferecer à liturgia e à pastoral para torná-las "ágeis", isto é, adequadas ao perfil de nossas sociedades atuais e futuras.

Hoje, com dramática evidência, os "corpos" estão no centro das emergências sanitárias, de trabalho e daquela economia: somos forçados a pensar na fisicalidade não como categoria abstrata, mas como realidade efetiva que se impõe com sua brutalidade, com suas muitas facetas e, acima de tudo, a partir de suas múltiplas feridas. E sempre se trata de corpos de homens e de mulheres que a crise chamou a todos, sem exclusão, na primeira fila, não apenas como doentes, mas também como "administradores" do maior dos patrimônios humanos, a vida, e do mais difícil dos mistérios, a morte. Também no centro da emergência eclesial, os corpos revelam o problema: ficou claro que, no confronto secular entre religião e ciência, esta última conseguiu aceitar a plena subjetividade dos corpos das mulheres, enquanto justamente as "missas virtuais" tornaram ainda mais evidente a sua total exclusão da celebração. Foi um zoom impiedoso sobre uma liturgia que sempre vê apenas e somente homens na linha de frente.

Seria, portanto, absurdo pretender retornar às igrejas como locais da "presença real", sem ter-se posto todas as perguntas sobre o que significa e o que implica a fisicalidade desse "corpo de Cristo", que está realmente presente na comunidade. Mas mesmo sem as experiências forçadas da eclesialidade virtual nos forçamos a nos perguntar se realmente devemos, às pressas, fazer tudo voltar a como era antes. Para aqueles que foram capazes de entender, a virtualidade levantou questões.

Uma delas parece-me bem menos marginal do que se possa pensar: como podemos falar da Igreja como o "corpo de Cristo" e daquela "familiaridade com o Senhor" que Francisco indicou como condição da vida cotidiana da vida cristã e que ele sancionou como perigosa, se não for comunitária, continuando a perpetuar a subordinação das mulheres? Talvez, depois da pandemia, tenhamos que nos perguntar se podemos continuar a nos chamar e sentir comunidade, se à igualdade batismal não corresponde aquela eclesial porque, antes de tudo, no ato litúrgico, não temos condições de ser sacramentalmente o corpo daquele Cristo em quem não há judeu nem grego; não há sevo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus" (Gl 3,28).

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