Pandemia e a sociedade do trabalho: A ‘tempestade perfeita’ na interpretação durkheimiana

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18 Mai 2020

Durkheim afirma que trabalho pode ser fonte de solidariedade ou anomia. Uma sociedade que não garante trabalho para todos, não respeita direitos ou distribuição de renda satisfatória empurra todos para anomia e ameaça seriamente a coesão social, escreve Cesar Sanson, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.

Eis o artigo.

A expressão ‘tempestade perfeita’ se refere à situação na qual um evento, em geral não favorável, é drasticamente agravado pela ocorrência de uma rara combinação de circunstâncias, transformando-se em um desastre. São situações raras de acontecer. Utilizando o conceito ‘tempestade perfeita’ como metáfora e associando-a ao conceito durkheimiano de anomia, observamos que a pandemia provocou efeitos devastadores na sociedade do trabalho.

O conceito de anomia é largamente abordado por Durkheim e significa tudo aquilo que ameaça a coesão social, a vida em comum. É compreendido a partir de duas perspectivas, uma estrutural, situações que levam ao total desregramento da vida social como o caso de crises sociais agudas e, outra, infra-social quando aspectos específicos internos à vida social fogem aos padrões normais aceitáveis, como por exemplo, o suicídio.

Em Durkheim o conceito de anomia se opõe ao conceito de solidariedade. Logo onde há anomia não há solidariedade. A solidariedade para o sociólogo se reveste de duas formas: a mecânica e a orgânica. A solidariedade mecânica corresponde às sociedades tradicionais, pré-capitalistas, marcadas por uma homogeneidade social muito grande. O processo de transição para a industrialização e urbanização trouxe o colapso da solidariedade mecânica e, à medida em que crescia a divisão social do trabalho, uma nova solidariedade, nomeada de orgânica, se estabelece. A solidariedade orgânica, portanto, é própria da sociedade capitalista.

Durkheim acreditava que o trabalho desempenhava função determinante no fortalecimento da solidariedade e consequentemente na coesão social. Para que isso ocorresse, entretanto, faz-se necessário condições de trabalho regular, normativo e com renda satisfatória. Por outro lado, o trabalho desregulamentado, intermitente e desprovido de direitos empurra a sociedade para a ‘anomia’. Particularmente, Durkheim alertava para três condições anômicas na sociedade do trabalho:

1) exacerbação do conflito capital x trabalho em situações de crises agudas;

2) Imposição autoritária de regras na relação capital-trabalho;

3) ausência ou intermitência de trabalho.

Ora o que vemos é a pandemia exatamente provocando a ‘tempestade perfeita’. Como não se bastasse os efeitos devastadores no mercado de trabalho (desemprego e rebaixamento salarial), o que assistimos é o capital se aproveitando da situação para imposição de regras, regulamentos, iniciativas que rebaixam ainda mais as condições do trabalho. Para Durkheim, basta uma das condições para produzir anomia, com as três convergindo, a coesão social encontra-se seriamente ameaçada. 

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