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04 Mai 2020

"O dever de celebrar e participar da missa deve-se essencialmente à necessidade de recorrer à fonte sacramental necessária ao crente católico. Para garantir a salvação (de acordo com a terminologia bíblica), um bom crente católico deve cumprir todos os sacramentos durante sua vida. Essa forma de disciplina eclesial é considerada por nós, protestantes, errada, pois entra em conflito com o que nos parece ser o ensinamento bíblico central da salvação que se alicerça apenas da fé em Jesus Cristo", escrevem Valerio Bernardi e Giacomo Carlo Di Gaetano, em artigo publicado por Departamento de Pesquisa e Estudos dos Grupos Bíblicos Universitários - DIRS, 27-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte, no domingo, 26 de abril, anunciando a chamada "fase 2" do isolamento necessário para combater a pandemia, reiterou, com certa relutância e com algum embaraço, que por algumas semanas ainda não será possível abrir igrejas ao público para os serviços religiosos. A única exceção feita foi para os funerais que poderiam ser acompanhados por uma quinzena de pessoas. Poucas horas depois dessa declaração, a CEI (Conferência Episcopal Italiana) respondeu ao governo com sua inconformidade, apresentando duas razões fundamentais: a primeira de tipo constitucional (não foram consultadas como prevê a norma constitucional), a segunda de tipo teológico. Reproduzimos o que o comunicado da CEI diz sobre a importância de celebrar a Missa, em relação à segunda motivação: “Os bispos italianos não podem aceitar que o exercício da liberdade de culto seja comprometido. Deveria ficar claro para todos que o empenho de servir aos pobres, tão significativo nesta emergência, nasce de uma fé que deve poder se alimentar de suas fontes, em particular a vida sacramental".

Como se pode ler, o dever de celebrar e participar da missa deve-se essencialmente à necessidade de recorrer à fonte sacramental necessária ao crente católico. Nesse texto, portanto, é reafirmada a concepção sacramental da função eclesial, típica do Catolicismo romano, e magistralmente analisada algumas décadas atrás pelo teólogo evangélico Vittorio Subilia. Trata-se, em essência, de uma das principais características distintivas entre catolicismo e protestantismo. Para garantir a salvação (de acordo com a terminologia bíblica), um bom crente católico deve cumprir todos os sacramentos durante sua vida. Essa forma de disciplina eclesial é considerada por nós, protestantes, errada, pois entra em conflito com o que nos parece ser o ensinamento bíblico central da salvação que se alicerça apenas da fé em Jesus Cristo. Este é o evangelho, essas são as boas novas.

O reformador Martinho Lutero resumiu esse ponto admiravelmente em sua tese 62 citada abaixo. Em 1527, quando Lutero escreveu a Rudolf Hess no período da propagação da peste, tinha muito claro esse conceito. Hoje, sua voz também é útil para conselhos relacionados à questão fundamental do discurso epidemiológico: o contágio possível ou provável.

Primeiro, Lutero se preocupa com as comunidades locais e considera que seja essencial em uma cidade atingida pela epidemia que ministros de culto permaneçam para atender essencialmente duas tarefas de seu ministério: o conforto das almas e o enterro dos mortos.

Em segundo lugar, ele também acredita necessário manter os locais de culto abertos, mesmo que essencialmente por duas coisas: o conforto que deriva do Evangelho e a preparação para a morte que, em caso de epidemia, está sempre à espreita. Há também um aceno ao sacramento que, como é sabido, para o teólogo alemão tinha uma função diferente: lembrar a Graça recebida através da Cruz de Cristo. Mas, acima de tudo, são suas recomendações relativas à infecção que queremos enfatizar, pois são preeminentes em relação ao restante. Recomendamos essas palavras a todos aqueles que, neste momento, percebem o peso das restrições, inclusive falando do perigo da liberdade de culto.

"É ainda mais desonroso para uma pessoa não prestar atenção ao seu próprio corpo e não conseguir protegê-lo da pestilência da melhor maneira possível, e depois infectar e envenenar outras pessoas que poderiam permanecer vivas se essa pessoa cuidasse do seu corpo como deveria fazer. Ele é, portanto, responsável perante Deus pela morte de seu próximo e é homicida muitas vezes. De fato, tal pessoa age como se uma casa estivesse queimando na cidade e ninguém estivesse tentando apagar o fogo. Em vez disso, deixa as chamas livres de forma que toda a cidade acaba queimando, dizendo que se Deus quisesse, poderia salvar a cidade sem água para apagar o fogo. Não, meus queridos amigos, isso não está certo. Usem remédios; tomem as poções que possam ajudar-vos; desinfetem a casa, o pátio, a rua; evitem as pessoas e os lugares onde seu vizinho não precisa da sua presença ou esteja curado e ajam como um homem que quer ajudar a apagar as chamas da cidade. O que mais é a epidemia, se não um incêndio que, em vez de destruir madeira e palha, devora vidas e corpos? Você deveria pensar assim: ‘Muito bem, por decisão de Deus, o inimigo nos enviou miudezas venenosas e mortais. Por isso, pedirei a Deus misericordioso que nos proteja. Depois eu desinfetarei, ajudarei a purificar o ar, darei e tomarei os remédios. Evitarei lugares e pessoas onde a minha presença não é necessária para não me contaminar e, assim, talvez infectar e contaminar outras pessoas, causando a morte delas como resultado de minha negligência. Se Deus quiser me levar, certamente me encontrará e eu terei feito o que ele espera de mim, e assim não serei responsável pela minha própria morte ou pela morte de outros. Se meu vizinho precisar de mim, no entanto, não evitarei lugares ou pessoas, mas irei voluntariamente para lá, como já afirmei’. Veja bem, esta é uma realmente baseada no temor de Deus, porque não é insolente, nem imprudente, nem tenta Deus” (M. Lutero).

Se temos o objetivo principal de preservar a humanidade e garantir que todos possam usufruir de boa saúde, então podemos dizer que ficar em casa para evitar aglomerações que possam colocar a vida de alguém em risco é um bem supremo. O Estado tem o ônus de tomar decisões para o bem comum, enquanto nossa tarefa é obedecer, embora seja possível, dentro do debate democrático, discordar de decisões que possam ser ponderadas com os prós e os contras. Poder-se-ia pensar, no entanto, que quando a obediência a Deus está em jogo, a obediência ao estado não deve ser vinculante (At 5,29).

Então, vamos nos perguntar: como nos orientamos nós, cristãos evangélicos, nessa situação? Pela graça de Deus, e segundo uma visão da igreja que vem diretamente do Mestre, do testemunho apostólico e dos evangelhos, podemos continuar a nos sentir e ser igreja mesmo nessas condições difíceis. Os modernos recursos de informática permitem reconstituir a comunidade local mesmo à distância, apesar de mil dificuldades, permitindo que sintamos a presença espiritual do Senhor, mesmo que falte os abraços: é a reunião "em seu nome" o que garante a presença do Senhor (Mt 18, 20); além disso, recebemos a garantia de que o culto a Deus deve ser prestado em espírito e verdade, exigência esta que não é prejudicada de modo algum por uma reunião sem a presença (Jo 4, 21–23)!

Vamos, portanto, ouvir um conselho que, para além da teologia, ecoa com o bom senso. “Pedirei a Deus misericordioso que nos proteja. Depois desinfetarei, ajudarei a purificar o ar, darei e tomarei os remédios. Evitarei lugares e pessoas onde minha presença não é necessária para não me contaminar e, assim, talvez infectar e contaminar outras pessoas, causando a morte delas como resultado da minha negligência"(M. Lutero).

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