O encontro de Maria com o Ressuscitado

09 Abril 2020

Este roteiro de reflexão e contemplação foi preparado por Ceci Baptista Mariani. Ela é doutora em Ciências da Religião pela PUC/SP, mestre em teologia dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção/SP. É professora no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião e na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC-Campinas. É membro da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião - SOTER e coordenadora do Grupo de Trabalho “Espiritualidade e Mística”.

O roteiro toma como referência a orientação de Santo Inácio e a inspiração dos poemas de Rilke.

 

Oração preparatória


Senhor, recebe-me junto a ti. Permita-me sentir a alegria da ressurreição contemplando a alegria de Maria diante da promessa de Deus, anunciada a ela pelo anjo na concepção do filho, e cumprida com a ressurreição.

 

Santo Inácio, não se conforma com a ausência de referência à Maria nos relatos de aparição de Jesus ressuscitado e propõe nos EE (218-225), no início da quarta semana, que se contemple a aparição de Jesus a Nossa Senhora, “o que, embora não se declare na Escritura, tem-se por dito, ao dizer que apareceu a tantos outros; pois a Escritura supõe que tenhamos inteligência, conforme está escrito: ‘Também vós estais sem inteligência?’” (EE, 299).

 

Também o poeta Rilke (1875-1926) dedica em sua obra A vida de Maria, escrita em 1912, um poema sobre o encontro de Maria com Jesus ressuscitado. Imagina um doce encontro silencioso entre mãe e filho, “sem palavras, em plena santificação”:

 

O que outrora sentiram: não foi
mais doce que qualquer mistério
e ao mesmo tempo tão terreno?
Quando ele, um pouco pálido ainda
do seu túmulo, ligeiro se aproximou,
ressuscitado plenamente.
Perante ela, em primeiro lugar. Ei-los
ali, sem palavras, em plena santificação.
(RILKE, 2017, posição 262)

 

O filho com as mãos nos ombros da mãe, os dois a curarem-se. Era o início, imagina o poeta, de uma eternidade em que os dois, mãe e filho, como atesta a piedade dos fiéis, estarão em suprema união, a olhar para o mundo com grande compaixão:

 

Sim, estavam a curar-se, era isso. Não precisavam
de se tocar de perto um ao outro.
Ele mal pousou, durante um segundo apenas,
a sua mão eterna no ombro feminino.
E começaram,
em silêncio como as árvores na Primavera,
eternamente juntos
esta Idade
da sua suprema união.
(RILKE, 2017, posição 262)

 

Vale, portanto, no alvorecer do tempo pascal, inspirados, inspiradas, pelo poema de Rilke, e usando a imaginação como orienta Santo Inácio, fazermos também nós, a contemplação desse encontro “sem palavras”, procurando participar da alegria de Maria diante da promessa de Deus, anunciada a ela pelo anjo na concepção do filho, e cumprida com a ressurreição.

 

Podemos imaginar que desde a hora da morte de Jesus na cruz, Maria foi recebida aos cuidados do discípulo amado. Amparada por ele e por outras mulheres, foi sepultá-lo, quem sabe, lembrando da profecia de Simeão: “Eis que ele está colocado para queda e soerguimento de muitos em Israel e para ser sinal refutado - quanto a ti, uma espada transpassará tua alma -, de modo que sejam revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 34-35). Inteiramente tomada por dor indizível, voltemos ao poema de Rilke, Maria é pietá. Com o filho morto no colo, impotente, já não pode dar-lhe à luz:

 

Agora é inteira a minha dor, e indizível
Enche-me o peito por completo. Fixo-te,
Com a fixidez do interior da pedra.
Dura como sou, sei apenas isto:
cresceste –
e cresceste...
para que em dor ainda maior
ultrapasses a medida
do meu coração.
Agora jazes, atravessado no meu colo, mas já não posso dar-te à luz
outra vez.
(RILKE, 2017, posição 250)

 

Na ocasião, Jerusalém deveria estar cheia como Belém na ocasião do nascimento do menino, era festa da Páscoa. O menino na manjedoura, a admiração dos pastores, a visita dos magos... Tudo aquilo que guardara no coração, aguardava a revelação de um sentido que incluísse os últimos acontecimentos.

 

Depois que “tudo foi consumado” (Jo 19, 30), do filho sepultado, antes de dirigir-se à casa do discípulo amado, teria ido à casa de Lázaro, em Betânia, próximo ao Monte das Oliveiras, onde o filho, numa oração dolorida, tendo suado sangue e clamado pelo Pai, teria visualizado os difíceis momentos que teria que enfrentar para dar cumprimento à sua missão (Lc 22, 41-44). No terceiro dia, iria com as mulheres ao túmulo do filho, com os aromas com os quais o corpo seria ungido.

 

Na casa de Lazaro, Maria teria sido, provavelmente, recebida por Marta e Maria. Desolada, continuava às voltas com tudo o que guardara no coração: desde o anúncio do anjo “não temas, Maria, porque encontraste graça junto a Deus” (Lc 1,30), até a declaração do centurião “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mc 15, 39).


Não teria sabido naquele momento, o que estaria prestes a se revelar plenamente, que “(...) o Deus que trovejava sobre as nuvens, faz-se benigno e vem ao mundo nela”.

 

Vale escutar Rilke sobre o nascimento de Cristo:

Não fosse a tua simplicidade, como poderia
acontecer o que agora ilumina a noite?
Ora vê, o Deus que trovejava sobre as nuvens
Faz-se benigno e vem ao mundo em ti.

Imaginavas que ele fosse maior?

O que é a grandeza? Através de toda a matéria
Que atravessa, segue o seu destino.
Nem uma estrela tem igual caminho.
Vês, estes reis são grandes,
e rastejam diante de ti, do teu colo.

Os tesouros que eles julgavam ser os maiores,
- e tu talvez te espantes com este dom –
vê agora nas pregas do teu vestido
como ele já ultrapassou tudo o que existe.
(RILKE, 2017, posição 158)

 

Entretanto, no terceiro dia, podemos imaginar, Maria não foi com as mulheres. Como em outras vezes, um anjo teria ido a ela e a saudado novamente, com as mesmas palavras de antes, mas agora completadas com a boa notícia: “Não temas, Maria! O filho não está morto, ele ressuscitou”. Uma sensação de missão cumprida a deve ter invadido, um ânimo de vida e uma vontade de serviço, tal qual aconteceu com ela na ocasião do anúncio do anjo em Nazaré, quando um impulso a levou às montanhas de Judá para servir Isabel. E novamente, sentindo-se bem-aventurada, teria se posto a rezar o cântico de Ana:


“A minha alma engrandece o Senhor,
e meu espírito exultou em Deus, meu salvador,
porque ele olhou com atenção para a humildade de sua serva.
Eis, pois, que de agora em diante,
todas as gerações me proclamarão bem-aventurada,
porque o Poderoso fez grandes coisas em mim
e santo é o seu nome,
e a sua piedade passa de geração em geração
para os que o temem..." (Lc 1, 46-50)

 

E ela, certamente, ficou em paz, pois, desse momento em diante terá um mundo de filhos para acolher e cuidar, para os colocar junto ao seu Filho e dele receberem a salvação de Deus. Deve ter sentido novamente ressoar aos seus ouvidos a voz do Filho na cruz se dirigindo a ela e dizendo: “Mulher, eis o teu filho!”. E ao discípulo amado: “Eis a tua mãe!” (Jo 19, 26).

 

Que Nossa Senhora, mãe de Jesus, nos proteja e nos guarde, nos ensine a escutar o Pai e acolher a missão, mesmo sem, muitas vezes, compreendermos o sentido das coisas que vão acontecendo, mesmo sem percebermos bem os rumos de nossa missão.

 

Referências:
RILKE, Rainer Maria. A vida de Maria. Kindle Edition, 2017.
SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais. Tradução e notas: Pe. Géza Kövecses S.J.. Porto Alegre: 1966.
EVANGELHOS e ATOS DOS APÓSTOLOS. São Paulo: Loyola, 2011.

 

Nota do IHU

 

Rainer Maria Rilke (1875-1926): Importante poeta alemão do século XX, dono de poesias conhecidas pela inovação e estilo lírico. Publicou em 1894 sua primeira obra intitulada Vida e Canções (Leben und Lieder). O poeta acreditava que a manifestação divina podia ser observada em todas as coisas. Sua poesia incitava o pensamento existencial e provocava o enfrentamento dos dilemas do começo do século XX. Além disso, sua obra exaltava a conexão entre homem e mundo. No Brasil, seu principal tradutor é Augusto de Campos, que lançou em 2003 o livro Coisas e anjos de Rilke (São Paulo: Perspectiva).

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