Mortes por trabalho e salários de fome: o cobalto “sujo” no coração do carro limpo do futuro

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29 Fevereiro 2020

A Tesla está pronta para renunciar ao uso de cobalto nas baterias de carros elétricos, depois das denúncias nos Estados Unidos de exploração de menores de idade nas minas do Congo, das quais provêm 60% da produção mundial. Também estão no alvo dos processos as empresas Apple, Dell, Google e Microsoft, mas a despedida do mineral (do qual a China controla grande parte do comércio e das jazidas) não será fácil.

A reportagem é de Ettore Livini, publicada em La Repubblica, 22-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O carro do futuro é elétrico, limpo, ético e sustentável. Mas ele tem um enorme problema de consciência do qual está tentando se livrar: o cobalto usado para fabricar as suas baterias.

O elemento químico com o número atômico 27 tem – para quem precisa vender veículos ecológicos com grande autonomia – uma grande vantagem: estabiliza a carga e prolonga a duração do “tanque cheio”.

Com um único defeito: 60% da produção mundial do metal provêm das minas da República Democrática do Congo, onde – de acordo com a última pesquisa da Unicef – trabalham 40 mil crianças. “Criancinhas forçadas a extrair o metal em condições muito perigosas como na Idade da Pedra por um salário de um a dois dólares por dia”, defendem os advogados da International Rights Advocates.

Eles acabaram de denunciar ao Tribunal Distrital de Washington, em nome de 14 famílias congolesas, as empresas Tesla, Apple, Google, Dell e Microsoft (o cobalto também é usado para produzir computadores e celulares). Elas são rés – explica o documento – de terem “ajudado e sustentado minas que fizeram as crianças trabalharem em condições que causaram a sua morte ou deficiências permanentes”.

Trata-se de uma acusação muito dura, rejeitada pelas empresas, mas que já teve um primeiro efeito importante: convencer Elon Musk a acelerar a cruzada para eliminar o “metal sujo” das baterias dos carros Tesla. “Utilizamos menos de 3% dele, e, no futuro, não haverá mais”, ele tuitou há algum tempo, depois das primeiras críticas.

E esse futuro parece ser hoje: a montadora do magnata norte-americano, segundo a Reuters, estaria em negociações avançadas com a CATL para usar baterias alimentadas apenas por fosfato de ferro e lítio. Uma maneira para reduzir custos, minimizam as fontes da empresa, mas também para “limpar” uma imagem corporativa manchada pelos problemas do cobalto.

O caminho para eliminar a utilização e para resolver a dramática situação das minas no Congo, porém, dizem os especialistas do setor, não é nem um pouco fácil. É verdade que todas as montadoras estão tentando reduzir o consumo do metal (o Tesla caiu de 11,8 kg por carro para 4,5 kg no Model 3).

Mas o progresso nesse front corre o risco de ir por água abaixo devido ao boom na demanda de carros elétricos. As vendas de modelos ecológicos devem decuplicar até 2030. E a demanda de cobalto – calcula a Benchmark Minerals – deve subir de 70 mil toneladas em 2019 para 300 mil em 2029.

A oferta – dizem os especialistas – hoje é maior do que a demanda e assim será ainda durante alguns anos. Mas, a partir de 2022, há riscos para o fornecimento. Um perigo farejado pelos mercados que, nos últimos anos, frequentemente enlouqueceram os preços da matéria-prima: uma tonelada de cobalto valia 22 mil dólares em 2016, voou para 94 mil em março de 2018 e agora se firmou, por assim dizer, em 33.500.

A corrida dos preços e as dúvidas sobre a disponibilidade futura obviamente desencadearam a caça aos estoques do Congo, onde, no entanto, a China conseguiu construir há muito tempo uma posição dominante tanto na pesquisa quanto (principalmente) no comércio.

Um dos pontos-chave da iniciativa “Made in China 2025” de Pequim – lançada com clarividência pelo governo em 2015 – era se tornar o número um mundial em carros elétricos. E Xi Jinping hipotecou o sucesso do plano, pondo as mãos nas jazidas dessa matéria-prima fundamental. A China controla sete das maiores empresas de mineração do Congo. Boa parte daquelas que ela não controla cedem a produção a comerciantes chineses. E 80% do metal usado na produção industrial mundial é refinado na China.

Essas empresas, como as gigantes estadunidenses mencionadas na denúncia do International Rights Advocates, afirmam que têm controles rígidos – muitas vezes certificados por auditores externos – que garantem a “eticidade” da cadeia de produção do seu cobalto.

O problema de verdade, no entanto, não são apenas as suas práticas, mas sobretudo as milhares de minas artesanais “faça-você-mesmo” que surgiram em todo o país, o buraco negro onde ocorrem as piores violações dos direitos humanos dos trabalhadores. Um mercado – diz a denúncia dos EUA – encorajado e alimentado pelos gigantes do setor e cuja produção, através de comerciantes complacentes, acaba nas baterias dos celulares e nas dos carros das grandes marcas.

Os empregados dessas jazidas clandestinas, das quais chegam 25% do cobalto congolês, trabalham “em condições horríveis”, ressalta um relatório da Anistia Internacional. Enfiando-se em túneis muito estreitos, sem luz e sem ventilação para levar para casa alguns poucos dólares por dia. Os documentos arquivados pelos advogados em Washington narram histórias comoventes: a morte de um menino enterrado vivo na mina de Kamoto, a tragédia de outro menor de idade contratado por 0,75 centavos de dólar por dia para carregar os sacos de cobalto que ficou paralítico por causa de uma queda e foi abandonado no local até ser salvo pela família.

O governo do Congo tentou nas últimas semanas regulamentar toda a extração “artesanal” – como eles a chamam eufemisticamente – de cobalto, confiando a uma empresa pública, a Gecamines, o direito de comprar e comercializar o produto que vem dessas realidades. Uma tentativa de garantir preços melhores do que os comerciantes chineses e de manter na pátria uma parte do valor agregado dessas atividades.

Mas também uma maneira para tentar melhorar as condições de um trabalho “que custa a perda de muitas vidas humanas e que obriga muitos dos nossos concidadãos a atuar em condições miseráveis e com remunerações indignas”, disse Albert Yuma, presidente da Gecamines, à Reuters.

Será que realmente vai funcionar? Veremos. Mas, pelo menos, a guerra no coração sujo do carro limpo, da Tesla às autoridades africanas, começou a dar alguns passos tímidos.

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