Papa abre caminho para a beatificação de jesuíta salvadorenho

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24 Fevereiro 2020

O Vaticano anunciou no dia 22 de fevereiro que o Papa Francisco reconheceu o martírio de um companheiro jesuíta, o padre salvadorenho Rutilio Grande, e de dois companheiros leigos que foram assassinados a caminho de uma novena em 1977, em El Salvador.

A reportagem é de Rhina Guidos, publicada em Catholic News Service, 22-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O reconhecimento papal do seu martírio abre caminho para a sua beatificação, embora o Vaticano não tenha anunciado uma data para a cerimônia.

“O anúncio da beatificação do Pe. Rutilio Grande é esperado há muitos anos”, disse a Ir. Ana Maria Pineda, das Irmãs da Misericórdia, parente do padre assassinado. “Hoje, as notícias são recebidas com júbilo e alegria. Que um homem de origens tão humildes seja reconhecido pela sua entrega a Deus, seu amor pelos pobres e seus esforços para alcançar a justiça é um exemplo.”

Grande morreu no dia 12 de março de 1977, perto da sua cidade natal, El Paisnal, na zona rural de El Salvador, após ser baleado uma dezena de vezes junto com o idoso paroquiano Manuel Solorzano e o adolescente Nelson Rutilio Lemus, que o acompanhavam a uma novena para a festa de São José. Seus corpos foram encontrados sem vida em um jipe capotado que o padre estava dirigindo.

Embora nascido no interior de El Salvador, Grande se formou como membro da Companhia de Jesus, principalmente na Espanha e na Bélgica e em outras partes da América Latina, mas depois voltou para trabalhar entre as massas pobres e rurais do seu país natal.

As equipes de missão que ele organizou ensinavam os camponeses a ler usando a Bíblia, mas também ajudavam os trabalhadores rurais a se organizar para que pudessem se pronunciar contra uma minoria rica e poderosa que lhes pagava salário escassos e a enfrentar as doenças sociais que os atingiam por serem pobres.

Com uma equipe de missionários jesuítas e de agentes de pastoral leigos, Grande, que era pároco de uma igreja na cidade vizinha de Aguilares, evangelizou uma vasta área rural em El Salvador desde 1972 até seu assassinato pelos esquadrões da morte. Como ocorreu com o assassinato de São Oscar Romero e dezenas de milhares de outros salvadorenhos, ninguém jamais foi acusado pela sua morte ou pela dos seus paroquianos.

“Sua morte na companhia de Manuel e do jovem Nelson Rutilio demonstra a sua solidariedade com os mais necessitados do seu amado país”, disse Pineda, teóloga e professora da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, que escreveu o livro “Romero and Grande: Companions on the Journey” [Romero e Grande: companheiros de jornada].

O livro explora a vida de Grande e de seu amigo próximo, o arcebispo de San Salvador, que mais tarde se tornaria São Romero, canonizado em 2018. Romero morreria de forma semelhante três anos depois, martirizado ao celebrar a missa.

Alguns dizem que, quando Grande morreu, Romero assumiu o manto ao falar pelos pobres, e outros, incluindo o Papa Francisco, acreditam que o assassinato de Grande levou a um momento de conversão para o arcebispo conservador, que mais tarde ficou popularmente conhecido como a voz dos pobres.

Outros acreditam que Romero já estava no caminho da conversão, porque havia visto a opressão como bispo auxiliar em uma área rural diferente onde ele atuava.

O reconhecimento oficial do martírio significa que Grande e seus companheiros serão beatificados sem que um milagre lhes seja atribuído, embora o Papa Francisco, no passado, teria dito que o primeiro milagre de Grande foi Romero.

A beatificação é um passo antes da santidade. Para que Grande e seus companheiros sejam canonizados, um milagre teria que ser atribuído à intercessão deles.

“Para mim, a beatificação de Rutilio significa que a Igreja latino-americana e salvadorenha perseguida está sendo reconhecida”, disse o bispo salvadorenho Oswaldo Escobar Aguilar, de Chalatenango, El Salvador. “Seu compromisso com Medellín, seu compromisso com os pobres, especialmente os camponeses que estavam sendo maltratados na região de Aguilares, onde trabalhava, levaram-no a se tornar um Jesus naquela terra.”

Uma conferência em Medellín, Colômbia, em 1968, adaptou os ensinamentos do Concílio Vaticano II às necessidades da Igreja latino-americana, enfatizando o cuidado pastoral às maiorias pobres da região. O Pe. Grande, junto com muitos outros, seguiu essa direção com o seu trabalho entre os camponeses, o que às vezes o levava a falar publicamente contra a opressão deles.

“A beatificação é uma grande alegria para todos, para os camponeses, para os oprimidos, para aqueles que sofreram violência”, disse Escobar, que atua em uma área amplamente rural, que também viu o assassinato de muitos camponeses e clérigos católicos.

“Como eu gosto de dizer, quando eles canonizaram Romero, Romero não foi para o céu sozinho. Atrás de Romero, muitos mártires se seguiram: todos os (salvadorenhos) assassinados e perseguidos. É o mesmo com Rutilio. Ele está sendo beatificado com dois camponeses, dois leigos, um símbolo de muitos que foram martirizados.”

Apesar de muitas falsidades terem se espalhado sobre o padre jesuíta, incluindo o fato de ele ser subversivo e de ter pegado em armas, a verdade sobreviveu, e ele está sendo reconhecido pelo seu compromisso como pastor do seu povo, disse o bispo.

Para outros, a beatificação é mais pessoal e espiritual. Ana Grande, sobrinha do jesuíta e executiva em uma organização sem fins lucrativos na Califórnia, disse ter ficado emocionada com as notícias e esperar que, por meio da intercessão de Grande e Romero, El Salvador, que ainda sofre com grande violência, corrupção, pobreza e outros males sociais, ficaria curado, e a esperança e a fé das pessoas seriam renovadas.

"Durante anos, rezamos para que a beatificação do nosso tio, o Pe. Grande, chegasse em um momento para encorajar a nossa comunidade salvadorenha a continuar levantando a sua voz”, disse ela ao CNS. “Só posso imaginar a festa que Romero e Rutilio farão quando se juntarem à comunhão dos santos.”

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