Compartilhando a fé em um mundo pós-moderno

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14 Fevereiro 2020

O cânone moderno muitas vezes revelou-se patriarcal e racista.

O artigo é de Myron Pereira, padre jesuíta e assessor de mídia em Mumbai, na Índia, publicado por La Croix International, 11-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo. 

O Evangelho, sempre disseram os cristãos, deve ser anunciado a “toda a humanidade” (Marcos 16,15), o que significa todas as culturas, em todos os tempos e lugares.

Toda época traz as suas próprias diferenças e dificuldades particulares. As nossas são aquelas da era pós-moderna. Mas o que exatamente significa “pós-modernidade”, quais suas características?

A modernidade, como chegou a nós desde o século XIX em diante, é em geral vista como progressista, científica, racional e normativa. Em sentido amplo, aplica-se à literatura, à filosofia, às artes e à arquitetura, à crítica cultural e literária, entre outras coisas.

Mas a modernidade tem suas desvantagens também, e delas temos mais ciência na atualidade. O cânone moderno frequentemente revelou-se patriarcal e racista, com uma predominância de homens brancos heterossexuais. 

O que é a pós-modernidade? 

A pós-modernidade, crítica deste cânone, abre uma variedade de outras histórias da modernidade, até então suprimidas e ignoradas, como as histórias das mulheres, dos homossexuais e dos povos colonizados da África, da Ásia e das Américas. Consequentemente, um dos temas mais comuns abordados na pós-modernidade relaciona-se com a identidade cultural.

Por esse motivo, a pós-modernidade é altamente cética quanto às explicações universais que alegam ser válidas para todos os grupos, culturas e tradições. Em vez disso, a pós-modernidade focaliza as verdades relativas de cada pessoa, conquanto falíveis.

Isto transforma-se em problema quando precisamos ensinar a fé católica, pois esta mentalidade recusa aceitar qualquer coisa que lembre um controle central, ou o desejo de definir as coisas a partir de cima. No contexto da Igreja, é um “complexo anti-romano”. A pós-modernidade rejeita a autoridade magisterial universal da fé.

Hoje, a preferência é pelo conhecimento local, pluralista e adaptável às diferentes épocas e lugares. No entendimento pós-moderno, movemo-nos para um contexto onde o temporário e o transitório têm preferência diante do que é durável e imutável. Esta mentalidade faz-se presente em todos os lugares, mas especialmente entre os jovens

O ensino da fé 

Como então explicar e apresentar a neste caso?

Talvez possamos começar com este princípio: “Não extingam o Espírito, não desprezem as profecias; examinem tudo e fiquem com o que é bom. Fiquem longe de toda espécie de mal” (1 Tessalonicenses 5,21-22).

É uma ideia difícil para os católicos que cresceram em uma igreja que enfatiza não só a unidade, mas a uniformidade: uma só igreja, um só povo, um só papa, uma só forma de adorar, uma só regra comum de comportamento, aplicável a todos.

Tradicionalmente, os católicos romanos sempre valorizaram a obediência acima de tudo. Os católicos, afinal, não são protestantes. Então, “discernir” não faz parte do seu vocabulário diário.

Hoje, no entanto, o discernimento importa mais do que a obediência, pois o Espírito tem levado a Igreja a regiões onde a obediência tradicional confunde-se, e onde ela tem pouco a dizer. Por exemplo, o campo do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

Eis exatamente o que nos pedem para fazer hoje: rezar pedindo orientação, para discernimos os dons, para aceitar a responsabilidade pelo próprio carisma. O discernimento diz o que o Senhor quer de mim “aqui e agora”.

Isto também nos leva a novas implicações: correr riscos.

Uma definição famosa enxergava a fé como um depósito a ser guardado em local seguro, como em um banco, salvo de toda e qualquer ameaça. “Casamentos mistos” eram vistos, por exemplo, como um perigo à católica.

Mas desde o Vaticano II, a Igreja redefiniu a fé como um “povo peregrino” a caminhar junto em direção ao objetivo comum. A fé permite a pessoa se arriscar, a avançar “para águas mais profundas” (Lucas 5,4). Para o jovem, isto pode ser interpretado como uma aventura.

Quando se caminha junto com o povo (sinodalidade, samanvaya) – amigos e estrangeiros –, algo imprevisível e maravilhoso acontece. A fé se torna uma experiência, não uma definição. E é disso o que os jovens mais precisam, uma experiência que clama “Nós vimos o Senhor” (João 20,25).

Finalmente, para incentivar a vida de fé na era pós-moderna, precisamos recuperar o sentido do silêncio.

A pós-modernidade nasce em um mundo de sons eletrônicos. Somos imersos diariamente em milhões de mensagens eletrônicas, visuais e auditivas, com as quais as mídias digitais nos cercam. E não só na quantidade; a velocidade de transmissão e recepção também sobrecarregam.

Tudo isso prejudica seriamente o ritmo natural da nossa vida interior – a nossa imaginação e fantasia, a nossa capacidade de refletir e decidir, uma habilidade de meditar e contemplar. Pois como pode uma vida de fé nutrir-se sem ser capaz de imaginar, refletir e rezar? É por isso que o silêncio e a quietude interior são tão essenciais.

Para nutrir a fé e fazê-la crescer, ter um momento diário de silêncio é fundamental. Eis um outro desafio para os jovens.

Para concluir com as palavras do Papa Francisco, ditas em sua mensagem para a XXXIII Jornada Mundial da Juventude: “Queridos jovens (…) Deus chama cada um de vós pelo nome. Vós sois (…) preciosos a seus olhos, dignos de estima e amados. Acolhei com alegria este diálogo que Deus vos propõe”.

 

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