“O Papa deve ler mais sobre economia”, afirma Robert Sirico, padre defensor do livre mercado

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06 Fevereiro 2020

"Na Laudato Si’, o Papa faz uma crítica à industrialização ao mesmo tempo em que defende a importância do trabalho. Também diz que o período industrial foi o pior da história do homem, e não consegue entendê-lo. Ao contrário, foi o melhor!", afirma o padre Robert Sirico, autor do livro "Em defesa do livre mercado"

A reportagem é de Yago González, publicada por Expansión, 04-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Um padre sempre tem coisas a contar. Um padre de origem italiana e família pobre, criado no Brooklyn junto a judeus, chineses e polacos, tem ainda mais coisas para contar. Um padre que nos anos 1970 foi um ardente esquerdista e que pouco a pouco foi derivando para posições liberais e conservadoras e que recuperou a fé de sua infância até o ponto de entrar no seminário, tem muitíssimo para contar. E um padre que há anos combina o cuidado de sua paróquia em Grand Rapids (Michigan) com a defesa da liberdade econômica deveria contar tudo isso em um livro. Isso é o que tem feito Robert Sirico (Nova Iorque, 1951), que na semana passada apresentou em Madrid, sob direção da Fundación Civismo, Em defesa do livre mercado, no qual argumenta como a antropologia católica é totalmente compatível com o capitalismo. O padre Sirico sabe posar a câmara (por influência do seu irmão Tony, rosto habitual em filmes e séries de mafiosos) porém, como bom pregador, sobretudo, sabe explicar bem.

A relação do catolicismo com o liberalismo econômico é polêmica e não sempre bem entendida. Para tentar explicá-la melhor, Sirico e outros pensadores colocaram em curso em 2005 o Acton Institute (em homenagem ao político católico britânico Lord Acton), um think tank destinado a analisar os vínculos entre religião, liberdade e economia.

Os mercados explicam a oferta e a demanda, porém não explicam toda a verdade do ser humano.

“A Igreja se opôs ao livre mercado radical, porém não às instituições que possibilitam o livre mercado: o Estado de direito, a propriedade privada, o ânimo empreendedor, a santidade do trabalho...”, aponta Sirico. “O que condena a Igreja é que a única realidade necessária seja a liberdade econômica em si mesma. A economia é somente uma dimensão do ser humano e deve ser posta em relação com um planejamento integral da pessoa”, adverte o sacerdote. “Os mercados nos dizem a verdade sobre a realidade da oferta e da demanda, porém não nos dizem a verdade sobre quem é o ser humano. O livre mercado não é a salvação do mundo, porém é o que oferece a melhor oportunidade para a prosperidade humana e para que cada pessoa escolha em liberdade. Obviamente, a economia por si só não pode responder às grandes questões da vida: para que estou no mundo, como posso amar, como levar uma vida moral... Porém prefiro viver em uma sociedade na qual muita gente tenha acesso à comida, água limpa ou bens materiais em geral”, reforça.

Jesus Cristo fez contínua referência aos pobres, portanto, como conciliar essa abordagem cristã e liberal com as desigualdades na partilha da riqueza? “A desigualdade não é somente inerente ao capitalismo, mas sim à própria vida”, responde Sirico. “Todos somos indivíduos, e isso significa que não somos iguais, que temos diferentes habilidades. Ao falar de desigualdade, o enfoque da Igreja não se centra em uma brecha econômica pontual em respeito aos demais, mas sim na própria pessoa humana, em si, suas circunstâncias não são melhores ou piores em relação a outras épocas. O que a Igreja se pergunta é: em termos históricos, a vida humana é melhor agora?”, pergunta-se Sirico. E o mesmo responde: “A vida é muito melhor que há 200 anos se atendermos a índices como sanidade, roupa, moradia... Durante a maior parte da história, o ser humano viveu na subsistência, porém há dois séculos isso começou a mudar graças à globalização da economia, impulsionada pelo pensamento dos escolásticos e Adam Smith. Isso não significa que não existam pessoas necessitadas, porém em termos globais vive agora melhor que em qualquer outro momento. O índice mais claro é a população: não somente nascem mais crianças, mas sim que todos vivemos mais anos”.

Insistimos com o Evangelho: “Antes passará um camelo pelo buraco de uma agulha que um rico entrará no Reino dos Céus”. Cristo estaria se referindo apenas à riqueza material ou a algo mais? “Se referia a tudo”, responde o padre, que de novo dá uma explicação detalhada: “O que é na realidade a riqueza material? Somente significa que tem mais opções, porém em qualquer caso deves empregar a liberdade: alguém pode aproveitar essas opções para consumir mais ou menos, para ser generoso ou egoísta. Essa frase do Evangelho precisa ser completada com o final da passagem, quando depois da advertência, os discípulos perguntam: ‘Então quem poderá se salvar?’, e o Senhor responde: ‘Para os homens é impossível, mas para Deus nada é impossível’. Isso quer dizer que nem a riqueza, nem a pobreza, são em si mesmas razões para salvação: o importante é o que alguém faça com o que tem. Há santos que foram ricos e santos que foram pobres. A ganância é de verdade uma grande tentação, porém também é a inveja dos que tem mais. Como disse Santo Agostinho falando de outra parábola: o rico glutão não foi para o inferno por ser rico, mas sim por ser orgulhoso, e o pobre Lázaro não se salvou por ser pobre, mas por ser humilde”.

Globalização ou Globalismo?

Uma grande inquietação nos movimentos políticos conservadores, a maioria de raiz católica, é a ameaça do “globalismo”, uma ideologia que, segundo seus detratores, pretende impor em todo o planeta um só sistema político e econômico que, em última instância, acabará com todo vestígio cristão. O padre Sirico faz uma distinção entre a globalização econômica e esta ideologia: “Os livres-mercados dependem da divisão do trabalho: cada um de nós pode produzir a parte de um bem, não o bem completo, e outra parte pode ser fabricada em outro lugar. Caso se aceite essa premissa, sabemos que a divisão do trabalho se estenderá por todo o mundo, porque as fronteiras são economicamente artificiais: se outro país fabrica um bem que nos interessa, atenderemos a esse país. Portanto, a globalização facilita a prosperidade de todas as pessoas de todos os países, ainda que obviamente não ao mesmo tempo. Porém é preciso fazer uma diferença entre globalização, que é o que acabo de descrever, e o globalismo, que é o aparato político que trata de controlar a globalização. Aí é onde entram a ONU, a União Europeia e demais estruturas. Portanto, não somente diria que é possível ser defensor da globalização e contrário ao globalismo, mas sim que é necessário. Um defensor da economia livre defenderá também as menores interferências possíveis nessa economia, e as mencionadas estruturas tratam de intervir na cultura e na prosperidade das pessoas”.

Aproveita aqui o nova-iorquino para dar um cascudo na Cúria: “Surpreende essa defesa que se faz no Vaticano de instituições como a Corte Internacional de Justiça e do afeto que frequentemente se demonstra pela ONU. Porque se existisse um governo mundial, que é o que aspira as Nações Unidas, os primeiros processados seriam o Papa e a Igreja Católica, porque representamos exatamente a antítese de seus projetos sobre a vida humana. A ONU já não é aquela impulsora da Declaração dos Direitos Humanos de 1948, muito inspirada na lei natural; atualmente é a defensora de uma religião secular, com seus próprios dogmas e heresias, porém sem um theos de fundo, sem uma verdade a apontar, embora ao mesmo tempo defenda muito enfaticamente suas próprias verdades”.

Falando do Vaticano: muitas vozes (também de dentro da Igreja) acusam o papa Francisco de comunista ou, quando menos, de simpatizar com o socialismo. “O Papa vem da Argentina, e durante a ditadura teve empatia com muitos militantes de esquerda perseguidos. Não creio que seja um marxista ou partidário da Teologia da Libertação, porém, como o mesmo admitiu, não entende muito bem dos mecanismos da economia. Por exemplo: na Laudato Si’, faz uma crítica à industrialização ao mesmo tempo em que defende a importância do trabalho. Também diz que o período industrial foi o pior da história do homem, e não consegue entendê-lo. Ao contrário, foi o melhor! Melhorou o acesso aos recursos, ao nível de vida, à longevidade... E foi precisamente a liberdade de contratação, o trabalho livre, que permitiu. Eu gostaria que o Papa lesse um pouco mais de economia”.

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