Teologia da Libertação, Leonardo Boff em guerra no Twitter com ministro do Exterior

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15 Janeiro 2020

Em uma troca acirrada de tuítes com o teólogo brasileiro Leonardo Boff em 1º de janeiro, o ministro do Exterior brasileiro Ernesto Araújo acusou a Teologia da Libertação de ser a responsável pelo declínio no número de católicos no Brasil.

A reportagem é de Eduardo Campos Lima, publicada por Crux, 14-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em um tuíte de Ano Novo, Araújo disse que “em 2020 é preciso continuar trabalhando contra o mecanismo esquerdista”, não só no Brasil, mas também na frente internacional, criticando aquilo que chamou de “um projeto de poder global e globalista”.

Araújo é ministro do presidente conservador Jair Bolsonaro, quem algumas vezes entrou com conflito com os bispos brasileiros em temas relativos ao meio ambiente e à justiça social.

Seguidor das ideias do filósofo ultradireitista Olavo de Carvalho, autor brasileiro morador do estado americano de Virginia e defensor da existência de uma conspiração internacional marxista por trás do multiculturalismo e dos estudos sobre a mudança climática, Araújo tem sido motivo de polêmicas na imprensa brasileira. Em março, por exemplo, ele afirmou, durante uma entrevista, que o nazismo “é um fenômeno de esquerda”. Em setembro, em um congresso da Heritage Foundation, em Washington, DC, ele negou que estejam ocorrendo mudanças no clima, ao dizer que é, na verdade, um “instrumento do globalismo”.

O tuíte postado em 1º de janeiro foi respondido por um dos fundadores do movimento da Teologia da Libertação na América Latina, Leonardo Boff, quem disse que com Araújo “nunca a inteligência foi rebaixada com [este] seu pensamento velhista e falso” e que “o Brasil jamais passou tanta vergonha com suas intervenções sem nenhuma base”, sendo suas intervenções “o fruto de um preconceito anti-humano e anti-vida”.

Araújo respondeu a ele com um ataque à Teologia da Libertação.

“Quando a sua teologia da libertação apareceu, mais de 90% dos brasileiros eram católicos. Hoje são só 50% e caindo. Os brasileiros -principalmente os pobres- rejeitaram o seu teomarxismo e correram p/as igrejas evangélicas, onde podem louvar Jesus Cristo”, escreveu.

A teoria de Araújo sobre o declínio do catolicismo no Brasil parece ecoar as ideias de Olavo de Carvalho. Crítico frequente da Teologia da Libertação, este autor disse, em outubro de 2016, que “A ascensão do protestantismo é um efeito lateral da destruição da Igreja Católica” para a “ascensão generalizada de mil e uma igrejas ‘evangélicas improvisadas”.

O mais recente censo mostra que a proporção de católicos no país foi de 91,8% em 1970 para 64,6% em 2010. No mesmo período, os evangélicos passaram de 5,2 para 22,2%.

De acordo com Jung Mo Sung, teólogo leigo católico e professor da Universidade Metodista de São Paulo, é errado culpar a Teologia da Libertação por esta transformação no cenário religioso.

“Décadas atrás, 90% do povo brasileiro professava o catolicismo porque esta era a norma cultural, mas a participação de verdade na Igreja era muito pequena”, disse ao Crux.

“No início da década de 1980, quando houve uma explosão das comunidades eclesiais de base [teologicamente nutridas pela Teologia da Libertação], o número de pessoas ativas na Igreja Católica, principalmente nos bairros [da classe trabalhadora], se tornou gigante”, completou Mo Sung.

Comunidades eclesiais de base são entidades comunitárias que se reúnem para estudar as escrituras e realizar outras atividades, incluindo o ativismo social. Embora algumas existiam antes do Concílio Vaticano II, o movimento decolou depois da década de 1960 na América Latina.

O número de comunidades eclesiais de base em bairros carentes e áreas rurais em todo o país, nos anos 80, alcançou a casa dos 100 mil, explicou o entrevistado, acrescentando que “não fosse a Teologia da Libertação [a sua contraparte pastoral], as igrejas evangélicas seriam maiores ainda hoje”.

Para Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido como Frei Betto o declínio subsequente das comunidades eclesiais de base (ou CEBs) e do número de católicos tem relação com o conservadorismo cada vez maior na Igreja.

“Trinta e quatro anos de papados conservadores – com João Paulo II e Bento XVI – desmobilizaram as CEBs e reprimiram a Teologia da Libertação. O esvaziamento das CEBs causou a migração de muitos católicos de baixa renda para as igrejas evangélicas”, afirma Frei Betto.

Mo Sung acrescentou que, na década de 1990, as CEBs cresceram tanto que se tornaram paróquias, às vezes conduzidas por padres mais conservadores. A institucionalização destas comunidades acabou diminuindo a influência popular de lideranças leigas como ministros da Palavra.

“Elas foram substituídas por padres, que muitas vezes não dominavam a comunicação com as pessoas”, disse Mo Sung.

O tipo de Teologia da Libertação que se tornou hegemônico no Brasil também gerou um certo distanciamento do catolicismo popular, segundo Mo Sung.

Nas CEBs, as pessoas gostavam de organizar procissões e festas nos dias dos santos. Mas a Teologia da Libertação brasileira assumiu a linguagem racional do pensamento europeu. A capacidade de falar ao povo se perdeu”, disse.

O catolicismo popular no país sempre foi uma questão de resolver problemas concretos, continuou o professor universitário. “As pessoas tradicionalmente oravam e faziam promessas para os santos a fim de serem curadas ou conseguir um emprego. Elas não se preocupavam com o cosmos, mas com suas necessidades. Os evangélicos entraram por essa porta, dado que os padres não mais dialogavam com estes elementos”, disse.

Na opinião de Frei Betto, o clericalismo acabou se tornando um grande problema no contexto brasileiro em que crescia o protestantismo.

“Nas igrejas evangélicas, o pastor é alguém que vive na favela [onde está a igreja]. Mas, na Igreja Católica, o padre é alguém que vem de fora”, explicou.

A acusação que Araújo faz à Teologia da Libertação não considera um outro aspecto importante, segundo João Décio Passos, professor de ciências da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

“Há uma tendência de declínio da religião em geral no mundo, não somente na América Latina [onde a Teologia da Libertação era relevante]”, disse ele.

Em 1970, apenas 0,8% da população brasileira se declarava não religiosa. Em 2010, a proporção foi para 8%.

“A secularização é mais significativa entre segmentos da população com mais anos de estudo e nas classes sociais mais altas, nas quais a Teologia da Libertação não teve nenhuma influência”, disse Passos. “Este ministro [Araújo] continua sendo um ideólogo que desconsidera os fatos e a ciência”.

 

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