ASA comemora seus 20 anos abrindo espaço para perguntas que 'alumiam' seu vir-a-ser

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29 Novembro 2019

Sabe aqueles dias em que a gente para e faz perguntas a si mesmo/a sobre os rumos da vida? Geralmente, isso acontece em fases cruciais da existência. Ontem (26), foi um destes dias para a ASA (Articulação Semiárido Brasileiro). Dois motivos especiais convergiram para destampar as perguntas: os 20 anos da rede, com um legado que ajudou a impulsionar a transformação social na região semiárida. E o momento político do Brasil. Para ajudar a ASA nesta missão de se olhar e enxergar as questões essenciais que emergem deste momento, foram convidadas pessoas que contribuíram de diferentes formas com o vir-a-ser da Articulação.

A reportagem é de Verônica Pragana, publicada por Articulação do Semiárido - ASA, 28-11-2019.

ASA celebra 20 anos. (Foto: Hugo de Lima/ASA)

Pela manhã, no salão grande do Marante Executive Hotel, na zona sul do Recife, cerca de 130 integrantes da ASA de todos os estados do Semiárido - de Minas Gerais ao Maranhão - sentaram em dois grandes círculos para dialogar com as falas do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte que estuda o Semiárido desde o final da década de 1980, Roberto Marinho, com a assentada da reforma agrária, agricultora e sindicalista da região da Borborema, no agreste da Paraíba, Roselita Victor, e com o integrante da Coordenação Executiva da ASA Brasil e ASA Bahia, Naidison Baptista.

Complementares, as falas de cada um formaram um cenário onde se destacava a singularidade do seu papel enquanto uma rede diversa e ampla de organizações da sociedade civil que há 20 anos resolveram se mobilizar em prol de uma causa e estratégia - a convivência com o Semiárido. O cenário tinha como pano de fundo os indicadores sociais do Censo Agropecuário 2017 do IBGE, divulgados este ano, que foram pincelados pelo pesquisador Roberto Marinho.

O professor abriu a mesa trazendo algumas afirmações que atestam a mudança social ocorrida no Semiárido: o aumento da capacidade de resistência da população sertaneja frente à grande seca que se estendeu de 2012 a 2017/18 e a "mudança do padrão de gestão das políticas públicas". Segundo Marinho, essa mudança é consequência de uma série de fatores como 'a formação da capacidade de construção coletiva por parte da sociedade civil organizada que, por sua vez, é fruto de um processo de mobilização social em torno de uma causa, a convivência com o Semiárido'.

Sobre a mudança do padrão de gestão das políticas pública, Marinho credita aos esforços da ASA a construção de "uma porta no Estado" para que a sociedade pudesse interferir nas políticas públicas de uma forma diferenciada, a partir de uma relação na qual o povo se apropria das políticas públicas.

A fala de Roselita Victor foi feita a partir do lugar de agricultora familiar assentada da reforma agrária que acompanha a ASA desde o princípio da articulação. "Em 2003, a partir do EnconASA [Encontro Nacional da ASA] que aconteceu na Paraíba, a ASA construiu sua conexão com quem está na base. Nesses 20 anos, a partir da construção política do P1MC [Programa Um Milhão de Cisternas] e do P1+2 [Programa Uma Terra e Duas Águas], tiramos muitas pessoas da invisibilidade... Resgatamos a autoestima do nosso povo. As pessoas passaram a se orgulhar de seu lugar".

E, complementando o que Marinho falou antes sobre o pertencimento do povo às políticas de acesso à água, Victor assegura: "Em qualquer espaço de debate de políticas públicas que vou, não tem como não não citar os programas de convivência com o Semiárido, porque assumimos eles como políticas nossas".

Na continuidade, Roselita inaugura a série de recomendações à ASA para que este organismo complexo e diverso se reinvente neste tempo de crises. A primeira delas, anunciada em tom taxativo - e que fez coro com falas da mediadora da mesa Graciete Araújo, que integra a coordenação executiva da ASA Brasil - foi que a ASA passe a "encarar como princípio a luta contra a violência que as mulheres rurais enfrentam todos os dias". Reforçar a luta das populações LGBTs, negra e jovem também fez parte do pacote de recomendações.

Como membro da coordenação executiva da ASA, Naidison Baptista trouxe os números dos programas da ASA como abre alas de sua fala: 1 milhão e 250 mil cisternas de placa nas casas dos agricultores, 200 mil tecnologias que acumulam água para produção de alimentos, 1 mil bancos de sementes, 7 mil escolas com água. "Introduzimos no Semiárido a dimensão da partilha da água. Antes da gente, a água era concentrada nos açudes e aguadas". E ele seguiu tecendo por entre os vários princípios metodológicos da ASA até chegar na situação atual da relação da ASA, enquanto articulação da sociedade civil, e o governo federal."

E elaborou as primeiras das muitas perguntas dirigidas à ASA no dia de ontem: "como nos reinventamos para continuar firmes na perspectiva da convivência com o Semiárido?" e "como aprofundamos essa construção de saberes que somos nós, a ASA?"

Outras questões surgiram do grupo que escutava atento à mesa: "em que medida o nosso trabalho foi capaz de empoderar as organizações da ASA com relação a esse modo de construir a emancipação e autonomia das famílias agricultoras? Como conseguimos traduzir isso tudo em força política e social para fazer o enfrentamento às forças conservadoras que aí estão?", elaborou Luciano Marçal, da organização AS-PTA, da ASA-PB. E acrescentou: "em que medida a experiência que tivemos a partir dos programas de convivência com o Semiárido executados pela ASA pode ser alargada para outros programas sociais para que irradie a participação ativa da sociedade na implementação e construção de políticas públicas?"

À tarde, as questões existenciais continuaram vindo à tona na mesa intitulada ASA+20, que teve a participação de Sílvio Santana, da Fundação Esquel Brasil, de Aerton Paiva, da Apel, consultoria que atua na área de investimentos privados na área social, da militante e líder do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Rafaela Alves, e mediação de Valquíria Lima, também da coordenação executiva da ASA Brasil.

Desta mesa que passeou por momentos de leitura da conjuntura política e outros de muito pragmatismo característico do campo empresarial, emergiram recomendações para a ASA refletir sobre o capitalismo como sistema hegemônico, totalitário e global "que não tem preocupação com a vida humana e tem nos imposto - aos movimentos e organizações sociais do campo dos direitos humanos - sucessivas derrotas".

Outras 'tarefas' delegadas à ASA por Rafaela neste exercício de refletir sobre si é "aprofundar o entendimento do seu papel, se preparar para atuar em conjunturas adversas como a atual e manter vivo um processo de formação técnico e político que favoreça a ampliação permanente da consciência política das pessoas do campo".

Com relação às perguntas, à ASA foram endereçadas outras tantas pelo representante da consultoria Apel que mediou a relação de parceria da ASA com a Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, e com a Petrobras. "Será que a gente está explorando bem o capital social singular da ASA? O que a gente pode atrair mais para a nossa causa? Como vamos lidar com este contexto de desqualificação dos movimentos socais? Qual a nossa estratégia de defesa narrativa? Como vamos lidar com a pauta do clima? Como ampliamos a visibilidade da causa do Semiárido que é muito contida na região?", entre outras questões anunciadas por muitas vozes até o encerramento da mesa.

Ao fim do intenso exercício de olhar para as questões que podem 'alumiar' o vir-a-ser da ASA, o tom era de celebração, de festa. Aliás, a leveza dos versos poéticos estava bem presente durante o primeiro dia deste encontro da ASA. Aqui e ali, saltavam dos corações e mentes dos participantes-poetas versos autorais ou lembrados de gente que nos inspira até hoje como Cora Coralina, essa mulher escritora e feminista trazida para o meio dos presentes pela voz da comunicadora do Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido, Paula Andreas: “É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas. Mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros. Mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”

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