Reflexões e lutas internas depois do Sínodo Pan-Amazônico. Artigo de Maurício López

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • No dia 09 de outubro de 2020, o cardeal Tolentino Mendonça abordará as contribuições de Francisco para um futuro pós-pandêmico, em conferência online

    Pandemia, um evento epocal. A encíclica Fratelli Tutti, lida e comentada por José Tolentino Mendonça, cardeal, no IHU

    LER MAIS
  • “Da crise não saímos iguais. Ou saímos melhores ou saímos piores”, afirma Papa Francisco na ONU

    LER MAIS
  • É possível o fim da espécie humana?

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


26 Novembro 2019

"Esse caminho de construção do 'Reino em e com a Amazônia' faz a esperança, mas também produz temor pelo que isso poderia implicar. Há uma sensação de plenitude interna e um inusitado gozo por abraçar uma genuína liberdade frente ao que isso pode produzir", reflete Maurício López Oropeza, secretário executivo da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM, membro do Conselho Pré-Sinodal e auditor do Sínodo Pan-Amazônico, em seu primeiro artigo da série Itinerário interior de um navegante em travessia pelas águas movidas do rio Sinodal Amazônico, composta por reflexões sobre a experiência sinodal. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Poder literalmente dizer a Deus que o amamos,
não só com todo o nosso corpo, com todo o nosso coração,
com toda a nossa alma,
mas também com todo o Universo em vias de unificação,
Eis uma oração que só se pode fazer
no seio do Espaço-Tempo
Pierre Teilhard de Chardin, em "O Fenômeno Humano".

Antes da Assembleia do Sínodo da Amazônia, carregado de profundas claridades em minha cabeça, porém cheio de intensas incertezas em meu coração, a força de Deus me deu no silêncio de meus Exercícios Espirituais (julho de 2019) a moção ou chamado desde o profundo a empreender uma “Navegação de 40 dias pela Boa Nova de Deus para o Sínodo Amazônico”. Esse percurso foi uma absoluta graça pessoal (e tem sido muito esperançoso saber que foi também para muitas pessoas em tantos e diversos lugares) mediante o qual pude buscar e encontrar a serenidade, o discernimento e a coragem necessários para escutar a voz mais importante, a do Deus vivo e presente nos rostos concretos da Amazônia, e levá-la à Assembleia Sinodal. Essa voz falou a todos nós participantes do Sínodo, ao menos aos que tinham um coração livre e aberto, para descobri-lo nas imprescindíveis vozes dos povos, comunidades e missionários que se encarnam dia a dia na Amazônia, e desde as quais, pessoalmente, pude encontrar o sentido em meio a tanto movimento. Dessa voz de Deus me veio a coragem para me sustentar frente às águas tão agitadas como as do processo Sinodal. Essas águas desde as quais o próprio Jesus nos chama a não ter medo e a confiar n'Ele, como fez com seus seguidores mais próximos no meio da tempestade.

Hoje, algumas semanas depois da Assembleia do Sínodo Pan-Amazônico, a pergunta que mais forte ressoa dentro de mim e persegue meu ser não é “o que seguir agora e como teremos de abordá-lo?”, mas sim, “se já não sou o mesmo de um par de meses atrás quando a Assembleia começava, e tampouco sou quem fui dois anos atrás quando começamos esse processo de preparação, escuta e de rota compartilhada, quem sou eu hoje?". Por meio da navegação, me faço consciente sobre como esse processo me transformou por dentro e de forma definitiva e indubitavelmente.

E, no mesmo sentido dos "40 dias navegando pelo rio" em preparação rumo ao Sínodo, hoje quero compartilhar uma série de reflexões que também querem ser intuições de uma rota pessoal rumo à Páscoa, isto é, para um certo modo de vida nova e que são, sobretudo, isto: movimentos internos (carregados de uma mistura impossível de dúvidas e certezas) à luz da experiência pessoal e minha vivência sinodal comunitária. Eles buscam, por um lado, tirar-me de dentro disso que queima no interior e que não sei onde colocar ou como acomodar, e por outro, dar conta do vivido, não a partir das tantas leituras sapienciais, estruturais, morais ou programáticas que estão abundando sobre o Sínodo hoje em dia, mas sim pelas ininterruptas sacudidas internas que experimentei nessa experiência inédita. Uma experiência inédita para a Igreja, por seu modo, tom, composição, preparação e frutos, porém evidentemente inédita para mim e tantos mais que adentramos nessas águas, sabendo suficientemente bem de onde vínhamos, porém desconhecendo o ponto de chegada, ou se inclusive, chegaríamos a vê-lo.

Essa é uma experiência bonita, que faz nos sentirmos totalmente limitados, indefesos e pequenos, portanto nos recorda nossa profunda fragilidade como criaturas que põem suas vidas como meios. Porém também, na bonita lógica de Deus, é uma experiência que nos faz saber parte de um plano maior, do qual somos partículas imprescindíveis, que fazem parte da rota para a Cristogênese e do definitivo, ainda que imperceptível e incomensurável, a ascensão da consciência para uma unidade maior. Por isso, a frase do grande Teilhard de Chardin, ao início desse artigo, e de cada uma das reflexões dessa série.

As primeiras intuições e batalhas interiores na fase pré-sinodal

Em agosto de 2017, antes inclusive de que o Papa anunciasse e convocasse oficialmente o Sínodo Amazônico (o fez em outubro deste mesmo 2017), já na Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM tínhamos muitos elementos para imaginar que o papa Francisco faria tal anúncio, e ainda que não tínhamos certeza alguma sobre quando e com que tema exato, o coração e todo nosso interior começava a imaginar, sonhar e perfilar o que esse anúncio poderia significar.

Estávamos na expectativa, nesse gozo de saber que algo novo estava a caminho e teríamos o privilégio e responsabilidade de ser parte disso. Nesse agosto de 2017, em meus Exercícios Espirituais começavam a se mover já muitas fibras, e os impulsos internos iam também perfilando tudo em mim para esperar esse chamado. Aqui compartilho as primeiras intuições nesse sentido:

Frente às maravilhas da Amazônia e de seus povos, e o caminho andado como REPAM, reconheço que somos pequenas gotas d'água que resultam do milagroso ciclo vital da condensação de elementos livres que se integram pouco a pouco, superando distâncias e diferenças de origem e dimensão, porém que de maneira misteriosa em sua existência física podemos abraçar e atestar desde a lógica do Deus criador que produz essa possibilidade de síntese que também nos representa, já que somos também como ínfimas gotas d'água nesse caminho a serviço da Amazônia. Se há de acontecer um Sínodo Pan-Amazônico, pedimos intensamente que sejamos como essas águas dispersas que sob tua lógica vão se integrando pouco a pouco para fazer sentido de nossa limitada e pequena existência com a qual possamos tecer a parte que nos toca no gesto do advento de uma humanidade nova: o Reino.

Senhor, que no permanente e incomensurável mistério do movimento de Tua presença em tudo criado nessa Amazônia, faz com que a convergência seja possível. Uma convergência do diverso que dê como resultado a avassaladora força libertadora, descomunal e imparável de um rio de vida que somente podemos compreender ao tirarmos as sandálias ante à terra e águas sagradas da Amazônia que relatam tua presença e beleza. Ali, no Cristo presente nos rostos concretos, em sua diversidade cultural, em sua espiritualidade, e no permanente processo de evolução que reflete um caminho de libertação nesse kairós do Reino, que vai se gestando em tudo e em todos, sem que nada, nem ninguém possa o parar. Deus é o amor descomunal que liberta e transcende tudo.

Esse caminho de construção do Reino "em e com a Amazônia" faz a esperança, mas também produz temor pelo que isso poderia implicar. Há uma sensação de plenitude interna e um inusitado gozo por abraçar uma genuína liberdade frente ao que isso pode produzir. Junto com isso deve morrer esse meu desejo de ser afirmado por outros, pois isso me ata e me impossibilita de ir mais além de mim. Que a força da Parrésia nos encha da tua convicção profética, e nisso peço a Graça de querer, desejar e pedir, ainda que com medo e temor, ela nos coloque em tuas mãos nesse serviço. Que saiba colocar-me nos braços e sob o amparo de tantos e tantas mártires da Amazônia, os conhecidos e os desconhecidos; para que os imitemos, não desde a perspectiva do martírio por si mesmo, porque isso é uma graça, porém sim, na profunda e fervente experiência de entrega sem negociar os próprios termos. Colocarmo-nos de verdade à intempérie pelo teu projeto, e sermos provados até as mais inesperadas consequências. E ainda que trema a minha mão somente de escrevê-lo o peço com firme convicção de desejar estar à altura do Teu chamado.

A REPAM é ponte e lugar de encontro, quer ser fiel ao seu processo eclesial de entrega generosa e resposta em comunhão “parrésica” ante os sinais dos tempos, e há de ser capaz de responder aos graves, sistemáticos e impunes sinais de morte violenta e cotidiana que se produzem pela avareza sobre esse belo, contraditório e frágil lugar que mostra Deus através de toda a Amazônia e seus povos.

Se o Sínodo esperado ocorrer, que seja uma verdadeira ocasião para estar do lado daqueles que sempre foram excluídos e postergados, seja um momento de opção ao projeto do reino, à luz do Concílio Vaticano II e suas reformas ainda pendentes, e ao lado do papa Francisco e seu itinerário de alegria, reforma e conversão. Que possamos experimentá-lo como um verdadeiro "sentir com a Igreja", e ao mesmo tempo que todos nós reconhecemos como seres de passagem por esse caminho. Nós somos meio, o Sínodo tem que ser um meio. O único objetivo é a vida plena do território e de seus povos; o objetivo final é o Reino da maneira que Jesus nos ensinou.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Reflexões e lutas internas depois do Sínodo Pan-Amazônico. Artigo de Maurício López - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV