Péguy e os "Partidos de Deus"

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29 Outubro 2019

“Não basta reduzir o temporal para se elevar à categoria do eterno. Não basta reduzir o mundo para ascender à categoria de Deus”. Charles Péguy escrevia isso em 1914, em sua Nota conjunta sobre Descartes e a filosofia cartesiana. Naquele escrito, publicado postumamente, o poeta francês - que morreu como soldado na batalha de Marne, no início da Grande Guerra - sinalizava entre outras coisas o grave "erro de cálculo" feito por aqueles que ele definia de "Partido dos devotos": aqueles que "porque não têm coragem de ser do mundo, acreditam ser de Deus. Como não têm coragem de ser de um Partido do homem, acreditam ser do partido de Deus". E "como eles não amam ninguém, acreditam amar a Deus". Esquecendo que "mesmo Jesus - concluía Péguy – foi do homem".

O comentário é de Gianni Valente, jornalista e historiador italiano, publicado por L'Osservatore Romano, 28 e 29-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

As palavras sobre o "Partido dos devotos" usadas pelo poeta francês foram lembradas pelo Papa Francisco em seu discurso de encerramento dos trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia. O Sucessor de Pedro as aplicou aos "grupos elitistas" que (mal)tratam também as assembleias sinodais da mesma maneira que os congressos partidários, onde as disposições da assembleia servem apenas para medir as relações de força entre grupos antagônicos.

As citações de Péguy nunca são tiros "de festim", expedientes para exibir erudição. Com sua intimidade poética no acontecimento do mistério cristão, e com sua imanência visceral à modernidade "incristã", Péguy também pode iluminar com suas fulgurações poéticas a presente temporada eclesial, com suas consolações e as suas cruzes. Toda a sua obra repete que desde que Deus se fez homem, a fé reconhece que a "própria técnica" do evento cristão consiste na "vinculação entre o eterno e o temporal". A natureza própria do cristianismo, incomparável a qualquer caminho da sabedoria espiritual ou intelectual, para Péguy está precisamente "no encaixe entre duas peças, aquele envolvimento especial, mútuo, único e não desmontável do temporal no eterno, e (acima de tudo, algo mais frequentemente negado e que é efetivamente o mais maravilhoso), do eterno no temporal”. Um "enxerto do eterno no tempo" realizado no mistério da encarnação de Nosso Senhor, e que se manifesta na recorrência temporal da graça, nos contínuos "recomeços" carnais da graça no tempo, os "novos começos" da obra do próprio Cristo e de seu Espírito na vida dos indivíduos, das comunidades e dos povos.

Em suas obras, o “cronista” Péguy também conta sem concessões a perda moderna da memória cristã, a “renúncia de todo o mundo a todo o cristianismo” vivida por homens e mulheres que são “os primeiros, depois de Jesus, sem Jesus”. Mas ele acrescenta que não foram fatores culturais, filosóficos, políticos ou sociológicos que determinaram esse "desastre". A natureza íntima da descristianização - atesta Péguy - reside precisamente em não esperar mais, em não reconhecer mais a ação da graça no tempo, na carne deste tempo histórico presente.

O "erro de mística" diagnosticado por Péguy tomou partida - enfatiza o poeta - da tentativa de remover e ocultar "o mistério e a operação da graça". Ao negar a inserção do eterno no temporal, a própria dinâmica do evento cristão é ignorada. Isto é, que a graça não pode encontrar o homem se ele não brilhar na carne, isto é, no espaço e no tempo da condição humana.

Fora da recorrência da graça - alerta Péguy - nada resta ao cristianismo, exceto torná-lo uma "excelente matéria de ensino". E os principais culpados desse "erro de mística" - atesta Péguy - não são os incrédulos ou os indiferentes, mas os dois "grupos de clérigos" que também condicionam o caminho da Igreja na modernidade: os "curas laicos", que negam "o eterno do temporal" e os "curas clericais ", que negam "o temporal do eterno". Entre os dois grupos, o mais pernicioso é a segundo, aquele dos "curas clericais", que gastam seus recursos para transformar o cristianismo em um idealismo religioso, um sistema de ideias eternas (a ideia da criação, a ideia da encarnação, a ideia da graça, a ideia de Cristo) e de instruções morais que eles mesmos, como competentes, "com um particular orgulho profissional" podem dominar para afirmar seu poder sobre os fiéis batizados, e talvez tentar empreender operações de hegemonia temporal em nome do eterno.

O "pecado místico" das elites clericais identificadas por Péguy é perpetrado por uma questão de domínio. Como expediente para tentar dominar a realidade e não se expor àquela vertiginosa insecuritas, àquele traço de precariedade que marca a condição daqueles que, por outro lado - os pobres, as crianças, os prediletos do Senhor - permanecem humildemente suspensos aos contínuos recomeços da ação da graça. Uma condição que os eclesiásticos e os intelectuais religiosos não toleram: "Eles perdem continuamente de vista aquela precariedade que é para o cristão a condição mais profunda do homem; perdem de vista aquela profunda miséria; e não consideram que sempre é preciso recomeçar". Por esse caminho - adverte o poeta francês -, alcança-se "aqueles vãos espiritualismos, idealismos, imaterialismos, religiosismos", tanto mais insidiosos quanto mais se recobrem de supostas referências aos picos do transcendente e da vida espiritual.

O que salva a Igreja e o povo de Deus também dos "erros de mística" dos diferentes grupos clericais de ontem e de hoje - sugere Péguy - não são estratégias organizadas de contraofensivas culturais, mas apenas a confiança no recorrer da graça, que pode ser sempre mendigada na oração. Deixando ao Senhor curar os corações e cuidar dos seus. "Ele precisava passar três anos", escreve Péguy sobre a vida pública de Jesus "e cumpriu seus três anos. Mas ele não perdeu seus três anos, não os usou para se lamentar e invocar os males dos tempos. No entanto, havia os males dos tempos, do seu tempo. (...) Ele não incriminou, não acusou ninguém. Salvou. Não incriminou o mundo. Salvou o mundo. Esses outros vituperam, raciocinam, incriminam. Médicos injuriosos que se irritam com o doente. Acusam as areias do século, mas mesmo na época de Jesus havia o século e as areias do século. Mas na areia árida, na areia do século, fluía uma fonte, uma fonte inesgotável de graça".

Assim, ainda hoje, as palavras de Péguy retomadas pelo Papa Francisco ajudam a amar a Igreja, que não tem medo de se ferir, abraçando as expectativas e alegrias, as dores e as esperanças dos homens e mulheres deste tempo. Driblando também as teologias e as subteologias que, de uma maneira ou de outra, por caminhos diferentes e aparentemente contrastantes, censuram a Deus o pecado de ter se tornado homem. Na esperança de poder experimentar que "para o seu destino de felicidade os homens são reconduzidos através da humanidade de Cristo" (São Tomás de Aquino).

 

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