Duas concepções opostas da vida. A sustentabilidade do sistema ocidental em exame pela Amazônia

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28 Outubro 2019

Por que, como diz o Papa Francisco, a Amazônia é um banco de testes para toda a humanidade? Por que constitui a fronteira na qual se joga o futuro do planeta? Por que colocaria em exame a sustentabilidade do sistema ocidental? A Amazônia é palco de um confronto entre duas mentalidades, duas concepções de vida, duas visões do homem, da sociedade, da política, um confronto entre duas civilizações e duas antropologias e duas cosmovisões.

O comentário é do padre Giuseppe Buffon, professor titular de História da Igreja na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, e especialista no Sínodo, publicado por L'Osservatore Romano, 26 e 27-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Por um lado, acredita-se que a felicidade é a satisfação das necessidades individuais; pelo outro, estamos convencidos de que a mesma felicidade consista no compartilhamento, a ponto de julgar qualquer ação que não seja dirigida à solidariedade como inadmissível. Quando, por exemplo, você vai pescar, não é permitido retornar à vila sem trazer peixe para compartilhar com outros membros da comunidade. Por um lado, estima-se o consumo como sinônimo de riqueza, a ponto de considera-lo parâmetro para avaliar o padrão social; pelo outro, considera-se riqueza a vida o "bem viver", que é espaço e, sobretudo, tempo para o encontro e troca, para a contemplação da natureza, mestra de relações no entrelaçamento entre florestas e rios. Por um lado, a propriedade privada, legitimada por um contrato legal e, portanto, considerada inegociável, mesmo diante das premências do bem comum, a que se remedia muitas vezes através da esmola; pelo outro, simplesmente a propriedade coletiva.

Por um lado, uma relação empática com a terra, a água e o mundo inteiro da floresta, considerada casa comum; pelo outro, uma relação conflituosa com a natureza, considerada maligna e, de qualquer forma, a sem dominada, através da exploração de recursos, transformados em bens de consumo para satisfazer as necessidades, que se tornaram uma massa de resíduos tal que o planeta não consegue mais conter. Por um lado, um modelo de desenvolvimento sustentado pelo progresso tecnológico, que explora os recursos locais para fazer manufaturados a serem colocados no mercado global; pelo outro lado, uma economia resultante das tradições ancestrais, orientada a satisfazer apenas as necessidades das comunidades locais. Por um lado, megaprojetos de agricultura extensiva, voltados a atender às necessidades dos mercados internacionais, como o chinês, dispostos a comprar grandes quantidades de carne vinda do Brasil; pelo outro lado, a valorização da sabedoria tradicional, que soube reconhecer uma rica biodiversidade agroalimentar e uma grande variedade de plantas medicinais, indispensáveis à saúde das populações indígenas. Por um lado, a introdução de sementes transgênicas para obter produção agrícola apta a satisfazer o comércio internacional; pelo outro, o uso de sementes autóctones produto de um conhecimento e sabedoria ancestrais, fonte da autonomia e da identidade própria dos povos indígenas.

Por um lado, grandes empresas multinacionais que, com o apoio dos governos nacionais, investem em projetos de mineração e exploração de petróleo, envenenando rios e derrubando florestas; por outro, o cuidado da floresta e da terra por parte das populações indígenas, consideradas criminosas por se oporem ao progresso econômico e ao aumento da riqueza, que, porém, aumenta cada vez mais o fosso social entre ricos e pobres. Por um lado, a depredação do território que produz assassinatos, derramamento de sangue inocente, impunidade e a criminalização dos defensores da Amazônia; pelo outro, a impotência de populações, às quais nenhum direito é reconhecido, nem mesmo o de salvaguardar a dignidade da pessoa humana. Por um lado, a degradação produzida pelo envenenamento dos rios, pela exploração indiscriminada, pela venda ou privatização de territórios ancestrais não oficialmente reconhecidos, pelo uso intensivo de produtos agroquímicos para a agricultura e de metais pesados para a extração, com forte presença do tráfico de drogas; pelo outro, a agonia de uma população que há séculos protege um bioma indispensável para a sobrevivência do planeta, tanto no plano da biodiversidade quanto naquele da redução dos níveis de CO2, responsável pelo aquecimento climático.

A fronteira amazônica coloca um questionamento dramática sobre o sistema de exploração ocidental, que considera utópico a concepção de vida dos povos indígenas, considerando-se assim absolutamente legitimado a perpetuar seu próprio modelo de desenvolvimento. O rico e frágil reservatório de recursos da Amazônia pode suportar o ataque predatório do Ocidente industrial? Por quanto tempo ainda o ocidental poderá se valer da produção de minerais, petróleo e alimentos da Amazônia? O modelo econômico ocidental, que para sobreviver baseia-se no patrimônio energético e minerário da Amazônia, pode ser considerado sustentável? Esse sistema de desenvolvimento ocidental é sustentável?

O equilíbrio extremamente frágil do meio ambiente amazônico evidencia em maior extensão em relação a outros contextos ambientais a não sustentabilidade de todo o sistema técnico-econômico-cultural ocidental. A mineração, por exemplo, é, por definição, uma atividade destinada ao esgotamento: não concede réplicas, condenando o território, entendido no sentido bio-sócio-cultural, a uma destruição irreversível. Também engessa a diversificação econômica e gera "minero-dependência". Produz lucros imediatos em benefício das multinacionais de mineração, mas arruína as economias nacionais e locais. Além disso, as infraestruturas necessárias para a construção de megaprojetos de mineração (ferrovias, transporte fluvial, rodovias, portos) bloqueiam o desenvolvimento local, além de prejudicar o meio ambiente. A extração legal e ilegal de ouro (garimpos) causa graves fenômenos de poluição da terra e da água, gerando corrupção, conflitos e violência no território. A própria exportação dos produtos pouco processados em si cria dependência do sistema econômico mundial, que reduz os preços dos produtos, agravando ainda mais as condições de miséria das populações locais.

Ao deserto econômico soma-se o deserto ambiental, causado pelo desmatamento. O solo que cobre a Amazônia, denominado escudo da Guiana, sendo pobre de nutrientes ácidos e com baixa capacidade de troca catiônica, uma vez eliminada a floresta que o alimenta com os resíduos depositados na superfície, torna-se irreversivelmente estéril, tornando-se um deserto permeável. A Amazônia, portanto, registra um alto grau de destrutividade devido à incursão extrativista, porque seu ecossistema é bastante frágil, pois se baseia essencialmente na simbiose entre floresta e rios que a atravessam: a floresta cuida da água e a água da floresta. Retirar a água da floresta, como acontece com os grandes projetos de centrais hidrelétricas, destinados a produzir energia para a atividade extrativa, é o mesmo que condenar a floresta à morte e vice-versa. Subtrair a floresta das populações locais que vivem ao longo do rio e em simbiose com ele significa condenar essas populações à morte, porque elas vivem uma relação particular com a terra. Negar-lhes a terra, o ambiente da floresta com seus rios significa negar-lhes o direito de existir. Significa obrigar as jovens gerações a emigrar para os centros urbanos, onde perdem sua identidade originária, sofrendo uma marginalização social e existencial, a ponto de se tornarem presa da delinquência, do tráfico de drogas e das dependências de vários tipos. Significa condenar à extinção o grande povo dos protetores da floresta, seus rios e sua biodiversidade, os guardiões da Amazônia, reservatório hídrico do planeta. Significa dar ostracismo aos guardiões dos segredos da natureza, que o Ocidente não consegue mais reconhecer, porque é carrasco do próprio mesmo corpo.

 

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