Meus sete meses de escravo na Itália entre os tomates

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14 Agosto 2019

Até as cigarras pareciam gritar. Aquele ruído estridente incessante que esgotava os ouvidos parecia o contraponto sonoro do vazio sem horizontes em que sentia ter precipitado. Prisioneiro, sem saída, sem possibilidade de decidir nada, de escolher nada, de fazer nada diferente do que lhe era ordenado fazer. Totalmente dependente dos outros, nas mãos de pessoas que não davam a mínima para ele. Escravo. Quando apareceram de repente, os capatazes gritavam muito mais alto que as cigarras. Poucas sílabas compreensíveis porque acompanhados de gestos traduzíveis em qualquer dialeto. E ele, que já ouvira ladrar em sua cara incontáveis idiomas e sotaques de meia África e meia Itália, aprendera a captar as mensagens que podiam significar vida ou morte, sofrimento adicional ou uma vida tranquila de alguns minutos. Mas todo este farejar e evitar os perigos não o ajudou a evitar aquela armadilha. Assim, quando na estação de Lecce encontrou aqueles homens que "ofereciam trabalho", esquadrinhando-o com rostos endurecidos, ele não parou para dar tempo às dúvidas e os seguiu sem falar, misturando-se ao grupo de garotos africanos como ele. Cinco anos se passaram e, embora ele seja agora um "homem livre", tenha um emprego e até mesmo uma nova família italiana, Musa Yallow ainda acha muito difícil falar sobre esse período nos campos de Salento. Mesmo assim, antes de acabar à mercê dos capatazes, já tinha visto muitos horrores de perto. Na Líbia, principalmente.

A reportagem é de Giampiero Rossi, publicada por La Lettura, 11-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Musa conta sobre sua fuga de Gâmbia, seu país de repente tinha ficado hostil depois que ele expressou publicamente sua opinião sobre alguns eventos políticos. "Com um pretexto ou outro, os policiais não me deixavam em paz", lembra ele, sem deixar de lado o sorriso tímido. Ele tinha quase 19 anos, um diploma do ensino médio e uma família forçada a migrar da cidade para o interior - depois de perder sua casa devido a uma questão administrativa. Então ele partiu, sem saber realmente como ou o que teria que enfrentar. E depois do inferno da Líbia, sobre o qual não há como arrancar dele uma única palavra, a travessia do Mediterrâneo para as costas sicilianas lhe parecera uma coisa a fazer sem demora. Não havia se posto nenhuma questão sobre a embarcação.

Uma vez desembarcado nesta parte do mundo, para um jovem imigrante africano o problema é permanecer vivo e permanecer livre para se mover. Assim, as obsessões cotidianas são, acima de tudo, duas: como ganhar do que viver e que caminho seguir para obter o direito de permanecer na Itália. A Babel do boca a boca pode levar praticamente a qualquer lugar. E hoje Musa até tem dificuldade para reconstruir os desvios e as escolhas que o levaram a Lecce. "Eles me disseram que eu encontraria trabalho lá, porque nos campos sempre havia a necessidade de tantos jovens como eu." As indicações revelaram-se mais do que precisas: já na estação de trem havia outros imigrantes com jeito malandro e durão que perguntavam "você quer trabalhar?" Eles também vindos quem sabe há quanto tempo de algum ponto da África e agora perfeitamente funcionais ao mercado da mão-de-obra em solo italiano.

A cena que Musa descreve recorda certos leilões de escravos vistos nos filmes: os capatazes que andam entre os garotos, olham para eles, os medem, fazem perguntas secas e depois com um aceno de cabeça convidam-nos a segui-los numa picape. Cada um deles tem responsabilidade e poder absoluto sobre uma equipe e dela deve tirar o máximo de produtividade possível, por isso são privilegiados os braços mais fortes e os temperamentos mais dóceis.

O "local de trabalho" de Musa Yallow fica no meio dos campos entre Porto Cesareo e Nardò. "Eles nos levaram para um barraco nos campos - continuam as memórias do antigo escravo - onde nos davam comida e bebida e de onde saíamos todas as manhãs antes do amanhecer para ir trabalhar. À noite eles vinham nos buscar e nos levar de volta. Às vezes nos transferiam para outro alojamento em outro lugar”. Cansaço e exploração sem regras. Mas são determinados detalhes que rendem a ideia do cativeiro. Além de retirar preventivamente os documentos para chantagear os trabalhadores, os capatazes colocavam um preço a tudo: da cabana que chamavam de alojamento, à comida (pouca e de péssima qualidade), à água para beber durante os dias de trabalho sob o sol. Descontos de um euro, um euro e meio por cada item - incluindo o transporte para cima e para baixo do local de trabalho - que minguavam os salários já vergonhosos. "Alguns ofereciam 3 euros por cada caixa de tomates (ou seja, duzentos quilos, ndr), outros 4 euros por hora". Em resumo, ter pouca resistência à sede significa contrair dívidas. E de qualquer forma, os capatazes têm mil maneiras de reter o dinheiro e pedir mais trabalho. E qualquer aceno de reação acaba colidindo com a mãe de todas as ameaças, sibilada na mais crua linguagem dos brancos: "Eu te denuncio e você volta para casa, negro de merda". Os dias de Musa e seus companheiros ocasionais de escravidão sem correntes fluíam assim. Estavam na Itália, sim, mas na verdade isolados, longe do nosso mundo e imersos em outra realidade da qual nem sequer podiam pensar em se afastar. Os outros, os moradores da região, os italianos, estavam em um fundo virtual. Quase não se viam. Sabia-se que existiam, passavam rapidamente em seus carros, de vez em quando cruzava-se com alguém que, no máximo, demonstrava indiferença, piedade ou tolerância. Pouco mais que isso. A única presença real era dos capatazes, dos quais o povo de fantasmas dos campos dependia totalmente.

Uma das primeiras vezes em que concordara em falar sobre esse período, Musa confidenciou que, apesar de tudo, para ele estava bem assim. Fazer força nos campos, pelo menos, evitava que ele se sentisse observado, diferente, submetido a um juízo: "Pelo menos éramos todos iguais entre nós". Ele estava preso, praticamente não tinha nenhuma liberdade, mas naquele momento - constantemente atordoado pelo cansaço, pelo barulho das cigarras e pela ameaça de seus patrões - seus pensamentos estavam fragmentados, entorpecidos. Talvez tenha sido o resultado de um instinto de autoproteção, mas ele não conseguia colocar em foco a sua condição. No máximo, eram os fantasmas da Líbia que ainda o assombravam. Mas ali, naquele momento, diante daqueles que gritavam ordens e reduziam o pagamento com pretextos sempre novos, para ele não fazia diferença baixar a cabeça e fingir que nada estava acontecendo. Também porque ele tinha visto o que acontecia com aqueles que tentavam se rebelar.

A virada veio quando aquela vida - exceto por algumas passagens de um patrão para outro - estava se arrastando há sete meses. E foi o acaso a desencadeá-la. "Um colega meu estava doente há alguns dias. Ele se queixava, mas ninguém o ouvia - conta o jovem gambiano - então decidi acompanhá-lo onde poderia encontrar ajuda. De fato, à beira dos campos cultivados, a Caritas da diocese de Nardò-Gallipoli há muito se tornou um ponto de referência para aqueles que se encontram em dificuldade. "E não se trata apenas os estrangeiros - enfatiza quase imediatamente dom Giuseppe Venneri - aliás, temos muitos italianos entre os frequentadores de nossas três cantinas". Além de receber imediatamente a oferta de uma refeição e tratamento para seu amigo, na Paróquia da Catedral de Nardò, Musa voltou a experimentar uma sensação que havia essencialmente esquecido: o tratavam como pessoa. Sorriam para ele, mostravam interesse por ele.

Ele voltou para a cantina da Caritas novamente. Primeiro com a desculpa do amigo convalescente, depois o tornou um compromisso recorrente. "Tentamos ajudar esses jovens a libertar-se da condição de escravidão em que são puxados pelo trabalho nos campos", explica dom Giuseppe, e quando nos encontramos diante daquele jovem tímido de maneiras tão educadas, o desejo de oferecer-lhe uma saída foi ainda mais forte. No começo, na verdade, nós o acompanhávamos todas as noites até o alojamento onde dormia, depois o convencemos a ficar conosco uma noite, depois outra ...”. Muitos se envolveram no caso de Musa. Alguns para entender a situação do ponto de vista da autorização de permanência e outros para encontrar um trabalho alternativo para a colheita mal paga das melancias. "Uma família daqui o acolheu em seu restaurante - conta Patrizia De Vitis, que acompanhou o jovem passo a passo durante meses - primeiro para fazer algum trabalho eventual, depois integrando-o cada vez mais. No final, quando, se descobriu que ele tinha direito a asilo político na Itália, Annamaria e Ugo Filieri o contrataram regularmente e praticamente o adotaram como um segundo filho. "Hoje Musa Yallow tem quase 25 anos, um emprego, uma renda, uma família de referência. Ele ainda não tem amizades fora do círculo do voluntariado, mas recentemente tirou sua licença de motorista e isso o torna mais independente. Ele continua evitando falar sobre o passado obscuro, especialmente a detenção na Líbia, mas mudou de ideia sobre as cigarras: não é verdade que gritam. Elas cantam.

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