O desplante de Bolsonaro

Revista ihu on-line

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Mais Lidos

  • “Existe uma luta política na Igreja, entre os que querem a Igreja sonhada pelo Vaticano II e os que não” constata Arturo Sosa, superior-geral dos jesuítas

    LER MAIS
  • O agrotóxico que matou 50 milhões de abelhas em Santa Catarina em um só mês

    LER MAIS
  • “Estamos diante de uma crise do modelo de civilização”. Entrevista com Donna Haraway

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

04 Agosto 2019

O presidente do Brasil cancelou uma reunião com o enviado de Macron, Jean-Yves le Drian e apareceu em um cabeleireiro. O que Bolsonaro disse a Paris com esse toque patético é que se querem que se assine o acordo entre a União Europeia e o Mercosul é preciso mudar a tática.

O artigo é de Eduardo Febbro, publicado por Página/12, 01-08-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A legitimidade ou não de uma história depende das posições de quem a lê ou de quem a escreve. O desplante do presidente do Brasil ao ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves le Drian, pode ser visto como uma grosseria à altura da dinastia trumpista ou como uma resposta à agressividade e mau gosto com que Jair Bolsonaro foi tratado na França pelo poder político e a mídia.

Quando há semanas se anunciou o possível acordo final entre a União Europeia e o Mercosul, Bolsonaro emergiu de imediato como a reencarnação monstruosa da destruição. Os ecologistas franceses e alguns deputados o trataram mais ou menos como um ecoterrorista, como um opróbio da decência humana. Durante a cúpula do G20 celebrada em Osaka, durante o mês de junho, o presidente francês, Emmanuel Macron, foi pouco ameno com Bolsonaro. Macron cobrou do presidente brasileiro respeito ao acordo climático de Paris como condição intransponível para que se firme de vez o pacto definitivo com o Mercosul. Curioso que se tenha posto na cúpula um presidente na forca quando, na mesma reunião, tinha um assassino sobre o qual ninguém disse nada: se trata do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed ben Salmane. Sua majestade foi apontada pela Turquia e até pela ONU como implicado na cadeia de responsáveis que assassinaram e esquartejaram o jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado turco de Istambul. “Existem provas verossímeis que justificam investigações suplementares sobre a responsabilidade individual de oficiais sauditas de alto nível, incluído o príncipe herdeiro”, no assassinato de Khashoggi, disse Agnès Callamard, responsável pelo informe. Silêncio de um lado, pressões e falta de tato do outro.

Que Bolsonaro seja indefensável, sobre isso não restam dúvidas. Porém não menos indefensável é o cínico pragmatismo das potências ocidentais quando regulam suas posições internacionais dependendo dos interesses que estão em jogo. Ninguém é tão ecológico como presume, nem menos ainda um estrito defensor dos direitos humanos. Se assim fosse, faz algum tempo que as relações com Estados Unidos ou China deveriam ter sido rompidas: o primeiro é um destruidor absoluto da natureza enquanto o segundo não somente destroça o meio ambiente como também é um violador massivo dos direitos humanos. O famoso pragmatismo europeu faz com que no mesmo dia em que a França reconhece como presidente o opositor venezuelano Juan Guaidó, Macron viaje ao Egito para vender armas ao general e presidente Abdelfatah Al-Sisi, um dos responsáveis políticos mais repressores do planeta.

Há alguns dias, Donald Trump empregou o termo “imbecil” em um tuíte que publicou sobre Emmanuel Macron, depois que o chefe do Estado francês decidira implementar uma taxa de 3% aplicada à cifra de negócios dos chamados GAFA (Google, Amazon, Facebook e Apple). Silêncio sobre silêncio.

Jair Bolsonaro foi ao cabeleireiro, deixou o chanceler francês plantado e o fez saber disso. O gesto, sem dúvidas, pode tirar do sério os moralistas de todo tipo, porém se inscreve nos ensinamentos proferidos pelo seu mestre, o presidente norte-americano Donald Trump, cujas falta de gosto, agressividade, maltrato e desprezo por tudo e todos já não são uma surpresa para ninguém. Trump tem suas aulas muito cheias. Entre os principais países europeus, dois alunos seus olham assiduamente ao que diz ou faz: Matteo Salvini na Itália e Boris Johnson na Grã-Bretanha. E agora o sócio poderoso da América do Sul.

O que Bolsonaro disse a Paris com esse toque patético é que se querem que se firme o acordo entre a União Europeia e Mercosul tem que mudar os registros. Sua declaração de “soberania” a manifestou tal como seu grande aliado do império do Norte lhe transmitiu no ensinamento. Por outra parte, temos que ser realistas, deixar de mentir, vender miragens e entender que, apesar do que digam os sacerdotes liberais do livre comércio, assim como estão as coisas, o acordo com o Mercosul não se firmará em um horizonte próximo. O porta-voz do governo francês já disse há um mês: tal como está, Paris não firmará o acordo. O chanceler francês recordou que seu país “não tem nenhuma pressa em fazê-lo”.

O pacto entre Mercosul e a União Europeia é uma faca de vários gumes, o primeiro deles eleitoral: no próximo ano se celebram eleições municipais na França. A permanência desse acordo impactará os resultados, particularmente pela influência eleitoral do campesinato francês hostil a sua assinatura. Bolsonaro é, também, o provocador da esquerda, dos ambientalistas e do centro. Qualquer aproximação com o presidente brasileiro não faria mais que enaltecer os ânimos desses setores eleitorais em eleições em que os responsáveis políticos de maior proximidade se elegem. Que lástima que a legítima boa educação tenha mudado de planeta. As relações internacionais são exatamente o reflexo dos Calígulas modernos os quais, na base de mentiras monumentais, propagadas pelas empresas digitais do Ocidente (Cambridge Analytica, Facebook, WhatsApp, etc.), chegaram ao poder.

São usurpadores e atuam como tal: não se preocupam em usurpar a vontade popular, a verdade, os direitos, a justiça ou usurpar as condutas que, alguma vez, fizeram possível o inalcançável desejo de um mundo diferente. Uns com seus pragmatismos e seu humanismo transformador, outros com suas vulgaridades e brutalidades, ambos são agentes da desumanização de nosso planeta.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O desplante de Bolsonaro - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV