Por que a terra de Moro e Dallagnol é tão conservadora e antipetista?

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17 Julho 2019

Desde de que a Lava Jato começou a fazer estragos em Brasília, uma dúvida paira no ar. Por que uma operação como aquela começou justo no Paraná, um estado até então menor no xadrez político brasileiro? A questão ganha novo fôlego desde que vieram à luz as ligações perigosas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol na #VazaJato.

A reportagem é de Thais Reis Oliveira, publicada por CartaCapital, 18-07-2019.

Em novembro de 2016, quando Moro tomava os primeiros depoimentos do caso tríplex, o advogado Roberto Batochio aludiu à derrota do nazismo para criticar o aparato judicial daquela “região agrícola do país”. Ele reclamava o cerceamento à defesa.

Nas conversas entre os procuradores, chama atenção a acolhida bovina das broncas e conselhos de Sérgio Moro repassados por Deltan. Ao contrário do juiz, cujos interesses o futuro revelaria tão logo acabaram as eleições, não fica claro o que ganham os procuradores em aumentar o cordão do servilismo, tramando até para impedir que Lula fosse entrevistado no calor das eleições.

Há um diálogo que ilustra muito bem esse fenômeno. Em outubro do ano passado, Deltan trocou confidências com Anna Carolina Resende, funcionária da PGR em Brasília, sobre as expectativas para o futuro. Eles representavam o bem. E a classe política — em especial Lula e o PT — o mal a ser extirpado.

— Ando muito preocupada com uma possível volta do PT, mas tenho rezado muito para Deus iluminar nossa população para que um milagre nos salve

Dallagnol respondeu:

— Valeu, Carol

— Reza sim

— Precisamos como país

A força-tarefa da Lava Jato é composta atualmente por 16 procuradores. Entre egressos e titulares, há uma maioria de nascidos e criados no Paraná e em outros estados da região Sul do País. Dallagnol nasceu em Pato Branco, uma cidade de 82 mil habitantes no interior do Paraná. Moro cresceu a quatrocentos quilômetros dali, em Maringá.

Também é paranaense o desembargador do TRF4 João Pedro Gebran Neto e citado em diálogo mais recentes do material obtido pelo Intercept. Em conversas com outros procuradores, Dallagnol fala em ‘encontros fortuitos’ com Gebran Neto.

Se dependesse da votação no Paraná, a galeria dos presidentes jamais teria as fotos de JK, Lula ou Dilma. Em 2010 e 2014, o estado preferiu Serra e Aécio. Para Emerson Urizzi Cervi, professor do curso de pós-graduação em Ciência Política da UFPR, o Paraná pode ser dividido em três. Dois deles com perfil conservador que se manifesta historicamente votando à direita: o Paraná tradicional colonizado pelo estado e as regiões norte e oeste, nascidas da venda de propriedades rurais gigantes por empresas loteadoras. “Temos uma direita mais liberal. Ali o PSDB sempre foi muito bem votado.”

Há uma terceira região minoritária, a sudoeste, mais ligada ao trabalhismo e aos movimentos de luta pela terra. “É um progressismo rural”, resume.

O jornalista Nilson Lage, professor aposentado da UFSC, atribui essa vocação direitista à colonização europeia, em especial de alemães e italianos. “[Esses imigrantes] estabeleceram-se em terras doadas, com alguma assistência do governo e dos seus países de origem. Constituíram frequentemente comunidades isoladas e sua integração à cultura brasileira não é homogênea“, diz. Segundo ele, a mentalidade desses imigrantes refletia questões da Europa sob o domínio do império inglês no intervalo entre as grandes guerras mundiais e ao fim da Segunda Guerra.

No final dos anos 20, no caso da Itália, e nos anos 30, sob o domínio nazista na Alemanha, os governos Hitler e Mussolini desenvolveram intensa propaganda junto a comunidades instaladas no Brasil. Ao mesmo tempo, diz Lage, os grandes centros recebiam hordas de industriais, intelectuais e comerciantes europeus fugitivos perseguidos pela extrema-direita.

Como o Paraná nunca foi um estado industrializado, não houve ali a efervescência necessária ao surgimento de um urbano progressista como o que deu sustentação ao PT em São Paulo. E conforme o partido crescia, o conservadorismo se converteu em antipetismo. Fundador do partido no Paraná, o médico Dr. Rosinha lembra os maus bocados. “Em 89, eu pedia voto a gente que rejeitava o Lula porque ele iria tomar a segunda casa, mas que não tinha nenhuma casa para morar.”

Em trinta anos, o PT jamais elegeu um prefeito da capital ou um governador no Paraná. Nas eleições de 2016, o número de prefeituras no estado caiu de 43 para 10. Desde que a Lava Jato cresceu, porém, a rejeição ficou mais grave. Rosinha passou a ser hostilizado e xingado nas ruas. “As pessoas gritam ‘Bolsonaro’, como se aquilo fosse me assustar.”

Apesar das origens, a questão vai além dos princípios e valores. Para Cervi, o Estado brasileiro falhou em formar uma burocracia profissional. “Temos uma banda de procuradores, juízes e agentes públicos que se guiam pelos próprios princípios”, diz. Lage concorda e atribui o fenômeno a uma piora no ensino do Direito no Brasil. Segundo ele, as incorporações de professores ligados à carreira policial facilitou “a adesão irrefletida à insensatez jurídica da ‘luta contra o crime’ no estilo dos quadrinhos do Batman e Homem-Aranha”. Moro, vale lembrar, é fã declarado de ambos os personagens.

Conforme o que foi revelado até aqui pelo Intercept, foi só quando Moro aceitou ser ministro de Bolsonaro que os procuradores passaram a externar um desgosto antigo com o juiz e temer pela credibilidade da operação. Alguns diálogos no grupo do Telegram ‘Filhos do Januário 2’ indicam críticas das violações éticas. Num outro grupo, dois procuradores do Mato Grosso e do Espírito Santo ironizam a efusividade de Moro e da esposa após a vitória.

Janice Agostinho Barreto Ascari – Moro já cumprimentou o eleito. Como perde a chance de ficar de boa, pqp

Luiz Fernando Lessa – esse povo do interior

Luiz Fernando Lessa – é muito simplório

Mas era tarde demais. Agora, com os diálogos vazados, a imagem de Dallagnol dentro do MP fica manchada. E a operação pode ir por água abaixo.

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