Elogio da esperança. Artigo de Claudio Magris

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30 Junho 2019

O jornal Corriere della Sera, 27-06-2019, publicou um trecho da lectio magistralis que Claudio Magris, escritor italiano, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004, fez no dia 28 de junho em Milão, no Piccolo Teatro Studio Melato.

O evento faz parte da Milanesiana, evento que reúne literatura, cinema, música, arte, ciência e filosofia, idealizado e dirigido por Elisabetta Sgarbi, agendado até o dia 31 de julho e dedicado este ano ao tema da esperança.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A esperança – Elpìs – não goza de boa fama junto aos antigos gregos e, em geral, na cultura clássica. Ela permaneceu, segundo o mito, no fundo da caixa de Pandora, que a descobriu, permitindo assim que os males que ela continha se derramassem no mundo. Também nessa versão é uma mulher que introduz o mal; os antigos gregos não são menos misóginos do que os antigos judeus.

A esperança, Elpìs, permanece no fundo da caixa, modesta reserva em um cofre em caso de algum problema, mas inadequada para enfrentá-lo quando ele chega. Está lá no fundo, uma rã que talvez tenta saltar para fora em vão.

Como recorda Giuseppe Visonà em um excelente livro sobre a esperança nos gregos e nos Padres da Igreja, o homem, para os gregos, vive de acordo com a sua Moira, o seu destino e a sua medida já marcados; está submetido a Týche, o Destino; a Anánke, a Necessidade; e, se tenta se rebelar, comete aquilo que para os gregos é o pecado mais grave, a Hýbris, a Desmedida.

A culpa de Prometeu, para Ésquilo, é o fato de ter posto no coração dos homens “as esperanças cegas”; a menos enganos, ilusões, diria Leopardi muitos séculos depois, que, aliás, também disse: “Vivo, portanto espero”. Acariciáveis sonhos, escreve Sófocles; vãs ilusões, para Píndaro; “fátuas” esperanças para Sólon.

Esse pessimismo não é apenas grego, mas também caracteriza a cultura clássica em geral e o seu ideal de firmeza e sabedoria: “Viver sem esperança e sem medo”, diz Sêneca; “desiste das esperanças vazias e cuida de ti mesmo”, reforça Marco Aurélio. A única acepção relativamente positiva da esperança é, como para Tucídides, a da “previsão racionalmente fundada”.

É Eurípides, o mais iluminista dos grandes trágicos, quem exorta em um fragmento a viver e a se alimentar de esperança. Seria o cristianismo, observa Giuseppe Visonà, que “tiraria totalmente da Elpìs as características de ambivalência e incerteza”. A Elpìs dos cristãos é sempre positiva e certa. Mais tarde, foi uma nova cultura greco-judaico-cristã – de Filão de Alexandria aos Padres da Igreja – que formulou um significado diferente da esperança, qawah, diz o termo hebraico.

Mas o irremediável pessimismo grego relativo à esperança está presente ao longo dos séculos, até um dos maiores poetas-filósofos contemporâneos alimentados pelo pensamento grego, Carlo Michelstaedter.

Michelstaedter celebrou a persuasão, ou seja, a possessão presente da própria vida que, ao contrário, muitas vezes, os homens, incitados pela retórica, sacrificam e queimam à espera de algo que sempre deve vir e que nunca está. Espera-se que a próxima semana chegue o mais rápido possível, porque conheceremos o resultado das análises clínicas ou das eleições políticas ou de qualquer outra coisa que esperamos com ansiedade, e, assim, não se vive para viver, mas para já ter vivido, ou seja, para estarmos um pouco mais perto da morte.

Persuadidas, capazes de viver o presente, são as crianças; quando correm, não correm para alcançar alguma meta, ou seja, para já tê-la alcançado, para já terem chegado, para terem parado de correr, mas simplesmente e apenas porque gostam de correr.

Em sua obra-prima Michelstaedter, cita uma canção popular vêneta contra a esperança: “Se spera che i sassi / deventa paneti, / perché i povareti / li possa magnar. / Se spera che l’acqua / diventi sciampagna, / perché no i se lagna / de sto giubilar. / Se spera sperando / che vegnerà l’ora / de andar in malora / per più no sperar” [Espera-se que as pedras / se tornem pãezinhos, / para que os pobrezinhos / possam comê-los. / Espera-se que a água / se torne champanhe, / para que não reclamemos / desse festejar. / Espera-se esperando / que venha a hora / de que tudo vá para o inferno / para não mais esperar].

A Esperança não tem nada a ver com este pequeno futuro que nem sequer existe, porque se queima continuamente e certamente não é o futuro permeado pela Esperança, mas sim o futuro desgastado pela pressa e pela ansiedade.

É com o judaísmo que a Esperança assume um valor central. Abraão é pai da fé, e dele São Paulo diria: “Teve fé esperando contra toda a esperança”. A Esperança não é uma serva, importante, mas sempre menor do que a fé; é de igual destaque e, mais tarde, se tornaria, com Péguy, a mais importante das três virtudes teologais. E nesse momento nasce a dramaticidade, também a tragicidade implícita na Esperança, nas suas inevitáveis, mas, precisamente por isso, ainda mais sagradas, embora dolorosas, contradições. A Esperança é uma grande protagonista dos salmos, em que ela se repete continuamente, a Esperança é história da salvação.

O vocabulário da Esperança no Antigo Testamento inclui uma vasta gama de raízes verbais que dizem respeito a vários âmbitos da Esperança; acima de tudo a espera nas suas várias nuances; a tensão em direção a algo; e a confiança. A Esperança, para o homem bíblico, não se dirige a algo incerto, mas sim a algo que simplesmente ainda não está aqui; não é uma mera hipótese, uma possibilidade que também nunca poderia se realizar, mas sim uma realidade que ainda não está em ato, mas está a caminho.

Moisés conduz o seu povo rumo à Terra Prometida, esperando fortemente nela, mesmo sabendo que ele nunca porá o pé nela; uma esperança que é uma certeza, mas não no sentido em que esse termo é usado em uma linguagem meramente factual.

A Esperança, assim, torna-se uma característica, quase uma definição, do humano: “O homem por excelência é aquele que espera”, escreve Filão de Alexandria. A Esperança consiste na convicção de que o “ainda não” é também o “já”, porque essa plenitude para a qual se dirige já está presente no ato de se dirigir em direção a ela.

Séculos depois, em um dos maiores romances da literatura universal, “A morte de Virgílio”, de Hermann Broch, esse “noch nicht und doch schon”, ainda não mas já, torna-se a essência, a estrutura, a tonalidade de todo o grande romance de salvação e redenção, o leitmotiv da sua estrutura, do seu significado e da sua poesia. Não por acaso, já para os primeiros Padres da Igreja, por exemplo João Crisóstomo e Agostinho, o que faz o homem se perder não é pecado, mas sim o desespero do perdão, assim o Catecismo repete ainda hoje. A falta de Esperança tem um significado apocalíptico mais terrível do que a falta de fé.

A Esperança é espera, espera daquilo que ainda não se vê e que alivia a alma precisamente enquanto se espera algo que virá. A Esperança tem um poder salvífico determinante não só na meta que ela propõe, mas sobretudo no caminho para alcançá-la. A Esperança é um caminho que dá sede, muita sede, mas é justamente essa sede que dá força para continuar o caminho. E o salmo que fala dessa sede da alma (Salmo 63 e 62) diz: “Até a minha carne estava sedenta de ti (isto é, de Deus)”. A Esperança acaba permeando toda a pessoa, não só as suas ideias ou os seus valores morais, mas também toda a sua complexidade de desejos, nostalgias, medos, fraquezas e, acima de tudo, afetos e amores.

E precisamente isso ajuda a Esperança a progredir no seu caminho. Na Esperança, o homem se transforma profundamente, mesmo permanecendo fiel a si mesmo, assim como havia se transformado permanecendo fiel a si mesmo, tornando-se, de criança, um jovem ou, de jovem, um velho. Essas contínuas mortes do seu velho eu dão força, frescor e juventude ao seu próprio eu. A Esperança é a vida. Agostinho tem uma frase formidável, que também seria retomada na laicização histórica e revolucionária da própria Esperança: “Não somos cristãos senão para o século vindouro”.

Esse poderoso fermento religioso confluiria, séculos e séculos depois, no pensamento revolucionário dos séculos XIX e XX, quando a Esperança bíblica, o tenaz caminho rumo à Terra Prometida assumirá um profundo valor de renovação política, mudança da estrutura do mundo e do homem na sua relação com ele. Como Santo Agostinho diz mais uma vez, trata-se de se sentir exilado na pátria – todo revolucionário é um exilado em uma pátria que ama, mas na qual não pode se reconhecer e que, portanto, não é a dele –, “quem é exilado, diz Santo Agostinho, e caminha na fé, ainda não está na sua pátria, mas já está a caminho para ela; quem, ao contrário, não crê não está nem na pátria nem a caminho para ela”.

A passagem dos Padres da Igreja ao Princípio Esperança de Bloch é quase contínua. Continuar esperando até a noite, prossegue Santo Agostinho, “isto é, até que a tua vida termine, até que chegue a noite de todo o gênero humano...”. A Esperança que leva a continuar o caminho leva à plena descoberta do mundo e àquele estupor – diante do céu, da imensidão dos oceanos, do número das estrelas, das várias espécies de animais – que é o estupor da Poesia e da Esperança, sendo libertação, é também Poesia. Certamente, a terra ao longo da qual a Esperança avança é uma terra de moribundos, mas esse caminho também dá sentido à morte.

O século XX foi o século da Esperança com maiúsculo. A Esperança, virtude teológica dominante no século XX que conheceu muito pouco a Caridade, tem um fôlego e um porte universal, diz respeito ao destino do homem, de todos os homens, ao sentido e ao horizonte da História. Was kann ich hoffen? O que posso esperar, Kant já se perguntava na “Crítica da razão pura”. A Esperança não nasce de desejos pessoais, muito menos de uma visão de mundo reconfortante e otimista, mas sim da laceração da existência humana, que cria uma irreprimível necessidade de resgate, uma “fome” – escreve Ernst Bloch no seu livro “O Princípio Esperança” - de justiça, de liberdade, de dignidade, também de felicidade.

Essa Esperança – em nome da qual tantos homens morrerão e tantos homens matarão – é o espírito messiânico dos profetas, a espera e a preparação do advento do Messias, aquela Terra Prometida para a qual Moisés não se cansou de guiar o seu povo, mesmo sabendo que ele mesmo nunca poria o pé lá nela. Esse espírito religioso judaico, esse olhar para o futuro – que de algum modo já está em ato na travessia do deserto para alcançá-lo – assume uma forma universalmente política – permeada de messianismo – no “sonho de uma coisa” da qual falava Marx, o sonho da humanidade que reivindica a plenitude, a liberdade, a vida verdadeira ou simplesmente a vida tout court, porque a dos escravos, dos oprimidos, dos miseráveis não é vida.

Essa coisa sonhada não se encontra no passado, em um Éden original do qual a humanidade foi expulsa, mas sim no futuro, no “ainda não”. Como nos ensinaram na escola, esperar, por definição, é um verbo que quer o futuro. E esse “ainda não”, diz Virgílio moribundo no grande romance de Broch, contém o “mas já”, porque o caminho para a Terra Prometida já é Terra Prometida.

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