João XXIII e a Paz na Terra, Artigo de Wellington Teodoro da Silva

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24 Abril 2019

"A história apresenta continuidades. O diálogo para a paz na terra segue sendo tarefa para se cumprir. O pânico mesquinho permanece entre os reacionários do tempo presente. João XXIII e Carlos Josaphat seguem sendo necessários hoje", escreve Wellington Teodoro da Silva, professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas e autor do livro Religião, Tradição e revolução - o catolicismo nas veredas da política: o jornal Brasil, Urgente- 1963 – 1964 (Curitiba: CRV, 2011).

Eis o artigo.

Após ler a entrevista de Frei Carlos Josaphat no portal do IHU, por ocasião dos 56 anos encíclica Pacem in Terris do papa João XXIII, voltei às questões que me acompanharam em minha pesquisa de doutorado. Pesquisei o jornal semanal Brasil, Urgente, fundado por frei Josaphat junto com um grupo de militantes do setor do catolicismo que veio a ser conhecido como esquerda católica. Ele teve 55 números e foi fechado pelo golpe de Estado civil-militar de 1964.

Escrevo esse texto porque compreendo que os modos como as questões daquele momento foram tratadas pela encíclica permanecem relevantes no momento presente. A encíclica foi publicada meses após a crise dos mísseis em Cuba quando a humanidade passou pelo risco real da guerra nuclear. Ele foi saudado positivamente pelos diversos governos, incluindo do bloco socialista e pela sociedade civil brasileira. No entanto, setores “reacionários”, incluindo católicos, do lado ocidental reprovaram-no com afirmações absurdas – bem ao figurino “reacionário” – como dizer que o documento fora escrito sob a influência de Moscou.

Ele supera a postura da condenação e do anátema e apresenta o diálogo como caminho a seguir. Recusa as visões essencialistas, redutoras, higienizantes e demonizadoras da política. Os “reacionários” pensavam que o comunista deveria ser combatido como essencialmente mal, como uma doença. Comparavam esse combate como uma questão de saúde pública.

O comunista não era compreendido como militante disciplinado do partido comunista, marxista, leninista, trotskista e que tais. O comunismo era visto, por exemplo, na defesa do voto do analfabeto.

Acontece alguma coisa parecida no momento presente. Seguem tratando como comunismo movimentos surgidos no ambiente liberal, tais como feminismo, negritude e causas LGBT, por exemplo. Vale ressaltar que hoje o despropósito é maior. Consideram que George Soros, Barack Obama, Lula e Dilma Roussef são comunistas. Também fazem uma engenharia do absurdo e formularam o despropósito chamado marxismo cultural.

Tanto nos anos 1960 quanto hoje, a palavra comunismo perde seu conteúdo próprio, conceitual. Usam-na dentro de uma arquitetura de preconceitos que mata a ideia. É um símbolo que permite que eles despejem seus preconceitos e dejetos psicológicos contra os pobres, negros, mulheres, gays e tantos outros subalternos históricos. Recusam a liberdade e a igualdade, princípios modernizantes, que golpeariam de morte a organização cultural e social brasileira assentada em estamentos e privilégios.

João XXIII propôs e iniciou o diálogo.

Frei Carlos Josaphat publicou a matéria “Diálogo por cima dos muros”, no primeiro número do jornal Brasil, Urgente. Tratou do encontro de 18 minutos que o genro e a filha de Kruchev tiveram com o Papa João XXIII. Esse encontro aconteceu após um longo e discreto entendimento entre a diplomacia vaticana e o Secretariado para a União dos Cristãos com representantes do Kremlin. Esse diálogo resultou na libertação do arcebispo ucraniano, Dom Josef Slipyj, que estava preso havia 18 anos.

A matéria afirma que esses eventos faziam a opinião pública internacional ter maiores esperanças nas possibilidades das conversações pela paz e de que a humanidade poderia estar entrando numa era de mútuas compreensões. Esperava-se, ainda, um encontro entre o papa e o líder soviético. Naquele momento em que acontecia o Concílio Vaticano II, o papado era um lugar privilegiado para criar situações de diálogo no mundo recém-saído de uma quase guerra nuclear, segundo Josaphat. Sem romper com a tradição, a Igreja Católica buscava o diálogo com o mundo moderno. A primeira proclamação conciliar não foi contra nenhum adversário – comunistas ou protestantes, por exemplo. Foi um apelo à paz entre todos os homens. Foi uma denúncia das misérias e injustiças sociais.

O jornal traz, num número seguinte, uma charge na qual João XXIII aparece puxando as orelhas do presidente norte-americano Kennedy e do primeiro ministro soviético. Os dois líderes políticos estavam montados em mísseis.

Frei Josaphat avaliou que a Igreja Católica se apresentava como portadora do convite ao diálogo em um mundo que ansiava por transformações pela fraternidade, na justiça e na compreensão. Esse convite surgiu num momento de relações mundiais tensas. As violências armadas entre Estados e entre eles e as suas sociedades civis eram situações cotidianas.

Em seguida, alerta para que o otimismo não fosse exagerado. Esse diálogo não era o ponto de chegada. Constituía-se no bom e necessário ponto de partida para a construção da civilização solidária a que todos os homens aspiravam e que certamente decorria das exigências do Evangelho.

O texto analisa as relações políticas e econômicas. Compreende que a democracia dos grupos que viriam a patrocinar o golpe de Estado era tímida e insegura. Não era um bom instrumento para a promoção das massas trabalhadoras. Servia, de maneira efetiva, para a manutenção dos sistemas que garantem os privilégios de “barões ou tubarões”. Ainda antes do golpe que suprimiu da democracia, afirma que aqueles amedrontados “democratas” poderiam se curar do “pânico mesquinho, lucidamente denunciado por Emmanel Mounier”.

A história apresenta continuidades. O diálogo para a paz na terra segue sendo tarefa para se cumprir. O pânico mesquinho permanece entre os reacionários do tempo presente. João XXIII e Carlos Josaphat seguem sendo necessários hoje.

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