A responsabilidade segundo Zaqueu. Artigo de Stefano Zamagni

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08 Abril 2019

“Qual é a mensagem para hoje que nos vem da história humana de Zaqueu? No termo responsabilidade é possível encontrar uma resposta aferente. Responsabilidade significa literalmente capacidade de resposta, e isso nos indica que estamos diante de uma noção intrinsecamente relacional.”

A opinião é do economista italiano Stefano Zamagni, presidente da Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano e professor da Universidade de Bolonha, na Itália. Autor de inúmeros livros, publicou em português “Economia civil: eficiência, equidade e felicidade” (Ed. Cidade Nova, 2010), em coautoria com Luigino Bruni.

O artigo foi publicado em L’Osservatore Romano, 07-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muito oportunamente, o movimento Renovação no Espírito quis colocar no centro da sua 42ª Convocação Nacional, na Itália, a história, extraordinária, para dizer o mínimo, do encontro de Jesus com Zaqueu.

Publicano de Jericó, Zaqueu encontra o caminho da salvação no momento em que decidiu não se preocupar com as ironias das pessoas, ao subir em uma árvore como um menino de rua, a fim de conseguir ver Jesus. E, enquanto acredita que está escondido entre as folhas, é surpreendido e conquistado pelo olhar penetrante e afetuoso de Jesus: “Hoje devo ficar em tua casa” (Lucas 19, 5).

Esse “devo” nos comove: tomar o caminho certo é quase uma exigência de Deus. O que falta que Zaqueu faça? Simplesmente, descer às pressas da árvore, distanciar-se da rotina, dar a metade do que possui aos pobres e, “se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (Lucas 19, 8).

Qual é a mensagem para hoje que nos vem da história humana de Zaqueu? No termo responsabilidade é possível encontrar uma resposta aferente. Responsabilidade significa literalmente capacidade de resposta, e isso nos indica que estamos diante de uma noção intrinsecamente relacional. O ato de responder, de fato, remete necessariamente à dualidade entre quem dá e quem recebe resposta, e à sua relação. Mas responsabilidade, do latim res-pondus, também significa carregar o peso das coisas, das escolhas feitas. Não só se responde “a”, mas também “por”. Se “responder a” significa reconhecer o vínculo que os outros constituem conosco e nos existir pelo menos tanto quanto a nossa individualidade, “responder por” significa, em vez disso, trazer para a relação aquela unicidade e diferença que nos faz diferentes dos outros.

A interpretação tradicional da responsabilidade a identifica com a prestação de contas, dar razão (accountability) daquilo que um sujeito, autônomo e livre, produz ou traz à existência. Tal noção de responsabilidade, portanto, postula a capacidade de um agente de ser a causa dos seus atos e, como tal, de ter que “pagar” pelas consequências negativas que daí decorrem. Na concepção tradicional, portanto, a responsabilidade repousa totalmente sobre o vínculo entre um sujeito e a sua ação. O importante é estabelecer quais ações me pertencem e, por isso, por quais ações devo responder.

Essa concepção, ainda predominante, porém, deixa na sombra o significado de ser responsável. Responder, como muitas vezes se ouve dizer, que significa prestar contas do próprio agir seria mera tautologia. Essa é uma situação, para dizer o mínimo, paradoxal: apelamo-nos cada vez mais à responsabilidade sem saber qual é o seu conteúdo, a sua razão de ser.

Há algum tempo já, porém, começou a ganhar forma uma acepção de responsabilidade que a coloca além do princípio do livre-arbítrio e meramente da esfera da subjetividade, para colocá-la em função da vida, para fundamentar um compromisso que vincule no mundo. Isso está ocorrendo na esteira do reconhecimento de que a responsabilidade tem cada vez mais a ver com o tempo – como o Papa Francisco sempre recorda. A rapidez da mudança obriga a que tomemos decisões das quais nunca somos capazes de calcular todas as consequências, em tempo real.

Por um lado, a responsabilidade requer hoje que se levante o problema dos vínculos aos quais as decisões que tomamos serão expostas ao longo do tempo para continuar sendo eficazes. Por outro lado, é preciso desenvolver capacidades que facilitem o uso dos recursos disponíveis. A capacidade de resposta, por isso, não pode se referir apenas à imediaticidade das circunstâncias presentes, mas deve incluir aquelas dimensões temporais que asseguram alguma continuidade da própria resposta.

É por isso que a experiência da responsabilidade não pode se esgotar na simples accountability. Tornou-se célebre, com razão, a afirmação de M. L. King segundo a qual “pode ser que vocês não sejam responsáveis pela situação em que se encontram, mas serão responsáveis se não fizerem nada para mudá-la”.

Um aspecto inquietante – mas não único – da globalização e das tecnologias digitais é o anonimato dos seus protagonistas e os efeitos de longo prazo das suas operações. A decisão tomada em um determinado lugar ou em um determinado centro de negócios tende a ter repercussões muito distantes. As causas estão muito distantes dos seus efeitos. Não só, mas, muito frequentemente, esses efeitos são gerados por uma pluralidade de microações que se somam de tal modo que não é possível imputar ao participante individual da ação comum a totalidade dos efeitos produzidos.

É o que ocorre nos casos de “tirania das pequenas decisões”. A tirania ocorre todas as vezes em que um certo número de decisões, singularmente racionais e juridicamente lícitas, de dimensão modesta e de fôlego curto, cumulativamente tomadas, decorrem em um resultado sub-ótimo e moralmente inaceitável, porque traz más consequências para “inocentes”.

É desnecessário será dizer que, em tais casos, a mão invisível do mercado acaba funcionando de modo perverso, porque a série de decisões individualmente racionais muda negativamente o contexto em que as escolhas sucessivas serão tomadas, até o ponto em que as alternativas que se desejariam tornam-se irreversivelmente destruídas (sobre esse ponto, a Evangelii gaudium contém páginas de uma clareza exemplar).

Nessas condições, o modelo tradicional individualista da responsabilidade, fundado sobre a culpa, não é mais aplicável, tanto que há quem gostaria de abrir mão dele totalmente. Mas esse seria um poderoso non sequitur lógico, pela simples razão de que, mesmo que os atores reais dos macroprocessos sejam frequentemente desconhecidos ou invisíveis, isso não significa que eles não existam. Precisamente porque nos tornou mais interdependentes, mais bem informados, mais capazes de realizar formas de ajuda mútua, a globalização exige formas novas e mais robustas de responsabilidade por parte dos atores. A responsabilidade tende a se transformar em corresponsabilidade, que não deve ser entendida como o somatório das responsabilidades individuais, mas requer que os agentes econômicos sejam considerados como membros de uma comunidade de cooperação de extensão planetária.

Hoje estamos diante de um dos muitos paradoxos da globalização, que, enquanto expande a área da responsabilidade pessoal, ao mesmo tempo facilita a mútua desresponsabilização. Isso ocorre porque a globalização tornou as cadeias causais muito mais longas do que antes, e, assim, os participantes do mercado global se recusam a assumir uma responsabilidade pessoal pelos resultados coletivos, optando por se esconderem atrás do anonimato do grupo. Certamente, é o fenômeno da quarta revolução industrial que constitui, neste nosso tempo, uma das mais urgentes oportunidades para se repensar e pôr em prática a versão forte do princípio de responsabilidade.

Sabe-se que a rápida difusão das chamadas tecnologias convergentes – aquelas resultantes da combinação sinérgica das Nanotecnologias, Biotecnologias, Information Technologies, Cognitive sciences (na sigla Nbic) – está modificando radicalmente não apenas o modo de produção herdado da sociedade industrial, mas também as relações sociais e a própria matriz cultural da sociedade. Ainda não sabemos como as novas tecnologias digitais e a cultura que as governa modificarão a essência do capitalismo do futuro próximo.

Mas sabemos que está em curso uma segunda “grande transformação” de tipo polanyiano com consequências de grande porte sobre o próprio sentido do trabalho humano, além da destruição e criação de postos de trabalho; sobre a separação do mercado e a democracia, do modo como foi se consumando ao longo dos últimos 30 anos, na onda da exaltação da ideia de que era possível expandir a área do mercado independentemente do simultâneo fortalecimento do princípio democrático; sobre o impacto da inteligência artificial (IA) para os fins do sucesso do projeto transumanista – termo cunhado há algumas décadas por Julien Huxley.

A promessa de uma potencialização, tanto do ser humano quanto da sociedade, advinda das tecnologias convergentes do grupo Nbic, dá conta da extraordinária atenção que a tecnociência vai recebendo em uma pluralidade de campos, do ético ao científico, do econômico ao político. O que está em jogo não é apenas a potencialização das habilidades cognitivas do ser humano ou a melhoria dos modos de controle das informações e do seu uso para fins produtivos, mas também a artificialização do ser humano e, ao mesmo tempo, a antropomorfização da máquina. Assim, pode-se compreender por que, diante de cenários desse tipo, a noção de responsabilidade como imputabilidade não é suficiente para guiar a ação dos tomadores de decisão públicos e privados. Em vez disso, a exemplo de Zaqueu, é preciso aplicar-se para traduzir na prática a noção de responsabilidade como cuidar: acima de tudo, somos responsáveis pelo bem que não fazemos, mesmo sendo capazes de fazê-lo.

A mensagem de esperança que emana da Laudato si’ é que as certezas oferecidas pelo progresso tecnocientífico não são suficientes para nós. Este, de fato, aumentou e continuará aumentando a nossa capacidade de encontrar os meios aptos para alcançar metas de todos os tipos. Mas, se o problema dos meios se apresenta hoje bem mais favoravelmente do que antigamente, não é certo que o mesmo ocorra também para o problema dos fins. Um problema que pode ser formulado assim: “O que é bom que eu queira?”, e não mais: “O que devo fazer para obter o que eu quero?”.

O ser humano de hoje é afligido pela necessidade de escolher os seus fins e não apenas os meios. Daí a exigência de uma nova esperança: diante da potencialização da cadeia dos meios, o ser humano contemporâneo não parece encontrar outro caminho senão se deixar escravizar ou se rebelar. Não era assim quando a cadeia dos meios era menos poderosa. É compreensível que a esperança de quem não tem esteja volta para o ter: essa é a velha esperança. Continuar acreditando nisso hoje seria um erro. Se é verdade que abrir mão da busca dos meios seria tolo, é ainda mais verdadeiro saber que a nova esperança deve ser dirigida para os fins. Ter esperança hoje significa precisamente isto: não se considerar nem como o mero resultado de processos que estão fora do nosso controle, nem como uma realidade autossuficiente sem necessidade de relações com o outro.

Por isso, é preciso agradecer aos muitos amigos da Renovação no Espírito por terem desejado chamar a nossa atenção, com essa 42ª Convocação Nacional, para o sentido profundo da conversão de Zaqueu e para o testemunho de vida que eles oferecem cotidianamente.

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