Giorgio La Pira e Mario Luzi no centro dos Exercícios Espirituais da Cúria Romana

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12 Março 2019

É o programa político de Giorgio La Pira, várias vezes prefeito de Florença e pai constituinte italiano, que serve de traço dos Exercícios Espirituais que o Papa Francisco está compartilhando com a Cúria Romana. E é como se o poder evocativo da poesia de outro grande florentino, Mario Luzi, tivesse transformado espiritualmente a capela da Casa Divin Maestro, em Ariccia, na Basílica de San Miniato al Monte, de onde se contempla Florença e, através da sua “beleza teologal”, todas as cidades do mundo. Eis a proposta apaixonada e concreta que, com as suas meditações, está sendo sugerida pelo abade Bernardo Francesco Maria Gianni, monge beneditino olivetano justamente na Abadia de San Miniato. “A cidade dos desejos ardentes. Por olhares e gestos pascais na vida do mundo” é o tema que ele escolheu para as suas meditações.

A reportagem publicada por L’Osservatore Romano, 12-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa chegou à Casa Divin Maestro – onde, também neste ano, estão sendo realizados os Exercícios que terminarão na manhã de sexta-feira, 15 – às 16h45 no domingo, 10 de março, em um dos dois ônibus que partiram do Vaticano com os participantes do retiro. Quem os acolheu, junto com o pregador, entre outros, foram o arcebispo Edgar Peña Parra, substituto da Secretaria de Estado, e o Pe. Valdir José de Castro, superior geral da Sociedade de São Paulo.

Papa Francisco cumprimenta o abade Bernardo Francesco Maria Gianni (Foto: L’Osservatore Romano)

Para compreender o “sonho de La Pira”, afirmou o Pe. Gianni logo na primeira meditação realizada na manhã dessa segunda-feira, 11 de março, é preciso retomar as páginas de Isaías e Jeremias e contemplar “o sonho de uma cidade com uma vocação de acolhida e fraternidade universal que restitui, assim como foi para Jerusalém, a cada cidade do mundo, a sua verdadeira vocação: ser experiência misteriosa e autenticamente de graça de um grande amor que torna a cidadania coesa, finalmente animada por desejos ardentes e por grandes esperanças”.

Lembrando que o Papa Francisco, na recente mensagem à Pontifícia Academia para a Vida, definiu a comunidade humana como “o sonho de Deus”, o pregador indicou em La Pira o prefeito que, para o seu povo, “sonhou o sonho de Deus”.

E, “nesse seu sonho, nessa sua paixão muitas vezes incompreendida também por homens da Igreja do seu tempo, assim como por amplos setores de Florença – acrescentou o Pe. Gianni –, havia uma altíssima percepção do mistério que habita cada cidade, assim como o mistério que habita o coração de cada pessoa”.

Com a sua poesia, Mario Luzi repropôs “o sonho de La Pira”, sugerindo que “Florença e, através dela, todas as cidades do mundo possam se redescobrir como aquela ‘cidade posta sobre a montanha’ para ser de novo, com a sua luz, fogo de caridade, atração para a humanidade inteira, espaço de reconciliação, de paz, de encontro repleto de estupor e de contemplação, com aquele mistério – afirmou o pregador – que agora parece escondido sob aquelas cinzas que, como Igreja apaixonada por Cristo, queremos dispersar para que se reacenda a chama pascal que anuncia vida e esperança a um mundo que se condena muitas vezes a uma resignação desesperada às trevas que já se creem invencíveis”.

Significativamente, explicou o abade, fortalecido pela sua experiência monástica, La Pira compartilha, como prefeito, o seu sonho pela cidade acima de tudo com as freiras de clausura: “Mulheres que aparentemente parecem inúteis e improdutivas, mas que, nessa sua visão orgânica da cidade, têm um papel fundamental, porque são um coração oculto, mas palpitante, para manter desperto o fluxo indecifrável da graça de Deus”.

Trata-se, afirma La Pira, de fazer precisamente de Florença “a nova Jerusalém, isto é, o centro de atração de todos os povos”. Eis o seu programa como prefeito: presunção? “Não, ato de fé”, respondia La Pira. Mais: “Simples aplicação histórica a uma cidade que Deus colocou no pico mais alto da civilização cristã para difundir sobre a terra a graça, a beleza, a luz com a qual Deus a enriqueceu”. E “esses são fatos”, insistia La Pira.

Nessa visão, afirmou ainda o Pe. Gianni, faz sentido falar de “ministerialidade universal de uma cidade objetivamente especial como Florença”. Da parte do prefeito, portanto, não há uma “perspectiva estreita, municipal ou, pior ainda, bairrista”. Em vez disso, há a missão de “compartilhar aquela beleza teologal de Florença e de cada cidade, fazer com que ela se torne verdadeiramente uma mensagem universal e, assim, ser reflexo na terra da Jerusalém celeste”. Na consciência de que “a história tem um horizonte e uma meta que não é ‘o fim’ mas ‘um fim’”.

Com a palavra “sonho”, como, aliás, pode-se tocar com a não nas Escrituras, em La Pira não há nenhuma divagação ou abstração. Muito pelo contrário: o prefeito fala de técnica, economia, política. “O seu sonho nunca é surreal, que leva para longe da concretude da vida e da história”, especificou o Pe. Gianni, salientando: “O fundamento desse sonho é o permanente desígnio que o Espírito Santo busca implementar, nas gerações e nos séculos, na história dos homens. Deus tenta implementar esse sonho, apesar de todas as resistências, também nossas”. Mas, “como Igreja, devemos fazer com que essa ‘tentativa de Deus’ seja implementada sem reservas”.

Em essência, concluiu o abade, trata-se de “fazer dissolver, com o nosso testemunho, as cinzas que cobrem as cidades e fazer arder novamente o fogo que anima cada pessoa”. Nessa missão, pode servir de ajuda a poesia de Mario Luzi, com o seu “porte caritativo” e a sua carga de esperança.

Cada cidade, dizia La Pira, tem o seu anjo da guarda; então, é preciso pôr-se ao trabalho “para que não haja mais destruições ou guerras, mas apenas oração, progresso, beleza, trabalho e paz”, convencidos de que os tempos de crise na história são “laboratório de esperança” para “a beleza que virá”.

E precisamente aos versos de LuziEstamos aqui para isso” é que o pregador havia recorrido na introdução das meditações, na tarde do domingo, 10. “Tomei a liberdade – começou – de convidar todos vocês para a colina a leste de Florença, consagrada por séculos e séculos à veneração do protomártir armênio Miniato; porque lá de cima é possível um olhar verdadeiramente de graça, de gratidão, de mistério sobre a cidade”: olhar que inspirou o poeta Luzi, a quem João Paulo II pediu em 1999 para escrever as meditações para a Via Sacra no Coliseu.

Nos anos em que teve La Pira como prefeito, Florença se caracterizou por ser “aberta, acolhedora, fraterna”, assimilável “nada menos do que com a Jerusalém amada e predileta do Senhor, a Jerusalém amada pelos profetas, a Jerusalém celeste esperada, desejada e contemplada pelo visionário do Apocalipse”. Uma cidade que, desejou o Pe. Gianni, “com o amor da Igreja – como todas as cidades deste mundo – e com a santidade da Igreja pode voltar, deve voltar a se acender com o fogo do amor” para ser “um jardim de beleza, de paz, de justiça, de medida, de harmonia”.

A esse respeito, o abade de San Miniato citou São Bernardo e o místico da Idade Média Ricardo de São Vítor, mas também o magistério do Papa Francisco e do então cardeal Bergoglio quando era arcebispo de Buenos Aires. Ele disse que é preciso reconhecer “os traços e os indícios que o Senhor não se cansa de deixar na sua passagem por esta nossa história, por esta nossa vida”. E é no seu amor que devem ser lidos os olhares de La Pira sobre Florença, de Jesus sobre Jerusalém e sobre todos aqueles que encontrava, na consciência de que “o momento histórico é grave”, porque “o fôlego universal da fraternidade parece muito enfraquecido”. Além disso, “a força da fraternidade é a nova fronteira do cristianismo”.

Depois, enfatizando que o humanismo só o é a partir de Cristo, o Pe. Gianni convidou a contemplar “o rosto de Jesus morto e ressuscitado, que recompõe a nossa humanidade, também aquela humanidade fragmentada pelas fadigas da vida ou marcada pelo pecado”. Daí a exortação de se deixar olhar por Jesus.

Ele, esclareceu o pregador, “é o nosso humanismo: deixemo-nos sempre inquietar pela sua pergunta: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’. Deixemo-nos olhar por Ele para aprender a olhar como Ele olhava”.

Além disso, “o jovem rico, tendo-o fixado, amou-o”, continuou o abade de San Miniato, relembrando também o encontro com Zaqueu que subiu em uma árvore a fim de olhar para aquele Senhor Jesus que levanta o olhar para ir ao seu encontro.

Em particular, o monge beneditino concluiu a sua introdução com uma referência à missão dos consagrados, que são chamadas a uma vida “simples e profética na sua simplicidade, em que se tem o Senhor diante dos olhos e entre as mãos, e nada mais é necessário”. Porque, concluiu, “a vida é Ele, a esperança é Ele, o futuro é Ele”.

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