AMLO abre a caixa de Pandora: desclassificou arquivos de 90 anos da espionagem no México

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12 Março 2019

A história de tantos mexicanos que ficará exposta pela desclassificação de expedientes de inteligência que López Obrador assinou é a de um país que, segundo o Registro Nacional de Dados de Pessoas Extraviadas ou Desaparecidas (Rnped), tinha 37.453 cidadãos nessa condição em abril de 2018. O aparato repressivo do Estado, segundo a intelectual Pilar Calveiro, exilada no México durante a última ditadura argentina, expressa “uma espécie de sinal de alarme sobre novas formas de desaparecimento forçado, como o tráfico de seres humanos”.

A reportagem é de Gustavo Veiga, publicada por Página/12, 11-03-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O que têm em comum personagens tão distintos como Che Guevara, a Rainha Isabel II da Inglaterra, Gabriel García Márquez e María Félix? Os quatros foram espionados em diferentes épocas pela Inteligência Mexicana. Um decreto recente assinado pelo presidente Andrés Manuel López Obrador abriu uma caixa de Pandora que abarca quase 90 anos de história. É o que permite desclassificar documentos sobre a espionagem aos que foram submetidos políticos, artistas, escritores, jornalistas, personalidades estrangeiras e todo tipo de opositores.


Andrés Manuel López Obrador, AMLO. Foto: https://lopezobrador.org.mx/

O mesmo mandatário está incluído nesses registros que se encontram no Palácio de Lecumberri, da Cidade do México DF. Um antigo presídio que funcionou entre 1900 e 1976, por onde passaram desde Pancho Villa ao assassino de León Trotsky, Ramón Mercader. Nesse local se localiza hoje o Arquivo Geral da Nação, depósito dos expedientes que acumulava o Centro de Investigación y Seguridad Nacional (Cisen), um organismo que operava em um tempo junto a outros como o temido Dirección Federal de Seguridad (DFS), que cometeu múltiplas violações aos direitos humanos entre 1947 e 1985. “Não vai ficar nenhum arquivo secreto, é a decisão”, disse López Obrador quando anunciou a divulgação dos papéis de inteligência. Como AMLO, figuram nos registros vários ex-presidentes mexicanos: Lázaro Cárdenas, Miguel Alemán Valdés, Gustavo Díaz Ordaz, Luis Echeverría, José López Portillo, Miguel de la Madrid, Carlos Salinas de Gortari e Vicente Fox. O dossiê sobre o atual mandatário é um dos mais abundantes. Começa com um comentário sobre suas antigas simpatias políticas, as quais ele já refutou. O descreve como “simpatizante do PSUM-PCM (Partido Socialista Unificado de México – Partido Comunista de México) e em 1976 entrou no PRI (Partido Revolucionário Institucional) ”. López Obrador declarou: “Não fui militante do partido comunista PSUM-PCM, mas sim apoiador dos lutadores sociais”.

Em um dos tantos informes de inteligência dedicado ao presidente – umas quinze folhas -, se mencionava o 25 de julho de 1983: “Dizem que que se trata de fazer o PRI mais progressista”. Os serviços o seguiam enquanto dava aulas na Universidad Juárez Autónoma de Tabasco (UJAT). Os dados copiados e colados sobre AMLO são tão detalhados como os que os serviços mexicanos dedicaram a Salinas de Gortari, seu histórico adversário político. Já o vigiavam entre 1956 e 1985 quando estudava Economia na Universidad Autónoma de México (UNAM). Sua presidência se prolongou entre 1988 e 1994. Terminou envolto em escândalos sucessivos. Desde acusações de fraude a vínculos com o narcotráfico.

“Foi uma etapa negra na vida pública do país. Isso tem que se conhecer e nunca mais espionar, nem perseguir ninguém”, declarou o presidente, que recebeu mais elogios pela desclassificação de documentos que pela anistia que anunciou aos presos políticos. Dezesseis deles foram libertados no início de janeiro. O governo explicou que alguns eram ambientalistas e outros militantes contra a reforma educativa de Enrique Peña Nieto. Há quase 350 que ainda esperam por uma revisão dos seus casos.

O dia que López Obrador apresentou a abertura dos documentos de inteligência, estava acompanhado por Carlos Ruiz Abreu, diretor do Arquivo Geral da Nação e doutor em história. O funcionário explicou: “Digamos que temos 90 anos de informação, mas que este arquivo, em sua maioria, está organizado por policiais, isto é, por gente que não tem formação em arquivologia. De fato, muitas vezes, eles mesmos não sabiam o que havia nessa documentação”. Na avalanche de escritos que serão postos à consulta, figuram uns 28 que a DFS dedicou à Rainha da Inglaterra, entre 1975 e 1983. Esses papéis convivem com os que provam como se seguiram os passos de Fidel Castro e de Ernesto Che Guevara em seu exílio mexicano durante os anos 1950. Estavam por embarcar para Cuba no iate Granma. Depois entraram vitoriosos em Havana e fizeram a revolução. Os trabalhos de inteligência também incluíram García Márquez e o mexicano Octavio Paz, prêmios Nobel de Literatura. A este, o seguiram durante mais de trinta anos, entre 1954 e 1985. Outros intelectuais, escritores e periodistas como Carlos Fuentes, Elena Poniatowska – prêmio Cervantes 2013 – e Carlos Monsiváis surgem entre as vítimas dos seguimentos do aparato repressivo do Estado.

A atriz María Felix, uma das figuras mais célebres da chamada Época de Ouro do cinema mexicano, e vários de seus colegas, estão nos arquivos sobre o mundo do espetáculo. É tão variada a quantidade de expedientes desclassificados que aparecem desde sindicalistas a narcotraficantes, religiosos e jornalistas esportivos. Há um funcionário do partido de López Obrador, Morena, que sofre o recorde de espionagem. Se trata do presidente da Câmara de Deputados, Porfirio Muñoz Ledo. Tem 85 anos e foi espionado entre 1949 e 1985. Em seu arquivo constam 426 folhas. Outras das figuras políticas mais próximas a AMLO, sua coordenadora de campanha Tatiana Clouthier, assegura que os serviços a vigilaram desde que tinha 19 anos com o fim de pressionar o seu pai Manuel Clouthier, ex-candidato presidencial, falecido em um acidente de trânsito em 1989.

A história de tantos mexicanos que ficará exposta pela desclassificação de expedientes de inteligência que López Obrador assinou, é a de um país que segundo o Registro Nacional de Dados de Pessoas Extraviadas ou Desaparecidas (Rnped) tinha 37.453 cidadãos nessa condição em abril de 2018. O aparato repressivo do Estado, segundo a intelectual Pilar Calveiro, exilada no México durante a última ditadura argentina expressa “uma espécie de sinal de alarme sobre novas formas de desaparecimento forçado, como o tráfico de seres humanos”.

O acervo documental que será submetido a consulta pública pela decisão do governo de López Obrador é tão grande que pode se dividir em duas etapas: desde a Revolução Mexicana em 1910 até 1985 e desde este ano até a atualidade. Seu valor histórico talvez ofereça a possibilidade de conhecer com mais detalhes duas tragédias que marcaram a vida do país. Podem sintetizar-se no título de um livro recente: “De Tlatelolco a Ayotzinapa, as violências do Estado” (em tradução livre), um ensaio do professor, pesquisador e ensaísta Sergio Aguayo, que criticou AMLO pela contradição de abrir os arquivos com o anúncio de ampla anistia que pôs em marcha.

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