A “Ganância” da Netflix

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14 Fevereiro 2019

Ezequiel Rivero descreve a Netflix como uma empresa de meios que toma decisões editoriais e influencia na formação da opinião pública e, ademais, advoga por uma agenda de políticas públicas ampliada, que contenha interesse da audiência e da indústria local de conteúdos.

O artigo é de Ezequiel Rivero, pesquisador do Centro de Estudios Avanzados da Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, publicado por Página/12, 13-02-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A partir da controvérsia que ocasionou o eventual e frustrado acordo entre Netflix e Jorge Lanata para incluir uma série documental sobre a corrupção na Argentina (Nota IHU On-Line: a série foi intitulada em espanhol “Codicia”, a tradução literal para o português seria “Ganância”) essa coluna convida a conhecer como se compõe a oferta do serviço de streaming, qual é sua responsabilidade editorial, como Netflix olha a América Latina e que margem de ação tem o Estado para regular a atividade.

Netflix é ainda o maior expoente global da televisão distribuída por internet. Talvez um de seus maiores rompimentos seja com a forma tradicional de monetizar a produção audiovisual. Se os estúdios de Hollywood faziam negócios vendendo os conteúdos na maior quantidade de janelas possíveis (Cinema, DVD, TV), para a Netflix não interessa tanto as janelas de exibição, mas sim ter conteúdos próprios e direitos de distribuição global pela maior quantidade de tempo, para alcançar audiências mais amplas possíveis durante períodos prolongados. Por sua vez, a diferença da televisão paga que se orientava cada vez mais a nichos de audiência específicos, Netflix decide levar tudo e ter em seu catálogo algo atrativo para cada um.

A tecnologia também faz sua parte e a permitiu à empresa alojar e distribuir a nível global quantidades superlativas de conteúdo. Durante 2017, os cinco canais com sede na região metropolitana de Buenos Aires emitiram em conjunto 292 programas diferentes, em todos os seus gêneros e formatos. Em fevereiro desse ano, somente o catálogo de séries na Netflix Argentina (excluindo filmes) quadruplicava essa cifra. Por sua parte, a biblioteca de conteúdos em países como Japão, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido superou os 5 mil títulos no ano passado.

Segundo um levantamento próprio, ainda em desenvolvimento, Netflix oferece na Argentina 1228 séries e mais de 1500 filmes, em ambos casos se trata de conteúdos de ficção, animados e documentários. Do total de série relevadas, quase a metade corresponde a ficção (48%), seguido por animadas (17,2%); especiais de stand up (13,3%); documentários (11,6%); reality shows (6,4%) e variedade (3,5%). Enquanto a origem das produções, o catálogo de séries se mostra diverso e reúne títulos de 42 países, ainda que 80% se concentre em apenas 7 desses: Estados Unidos (46%), Inglaterra (10%), Coreia do Sul (8%), Japão (7,3%) e México, Austrália e Canadá com cifras próximas a 3% cada. Os conteúdos argentinos, um pouco mais longe, alcanças apenas 2,3% do total.

A alta promoção de conteúdos originais como Narcos, El Chapo ou O Mecanismo, gerou suspeitas em relação à linha editorial que a empresa estava gestando no seu retrato de América Latina. Em efeito, de acordo com o levantamento de séries realizado, dos 90 títulos que aportam os sete países da América Latina e do Caribe que integram o catálogo, 30 abordam temáticas vinculadas com o crime organizado, o narcotráfico, a corrupção política e a violência social. Esses números não revelam muito se não levar em conta que são os conteúdos mais publicitados e com maior prominência ou visibilidade dentro do catálogo.

Em meio de sua imensa vastidão e fragmentação, o que outorga a Netflix uma personalidade é precisamente a personalização, isso é, a formação dos silos culturais que transcendem nacionalidade e que a empresa consegue criar com a ajuda de um fenomenal e opaco trabalho de automatização em seu funcionamento. Assim, consegue ser muitos serviços ao mesmo tempo e cada usuário terá mais possibilidades de ver “sua Netflix” pelo que em geral se tem uma experiência muito estreita do catálogo total disponível.

Para fraseando a mãe de Forrest Gump, para um usuário distraído, Netflix é uma caixa de bombons: nunca se sabe o que vai gostar. Ainda que se mostre imprevisível, aleatório e consiga nos enredar por horas em sua amigável interface de busca ou visualizando os conteúdos, Netflix sim sabe do que gostarás. Cada vez é mais claro que depois a pretendida assepsia de se chamar “plataforma”, “aplicativo” ou “empresa de tecnologia”, Netflix é uma empresa de meios audiovisuais que toma decisões editoriais, tem ideologia e influencia na formação de opinião pública.

Nas controversas espasmódicas que se geram sobre os conteúdos que por ali circulam radica uma oportunidade para pensar mais além dos obstáculos ou a mera imposição de tributos, e planejar uma necessária agenda de políticas públicas ampliada, que contenha ademais os interesses das audiências e da indústria local de conteúdos.

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