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13 Janeiro 2019

"O gênero emerge no centro de uma agenda do governo, de modo explícito e beligerante. Isso diz muito, sem dúvida, sobre o ódio alucinado, quase lisérgico, que perpassa as cabeças desses personagens. Mas diz, sobretudo, muito sobre os avanços que conseguimos fazer, e da escala do desafio que conseguimos ativar e do tamanho da ameaça que sentem as e os conservadores do mundo", escreve Gabriel Giorgi, mestre em Sociosemiótica pela Universidad Nacional de Córdoba e doutor em Spanish and Portuguese pela New York University, onde atualmente é professor, em artigo publicado por Página/12, 11-01-2019. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Em suas primeiras palavras como presidente, Jair Bolsonaro apontou a “ideologia de gênero” como o principal inimigo, e sua ministra Damares Alves prometeu meninos de azul e meninas de rosa. O binarismo de gênero, embora continue dominante, é percebido como uma ameaça: como o bolsonarismo o transformou no grande laboratório de sua restauração conservadora?

Em um ato de festiva declaração de guerra, Damares Alves, a nova ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Governo de Jair Bolsonaro, anunciava que “no Brasil, começa uma nova era: menino veste azul e menina veste rosa”, diante do aplauso e da excitação dos presentes. Ela disse isso em um tom infantilizado: como aquele inesquecível “queremos papai e mamãe” aclamado em nossas ruas por sessentões e sessentonas durante o debate sobre o casamento igualitário, aqui a nova ministra – na ocasião pastora evangélica – também ativa a infância como teatro da restauração conservadora.

Esta evocação da infância como núcleo de valores conservadores não é nenhuma novidade. Mas é, sem dúvida, notável a ideia de uma “nova era” em que, na contramão de toda novidade, o que se pretende é reforçar a imagem anquilosada da ordem patriarcal que, no entanto, é apresentada como a inauguração de um novo tempo. O que é essa “nova era” que se assemelha tanto ao presente quanto, sobretudo, ao passado? Ao ouvir o discurso de Alves, uma historiadora do futuro se perguntará se, em 2016 ou 2017, a sociedade brasileira era uma sociedade que tinha efetivamente eliminado e perseguido o binarismo sexual, se “Brasil” indicava uma utopia pós-gênero em que o reino do azul e rosa devia ser imposto a ferro e fogo.

Aparentemente (e contra a mais gritante evidência da ascendente violência patriarcal e heterossexista em seu país), para a ministra Alves é assim. Não atribuamos esse gesto a uma loucura extemporânea ou a um deslize místico. O gesto de instaurar e “fazer como se” houvera – com a teatralidade do caso – uma sociedade dominada pelo feminismo e pelos movimentos GLTTBI é, penso eu, um dos truques que mais renderam ao bolsonarismo. O “como se” tornado realidade: como se o patriarcado tivesse sido abolido e martirizado, como se as feministas, gays e lésbicas tivessem governado, como se a sociedade estivesse cativa do poder absoluto das pessoas trans. Agir “como se”, e produzir realidade a partir daí. E agora, com o Estado em suas mãos para levar adiante essa produção de realidade.

O gesto de Alves encontra o seu campo de ressonância, claro, no discurso do próprio Bolsonaro, que insistiu, previsivelmente, na palavra “ideologia”. Ideologia de gênero, evidentemente, mas também “amarras ideológicas”, na “submissão ideológica”, nas limitações do “politicamente correto”, que são os modos pelos quais uma sociedade democrática trabalha sua linguagem para acomodar vozes diferentes. Isso, para Bolsonaro, é “ideologia”. Contra isso, ele contrapõe, claro, a religião e “nossos valores”, condensados no binarismo de gênero. Religião e valores não correspondem, no mundo Bolsonaro, a nenhuma ideologia. Assim como azul/rosa: a não-ideologia. O binarismo de gênero como a prova, a “veridicção” diria Foucault, de que ali não há ideologia.

Porque o que parece caracterizar o bolsonarismo, e que chega a tantas outras regiões deste presente em guerra, é o esforço, a insistência e a necessidade de enfatizar, violenta e laboriosamente, distinções de gênero que, embora continuem dominantes são percebidas como ameaças. Repisar com varão/mulher, masculino/feminino, azul/rosa, com a família cisnormativa e heteronormativa, para renaturalizar hierarquias que tinham sido, mesmo que timidamente, desafiadas. Renaturalizar: recolocar uma Natureza mítica (patriarcal, racista, heteronormativa, classistas) que os movimentos populares das últimas duas décadas puseram, em diferentes graus e não sem tensões, em questão. Recolocar uma suposta Natureza mítica – pura fantasia normativa – disputada e contestada pelas lutas políticas. E contrapô-la a essa “ideologia” denunciada por Bolsonaro, que não é outra coisa senão aquilo que em outros lugares chamamos, de maneira mais simples e mais direta, de “direitos”.

Renaturalizar o azul e o rosa para sufocar as lutas que os identificaram como construções históricas e que disputaram a igualdade nesse campo. Para restaurar a partir daí hierarquias raciais, de classe, étnicas, nacionais. O gênero, então, como laboratório de uma restauração conservadora em geral: aí se pode ler uma das operações do bolsonarismo.

Que não fiquem dúvidas: a guerra declarada contra a “ideologia” (de gênero, da “correção política”, etc.) é uma guerra contra os direitos adquiridos. Excluir a comunidade LGTTBI das comunidades protegidas pelos direitos humanos – foi uma das primeiras decisões do governo Bolsonaro – indica claramente do que se está falando quando se fala de um governo “não-ideológico”.

Há, no entanto, algo efetivamente novo neste carnaval da restauração conservadora. Nunca, tanto quanto me lembro, um presidente e um governo se concentraram de maneira tão claramente, tão insistentemente e tão vigorosamente na norma de gênero como problema central da política. São muitos, é claro, aqueles que invocavam “a família”, ou – um clássico – “os valores tradicionais”. Mas nunca o gênero como campo de batalha político-cultural.

Aqui se torna um dos três principais inimigos mencionados por Bolsonaro: corrupção, criminalidade e “ideologia de gênero”, no mesmo plano. O gênero emerge no centro de uma agenda do governo, de modo explícito e beligerante. Isso diz muito, sem dúvida, sobre o ódio alucinado, quase lisérgico, que perpassa as cabeças desses personagens. Mas diz, sobretudo, muito sobre os avanços que conseguimos fazer, e da escala do desafio que conseguimos ativar e do tamanho da ameaça que sentem as e os conservadores do mundo. Diz muito sobre um feminismo e de um movimento LGTTBI que traçaram o terreno a que essas pessoas reagem e respondem com inusitada violência.

Saibamos escutar no ódio estridente e na triste banalidade desses discursos o tremor de um mundo que desmorona. Esse rumor pode nos guiar nas grandes batalhas que estão por vir.

Será, talvez, o momento de atualizar a clássica sentença de Theodor Adorno sobre o fascista como um burguês assustado. Porque no despontar da segunda década do século XXI tudo parece indicar que um fascista é, antes de tudo e de modo cada vez mais transparentes, um macho assustado.

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