O que os católicos dos EUA pensam sobre o Papa Francisco e a crise dos abusos sexuais?

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08 Janeiro 2019

“Que o encontro de fevereiro entre os bispos e o papa seja o começo de uma nova conversão. Aonde ela vai levar? Esperançosamente, para um novo papel vibrante para os leigos, para mais oportunidades de liderança para as mulheres na Igreja e para uma séria discussão das responsabilidades do clero.”

A opinião é do jesuíta estadunidense Thomas Sweetser, fundador e atual diretor do Projeto de Avaliação Paroquial. Seu próximo livro, Can Francis Change the Church? How American Catholics Are Responding to His Leadership [Francisco pode mudar a Igreja? Como os católicos estadunidenses estão respondendo à sua liderança - em tradução livre], será publicado em março de 2019 pela Crossroad Publishing Company.

O artigo foi publicado por America, 03-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Nos últimos sete anos, eu entrevistei católicos dos Estados Unidos para um livro sobre as atitudes em relação à Igreja e ao Papa Francisco. Na última rodada de entrevistas, realizada em setembro passado, eu perguntei às pessoas sobre as suas reações ao escândalo dos abusos sexuais. Elas expressaram raiva e desgosto, mas também esperança de que mudanças substanciais possam acontecer em breve.

Por exemplo, Pam, uma mulher de Minnesota com cerca de 50 anos, comentou: “Eu me sinto triste pelas lideranças da Igreja que têm que defender a si mesmos e a nossa Igreja. Na maioria das vezes, eu não sei mais em quem confiar na Igreja Católica”.

Allyson, uma moça de 20 anos que faz pós-graduação em teologia, comentou: “Como a Igreja em que eu confiei e tive como centro durante toda a minha vida pôde fazer algo assim – ser a fonte de tanta dor?”.

A reunião dos presidentes de Conferências Episcopais com o papa em fevereiro poderia ser um começo em uma nova direção. Como disse o arcebispo Charles Scicluna, um dos organizadores do encontro, em entrevista à revista America, “nós, bispos, precisamos (...) adotar o que o Papa Francisco está chamando de ‘uma abordagem sinodal’. Isto é, não podemos fazer isso sozinhos em nossa comunidade, precisamos também capacitar os leigos, o laicato, a fim de nos ajudar a ser bons pastores e administradores”.

O que esse empoderamento implicaria? Muitos dos entrevistados pediram que os leigos desempenhem um papel mais ativo nas várias estruturas e processos de tomada de decisão da Igreja.

Kathleen, uma mulher mais velha que vive em Washington, pediu que a Igreja “traga os leigos com força total”. Ela acrescentou: “Somos uma parte enorme da Igreja. Precisamos fazer parte da decisão de como a Igreja será”.

Larry, aposentado que mora em Wisconsin, implorou: “Ponham as mulheres em posições de liderança nos níveis mais altos, mesmo que vocês não queiram ordená-las. Grande parte daquilo que é humano, atencioso, inclusivo, vigilante e amoroso é em geral expressado melhor pelas mulheres ou, pelo menos, expressado melhor por homens e mulheres juntos”. Esse era um tema comum entre os entrevistados.

O Papa Francisco é a chave para uma mudança do poder e do privilégio clerical rumo a uma partilha de autoridade e de tomada de decisões. Nancy, uma cidadã do Meio-Oeste estadunidense, me disse: “Eu quero que o meu papa seja, neste momento, uma voz muito vigorosa, forte, exigente, diária, alguém que defenda mudanças que precisam ocorrer na Igreja”.

Tom, um californiano de 80 anos, também pediu uma ação audaciosa do papa: “Guie o caminho! Seja forte! Não tenha medo! Proponha e promova mudanças reais, reconhecendo e percebendo a forte oposição que você encontrará. Reforme a cultura da própria Igreja. Ou isso ou assista à Igreja se deteriorando e veja milhões de pessoas perdendo a fé”.

Essa mudança cultural deve ser abraçada pelos bispos e padres. Quem vem à mente é Ken Untener, ex-bispo de Saginaw, Michigan. Ao se tornar bispo em 1980, ele colocou sua residência oficial em custódia e viveu em paróquias em toda a diocese por dois ou três meses de cada vez. Quando ele morreu em 2004, os leigos foram em grande número ao seu velório e funeral. Dom Untener era um com o seu rebanho. Esse é um estilo de liderança a ser imitado.

Imagine como seria se os participantes da conferência de fevereiro com o papa levassem a sério a intuição de que temos que ser transparentes e responsáveis em nossa maneira de lidar com os abusos sexuais. Mas isso é apenas o começo. Os bispos também devem mudar o modo como administram as dioceses. Devem aprender a trabalhar em parceria com os leigos, devem ser inclusivos. Suas cúrias devem ser abertas, ambientes convidativos, com uma ênfase na hospitalidade e na cooperação. Uma formação nessa nova abordagem deveria ser oferecida aos padres, para que uma mudança rumo a uma cultura mais inclusiva também se torne a norma nas paróquias.

A crise dos abusos sexuais e o seu encobrimento dentro da Igreja é um sintoma de uma estrutura fechada e não responsabilizável. O movimento em direção a um estilo de liderança aberto e compartilhado aponta o caminho para uma nova maneira de ser Igreja. Como mencionou Ed, um padre que não está mais na ativa, em uma das entrevistas: “A tarefa é enorme, a resistência é palpável e aparentemente impossível, mas uma conversão profunda é essencial”.

Ginny, uma mulher de 70 anos que mora na Nova Inglaterra, tinha uma opinião positiva: “Graças a Deus, temos Francisco como nosso papa. Ele pode nos guiar através das mudanças necessárias (...) Este pode ser um momento incrível de transição em termos de uma realidade com apenas homens ordenados, como é a nossa Igreja, em sua maior parte”.

Que o encontro de fevereiro entre os bispos e o papa seja o começo dessa nova conversão. Aonde ela vai levar? Esperançosamente, para um novo papel vibrante para os leigos, para mais oportunidades de liderança para as mulheres na Igreja e para uma séria discussão das responsabilidades do clero. Com base nas minhas entrevistas, o povo de Deus não teme, mas, ao contrário, exige uma mudança real.

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