Populações da Amazônia ajudaram a domesticar o milho há 6.500 anos

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21 Dezembro 2018

Manaus (AM) – Variedades pré-domesticadas de milho (Zea mays) foram trazidas para o sudeste Amazônico, onde hoje estão os estados de Rondônia e Acre, além de regiões da Bolívia, há cerca de 6.500 anos. Nessa época, os povos que viviam nessa região continuaram a domesticação da planta, ao mesmo tempo em que um processo semelhante ocorria no México. O resultado desses dois processos de domesticação foi a existência de variedades geneticamente diferentes, mas adaptadas a condições semelhantes de cultivo. Com muitas qualidades nutricionais, hoje o milho é um dos cereais mais consumidos no mundo.

A reportagem é de Vandré Fonseca, publicada por Amazônia Real, 16-12-2018.

“O milho que saiu do México ainda não estava acabado; ele tinha um forte componente de teosinto, um parente silvestre do milho”, explica o engenheiro agrônomo Fábio de Oliveiras Freitas, da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias Recursos Genéticos e Biotecnologia. Freitas é um dos autores de um artigo que evidencia a participação de povos amazônicos na domesticação do milho e a expansão da cultura no continente. O artigo foi publicado esta semana na revista Science, uma das mais importantes revistas científicas do mundo.

O estudo demonstra a importância da preservação do conhecimento tradicional, mantido por populações indígenas e reforça a ideia de que a Amazônia foi uma região central de ocupação antes da chegada dos europeus. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que o Sudoeste Amazônico desempenhou, há cerca de 10.000 anos, um papel semelhante ao que teve o desenvolvimento da agricultura da Mesopotâmia, no Oriente Médio, sendo palco por exemplo a domesticação da mandioca.

“Ao chegar aqui na América do Sul, as populações continuaram a selecionar as variedades [do milho], que de modo interessante acabaram sendo selecionadas para a mesma direção”, continua Freitas, o pesquisador brasileiro. “As características selecionadas lá no México acabaram sendo as mesmas selecionadas aqui na América do Sul. É o que a gente chama de convergência adaptativa”, completa.

Segundo o artigo, que tem a contribuição de diversos especialistas em diferentes áreas do conhecimento, há pelo menos dois momentos de expansão da cultura do milho no território que hoje é conhecido como Brasil. A primeira se originou a partir das espécies domesticadas no Sudoeste Amazônico, em direção a leste, pela borda sul da Amazônia, e chegou até Minas Gerais.

A segunda, mais recente, ocorreu a partir do litoral. São variedades desenvolvidas, provavelmente, no México, e que podem ter chegada pelo Norte da América do Sul ou pelas Antilhas. Elas atingiram o norte do litoral brasileiro, há cerca de 1.000 anos, e foram se expandindo rumo ao Sul.

É bom explicar que o milho cultivado pelos povos tradicionais é diferente das espigas amarelas e bem regulares, que são mais conhecidas atualmente. Sendo assim, o milho encontrado nos mercados das grandes cidades no tempo presente é resultado de padronizações que buscam atender às necessidades da indústria. Ainda é possível encontrar variedades de milho tradicionais, em que os formatos e as cores diferentes do amarelo chamam a atenção. Nos Andes, por exemplo, existe um milho vermelho.

Uma gramínea selvagem

Os cientistas já sabiam que o milho surgiu a partir de uma gramínea selvagem, encontrada na América do Norte, denominada teosinto. Há cerca de 9.000 anos, os antigos povos que viviam lá foram os responsáveis por iniciar a transformação dessa planta em um alimento cultivado. O artigo de Freitas argumenta que as variedades ainda não domesticadas foram trazidas para a América do Sul e nesse território continuaram a ser adaptadas para o cultivo, como hoje as conhecemos.

Mas Freitas destaca que, há seis mil anos, a Amazônia era diferente da floresta que foi encontrada pelos europeus. Segundo ele, no sudoeste da região, havia áreas abertas, onde era bem mais fácil implantar a agricultura do que em uma floresta densa. Ele diz: “Imagina ter que derrubar uma floresta com machados de pedra!”

Em julho, um artigo publicado na PLOS One, revista científica on-line, relatava indícios da domesticação da mandioca na região onde hoje é o estado de Rondônia, entre 8.000 e 10.000 anos atrás. Entre as evidências, estão fitólitos, minúsculos pedaços de plantas petrificados, encontrados em meio à argila, com 0,02 milímetros de tamanho.

As pesquisas, realizadas e lideradas pela arqueóloga Jennifer Watling, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), confirmavam a importância da região no desenvolvimento da agricultura. “Neste estudo a gente conseguiu achar restos micro botânicos, associados com assentamentos antrópicos que remontam de 5.000 a 6.000 anos atrás. A gente está associando um tipo de sítio na região à domesticação de mandioca”, explicou a pesquisadora na época, em reportagem foi publicada no site O Eco.

Jennifer explicou que, por volta de 11.000 anos atrás, o mundo estava ficando mais quente, levando os seres humanos a buscar novas formas de garantir a alimentação. Os primeiros registros da domesticação de plantas, em todo o mundo, ocorreram nessa época.

A reação colonialista

Para o arqueólogo Eduardo Góes Neves, também da USP e que faz estudos na Amazônia desde a década de 1980, essas descobertas têm impacto sobre a maneira de compreender a Amazônia. Elas demonstram a importância de se valorizar os modos de vida tradicionais na região.

“O mais importante para nós, na arqueologia, é demonstrar que uma série de categorias que usam para definir a Amazônia aqui no Brasil, que viram políticas públicas, não são naturais”, afirma Neves. O arqueólogo participou da Quarta Reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira – SAB da Região Norte, realizada no início deste mês em Manaus. Para ele, as visões sobre a região se refletem em políticas públicas.

“A ideia de que a Amazônia é atrasada, que precisa ser desenvolvida, a ideia de que os trópicos são insalubres, são categorias que foram criadas nos séculos 18 e 19, por pessoas que não conheciam a Amazônia direito, os trópicos em geral, que tinham uma relação que era colonialista e se refletiram em políticas públicas. O resultado disso, como a gente sabe muito bem aqui no Brasil, são catastróficos.”

Os cultivos tradicionais

Fábio Freitas por sua vez, relata que seus estudos começaram no final da década de 1990, durante o doutorado, quando ele analisou, na Inglaterra, amostras de milho da Embrapa que foram encontradas em um sítio arqueológico no Norte de Minas Gerais. Na época, não havia tecnologia para aprofundar mais os estudos. Os dados indicavam que o milho chegou ao continente sul-americano em dois momentos diferentes: primeiro há mais de 4.000 anos e depois em um período anterior há 1.000 anos do tempo presente.

As pesquisas ficaram paradas até 2015, quando Freitas encontrou Logan Kristler, autor principal do artigo, mencionado anteriormente. Na conversa, eles falaram sobre os avanços nas ferramentas de análise genética, que possibilitariam avançar com os estudos. Além disso, Freitas tinha acesso, também, a um número maior de amostras, o que contribuiria para a continuidade das pesquisas.

“Meu trabalho foi inicialmente resgatar o trabalho original e trazer essas amostras arqueológicas e de populações tradicionais e buscar outras amostras dos Estados Unidos até a Argentina”, conta o brasileiro. “Eu reuni esse material, extraí parte do DNA e, posteriormente, minha parte foi colaborar na análise geral dos dados e resultados. Os estudos incluíram, também, pesquisas sobre as populações tradicionais da Amazônia e uma teoria sobre as migrações de povos antigos da região.

Só na Embrapa, existem amostras de cerca de 5.000 variedades de milho. Grande parte delas foram obtidas em comunidades tradicionais. O estudo demonstra a importância desse acervo, mas Fábio Freitas destaca que é necessário, também, fazer com que, que os modos e as variedades tradicionais de cultivo sejam preservadas. É isso que a pesquisa também demonstra.

“Enquanto estiverem na geladeira, estão ali conservadas, mas não estão sendo utilizadas, selecionadas pela natureza e pelo homem”, avalia.

“Já o caso dos materiais que continuam a ser utilizados por populações tradicionais, estão sendo constantemente colocados à prova. O ambiente está selecionando, o homem está selecionando; então, qualquer doença, mudança de temperatura, chuva, seca, tudo isso, ano a ano, vai selecionando esse material”, completa Fábio Freitas.

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