Os “coletes amarelos” e o fatalismo de certa esquerda

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11 Dezembro 2018

Há quem espere a chegada de movimentos limpinhos, corretos ideologicamente — e portanto torça o nariz diante do que parece “impuro”. Estes jamais dialogarão com as revoltas deste século.

O artigo é de Rodrigo Nunes, professor de filosofia moderna e contemporânea na PUC-Rio, publicado por Outras Palavras, 10-12-2018.

Eis o artigo.

Esses tempos me disseram, “você é muito otimista”. Foi um choque para mim, porque nunca fui otimista na vida, pelo contrário. Mas realmente sou muito resistente à ideia de que “não há nada que se possa fazer”. E isso por motivos filosóficos que me parecem sólidos. Primeiro, porque eu acredito num universo não-determinista, probabilístico, e portanto tecnicamente falando sempre se pode fazer algo (por menores que sejam as chances de sucesso ou mais ínfimo que seja o impacto). Segundo, porque a máxima de comportamento que se extrai de “não há nada que se possa fazer” é “não façamos nada” –– o que não apenas me repele por si só (eu estou vivo, diabos, eu quero fazer alguma coisa), mas me parece, num universo probabilístico, a conclusão errada. Para mim, “não há nada que se possa fazer” significa sempre “não há nada que se possa fazer com as forças que temos agora”, logo a máxima correta é sempreaumentemos nossa capacidade de agir”.

Lembrei disso agora vendo os especialistas de sempre passearem todo seu conhecimento e experiência para dizer que a única coisa em que o movimento dos Gilets Jaunes na França pode dar é necessariamente uma vitória da extrema direita. Deixemos de lado o fato de que, num universo probabilístico, “necessariamente” tem um significado estritamente estatístico. A questão que me bate é: qual é a máxima de comportamento que as pessoas acham que a esquerda francesa deveria adotar neste momento? “Vamos ficar em casa, criticar muito nas redes sociais, apoiar mais ou menos discretamente as forças policiais, e antagonizar este movimento o máximo possível”? Ora, se estamos num universo probabilístico, e o que se quer evitar é que o movimento se consolide como uma base social da extrema-direita, qual máxima de comportamento tem mais probabilidade de produzir exatamente aquele resultado que se gostaria de evitar: esta, ou “vamos para a rua ouvir, participar, jogar nossas ideias e participar do esforço de dar forma ao que está acontecendo”? Não faz mais sentido, portanto, adotar a segunda máxima, por maiores que achemos que são os riscos ou menores que estimemos as chances de sucesso?

Sério, eu não estou nem falando de ter diferenças de diagnóstico; eu literalmente não consigo compreender o raciocínio de quem age dessa forma.

Historicamente, momentos de crise da direita tendiam a ser bons para a esquerda e vice-versa. As explosões que estamos vendo no mundo atualmente são algo distinto. Ao mesmo tempo que são sintomas de uma crise profunda do neoliberalismo –– que sangra legitimidade desde 2008 e se manifesta cada vez mais como incapaz de satisfazer as necessidades de mais que uma pequena parcela da população ––, elas ocorrem num momento de crise da esquerda –– seja pela dissolução de sua base social histórica e instituições (sobretudo nos países capitalistas centrais), seja pelos limites que suas organizações encontraram (melancolia nostálgica incluída), seja porque ela se comprometeu com diversos pilares do consenso “centrista” neoliberal e hoje aparece como guardiã da mesma ordem que as pessoas sentem que não lhes serve mais.

Por outro lado, é quase seguro que vêm mais revoltas por aí. Mesmo os países ricos estão vivendo uma crise de reprodução social, com cada vez mais gente abaixo da linha de miséria; a crise ambiental só vai piorar (e, com ela, aumento da migração, crises de abastecimento etc.); a crise de legitimidade do sistema político não vai se resolver tão cedo; e há sinais de que uma recessão mundial maior que a do final da última década pode estar a caminho.

A conjunção destes dois fatores indica que as revoltas serão em vários aspectos antissistêmicas, mas dificilmente serão iniciadas ou lideradas pela esquerda. Ou a esquerda aceita que elas não serão bonitas, limpinhas, com atestado de idoneidade ideológica, e assume que não vai poder chegar já sentando na janela e terá que lidar com uma série de elementos confusos ou diretamente problemáticos se quiser influir no rumo das coisas –– ou só sobrará a ela essa demofobia tão arrogante quanto impotente. E demofobia de esquerda –– esse troço que era para ser uma contradição em termos, mas infelizmente não é –– é a coisa mais triste que tem.

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