Neste Advento, lembre-se da segunda vinda

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05 Dezembro 2018

Detalhe de teto de igreja do século XVIII na Dinamarca, mostrando uma pintura do Juízo Final (Foto: Wikimedia Commons/Wolfgang Sauber) 

Feliz Advento! Esta época sagrada de preparação e expectativa começou ontem e terminará com a missa da vigília de Natal

Há muitos anos tenho falado sobre o esmaecimento desta época Santa. As pessoas riem quando eu digo que sou "religioso, mas não espiritual", mesmo que seja verdade no meu caso. Mesmo assim, escrevi uma coluna muito forte, espiritualmente falando, datada de 2013, e que intitulei "The War on Advent” [A guerra do Advento, em tradução livre. Pode ser lido no original em inglês aqui]. Dois anos atrás, no rescaldo dos desastrosos resultados das eleições, voltei ao tema com uma coluna chamada "Trump and the 'War on Christmas’” [Trump e a 'guerra do Natal’, em tradução livre. Pode ser lido no original em inglês aqui].

Acabei de reler essas colunas, e elas continuam atuais. Por isso, recomendo-as a você que nunca as tenha lido.

Gostaria de destacar um dos temas de muitos hinos do Advento: temor.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 03-12-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

No hino, “Hark! A Thrilling Voice is Sounding” [Hark! O soar de uma voz emocionante, em tradução livre], o primeiro verso convoca todos a “livrar-se das obras da escuridão", o segundo verso fala da "advertência solene", o terceiro descreve "lágrimas de pesar", e o quarto explica que Cristo envolverá "o mundo inteiro com o medo".

[…cast off works of darkness /
solemn warning /
tears of sorrow /
all the world in fear…]

Não há nada de alegre nisso!

Meu hino de Advento favorito é “Lo, He Comes with Clouds Descending” [Lo, ele vem descendo com as nuvens". (Eu tenho sugerido a vários bispos usar este como hino de entrada em suas igrejas, mas, estranhamente, nenhum deles aceitou.) No segundo verso deste hino, fala-se de "lamentações profundas, lamentações profundas", enquanto o terceiro repete: "venha o julgamento, venha o julgamento". Novamente, o tom não é apenas sério, mas sombrio. É a segunda vinda que está sendo evocada. Pense sobre "dies irae” [dia da ira] no réquiem.

[...deeply wailing, deeply wailing /
Come to judgment, come to judgment…]

Para onde a ênfase na segunda vinda foi? Está nas leituras, mas quando foi a última vez que você ouviu uma homilia muito boa sobre a segunda vinda, seja nesta, ou em qualquer época do ano?

Na semana passada, o bispo Daniel Flores postou no seu Twitter uma reprodução do mural de Giotto "The Last Judgement" [O Juízo Final, em português] com uma provocante citação de Romano Guardini:

"Quando se fala [do Juízo Final], é geralmente como algo terrível. Na realidade, o julgamento é um testemunho de honra para o homem, pois o coloca numa posição de responsabilidade. Só um ser livre e responsável pode ser julgado."

Eu fico um pouco preocupado em dizer uma coisa dessas no contexto de nossa pelagiana Igreja americana. Obviamente, o bom bispo é mais santo do que eu, sendo assim, a ideia de ser julgado não é tão terrível para ele como é para mim. Suspeito que mais pessoas são como eu do que como o bispo Danny.

O pecado é a consequência mais óbvia de nossa liberdade e responsabilidade, e com o pecado vem a morte. Se você não tem tempo para fazer uma coroa do Advento, se você não se comove por canções do Advento, se você tem muito tempo para preparar arranjos de Natal e não consegue tempo para se preparar espiritualmente, faça uma coisa: vá se confessar. Faça um exame de consciência. Concentre-se nos seus pecados. Reconheça o quanto você precisa de um Salvador.

O tweet do bispo também chamou atenção para uma coisa bonita que o Santo Padre disse em audiência geral da semana passada, quando um jovem menino autista se esgueirou para o palco no salão de audiências Paulo VI, e ficou vagueando ao redor como se nada de importante estivesse acontecendo. Ao invés de repreendê-lo, o Papa continuou a audiência sem embaraço. Mas mais tarde, quando ele estava apresentando suas reflexões, disse sobre o episódio: "Isso me fez pensar, eu também sou livre assim diante de Deus?". O Papa lembrou que Jesus disse que temos que ser como crianças. Pense em como a cultura dominante, comercial nos faz escravos nesta época, e ensina as crianças a se tornarem escravos também.

A ambiguidade com que ouvimos as palavras de Guardini, no entanto, aponta para a ambiguidade no âmago desta época. Estamos à espera de um Salvador, mas sabemos como termina a história: o Salvador já veio. Aguardar a segunda vinda, então, cria um sentido de expectativa que supomos que o povo de Deus em Israel teve uns 2 mil anos atrás.

Aqui está o ponto-chave. É o que eu acho que o Papa Francisco está tentando nos dizer, o tema central do seu pontificado na verdade. Também, de uma forma diferente, o foco do pontificado do Papa Bento XVI. Na fé, cremos que Jesus veio para resgatar o mundo, de uma vez por todas, há cerca de 2 mil anos. Na fé, cremos que Jesus virá no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos. Nós afirmamos essas crenças no Creio todos os domingos.

Mas Jesus também vem hoje, agora mesmo, sempre que nos confrontamos com a necessidade humana, sempre que contemplamos a Eucaristia, sempre que tomamos os sacramentos, sempre que reconhecemos nossos próprios pecados, sempre que aproveitamos a oportunidade para agir gentilmente ou para perdoar. Neste Advento, contemplando a primeira e a segunda vindas, talvez nosso objetivo seja focar em todos os milhões e bilhões de vindas entre essas duas, para ver Jesus vivo, aqui e agora, ainda e sempre um Salvador, nosso Salvador, o Salvador do mundo.

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