Chile. Camilo Catrillanca, mártir do povo mapuche, expressão da violência do Estado

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 22 Novembro 2018

A reivindicação por direitos e reconhecimento da população mapuche causou mais uma morte no Chile. O jovem Camilo Catrillanca, de 24 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça, na quarta-feira, 14-11-2018, em uma operação dos policiais Carabineros na comunidade de Temucuicui, região de Araucanía. As versões apresentadas pela polícia são contraditórias, o que levaram o intendente regional Luis Mayol a renunciar. Em todo país foram feitas diversas manifestações solidárias à luta mapuche.

Camilo Catrillanca. Foto: TeleSur

Camilo Catrillanca, nascido em 1994, esteve envolvido na luta mapuche desde sua adolescência. A vida mapuche é, em sua essência, uma resistência constante. Aos 15 anos, em agosto de 2011, Catrillanca estava na liderança da ocupação de estudantes mapuches na prefeitura de Ercilla, que durou duas semanas. Os estudantes mapuches reclamavam por uma educação gratuita e intercultural e contra a violência policial, institucional e racista.

“Na comunidade de Temucuicui, a qual pertenço, estamos tendo muitas invasões, já não somos livres, já não podemos caminhar pelos morros e cuidar nossos animais, a repressão é muito forte. O Estado é o principal repressor, ele que manda carabineiros para nos assassinar, porque estamos expostos, estão nos atirando à queima-roupa”, denunciou o adolescente Camilo Catrillanca em vídeo divulgado no Youtube, em 2011. Junto a outros dois estudantes, com nomes e rostos expostos, fazem a reivindicação direta à intendência regional de Aracaunía.


Camilo Catrillanca relatava exatamente a violência que lhe mataria sete anos depois. Durante a tarde, junto de outro jovem mapuche, estava em sua comunidade, em um trator azul, quando foi interpelado pelos Carabineros do Comando Jungla, unidade responsável pelas operações contra o narcotráfico. Porém, as versões sobre o que se sucedera são contraditórias.

Mapa do Chile, em destaque Araucanía. Fonte: Wikipedia

Os Carabineros afirmaram que avistaram de helicóptero os dois mapuches recebendo carros roubados, quando enviaram o comando para interceptar. Então, cinco policiais do Comando Jungla foram enviados, desses, quatro entraram na comunidade mapuche e acusaram ser recebidos com tiros. General Hermes Soto, diretor-geral dos Carabineros, admite que três deles dispararam balas.

O menor que estava com Catrillanca, e que foi detido ilegalmente, contou ao Instituto Nacional de Direitos Humanos que os Carabineros ordenaram que baixassem do trator, lhes espancaram e atiraram contra Catrillanca. Confirmou ainda que os policiam portavam câmera filmadora e tudo estaria registrado, pois é parte do operativo o uso de câmeras de vigilância, GoPro, nos uniformes policiais.

A primeira versão da polícia ocultava a história da filmadora, afirmando que não houve tempo de instalar o equipamento de gravação. Somente os policiais que chegaram depois da ação estariam seguindo o dever da operação, mas as imagens não registravam o que havia ocorrido.

Entretanto, do sábado para o domingo, o governo chileno apresentou uma nova versão. Depois de longos interrogatórios e depoimentos contraditórios para a imprensa, confirmou-se que havia sim a filmadora, porém seus registros tinham sido apagados. Andrés Chadwick, vice-presidente e ministro do Interior, convocou uma coletiva para esclarecer a situação. “Sim, a câmera de vigilância existia, mas o mais grave, é que o cartão de memória, um dos membros da operação destruiu”, declarou.

A operação despertou manifestações em todo o país. A revolta da população contra a violência policial e a ilegalidade da operação levou a Luis Mayol, intendente da região de Araucanía, a renunciar. O general Soto, contra as acusações de acobertamento, afirma que foi enganado por seus funcionários, e expediu três demissões na chefia de segurança da região.

No domingo à tarde, 18-11-2018, mais de 4 mil pessoas estiveram presentes na comunidade Temucuicui para o velório de Camilo Catrillanca. O jovem foi aclamado pelo seu povo como mártir, defensor da história e dos direitos mapuches, e por isso, morto pelo Estado. A despedida foi uma manifestação de revolta contra a violência histórica que sofre o povo indígena, de imposição de fronteiras e identidades nacionais. Os povos mapuches existem para além das fronteiras nacionais, historicamente ocuparam a região patagônica, territórios que hoje pertencem ao Chile e à Argentina.

“Somos um povo, somos comunidade, somos mapuches, não somos chilenos, não somos argentinos, o território está invadido por ambos os Estados. Somos um só povo!”, discursou Juana Calfunao, uma das principais lideranças da comunidade Juan Paillalef.

Em 1880 iniciou a Pacificação da Araucanía.
Fonte: RazónAraucana

“Os mapuches que estão aqui somos os sobreviventes dos atos coercitivos militares denominados pacificação da Araucanía”, denunciou Aucán Huilcamán, werken, equivalente a porta-voz, do Conselho de Todas as Terras, organização que reivindica a construção de um Estado Mapuche. A Pacificação da Araucanía, foi a operação que desencadeada no século XIX, para criar redutos mapuches e incorporar a região à soberania do estado chileno.

No amistoso de futebol entre Chile e Honduras, na terça-feira, 20-11-2018, o jogador Jean Beausejour, colocou seu sobrenome menos conhecido na camiseta, Coliqueo, de origem mapuche. Arturo Salah, presidente da confederação chilena, havia dito que "os temas não deveriam se misturar". Antes de iniciar a partida os jogadores de ambas as equipes, reunindo-se no centro do gramado, tomaram iniciativa própria para homenagear Camilo Catrillanca, voltando-se contra a decisão da confederação nacional de sequer prestar um minuto de silêncio.


Homenagem a Camilo Catrillanca, convocada pelos jogadores do Chile na partida amistosa contra Honduras. Foto: Reprodução Youtube

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