Referência no exterior, Brasil não faz dever de casa na área ambiental

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17 Novembro 2018

O país que guarda a maior biodiversidade do mundo vive uma dualidade: por um lado é protagonista nos acordos ambientais internacionais, com posição de destaque nas mesas de negociações e referência para outros países. Por outro, possui uma estrutura governamental frágil para atender aos desafios de gerir tamanho patrimônio.

A reportagem é de Daniele Bragança, publicada por ((o)) eco, 11-11-2018.

Sobram problemas nas estruturas dos órgãos ambientais de todas as esferas, desde processos burocráticos lentos, ineficiência nas ações e conflitos de cunho fundiário ou social.

A bipolaridade do Brasil na área ambiental é revelada também pelos números sobre a cobertura vegetal no país. Se por um lado o Brasil preserva 40% da sua cobertura vegetal em bom estado, por outro concentra essa cobertura em apenas 400 dos 5.570 municípios brasileiros.

As fragilidades e potencialidades do país são um dos assuntos abordados no Sumário para Tomadores de Decisão do Primeiro Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e de Serviços Ecossistêmicos, documento lançado na manhã desta quinta-feira (08) pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e de Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês), em evento fechado para a imprensa no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Inspirada no Painel Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES) da ONU, considerada o “IPCC da biodiversidade”, a BPBES surgiu em 2016 com a proposta de fazer relatórios periódicos sobre o que se sabe de mais novo sobre biodiversidade, floresta em pé e serviços ambientais que a natureza preservada garante.

O primeiro documento, fruto de um trabalho de 3 anos e envolvendo mais de 120 pesquisadores, foi tornado público às vésperas da conferência mundial sobre biodiversidade, a COP-14, em Sharm El-Sheik, no Egito.

Brasil subestima importância da própria biodiversidade

“A biodiversidade e serviços ecossistêmicos sempre foram percebidos como obstáculos ou, no máximo, como apêndice do processo de desenvolvimento. No entanto, é preciso reverter essa visão, porque a incorporação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos podem constituir uma base de ganho e competitividade muito importante no ambiente global, que vem se configurando nos setores produtivos, cada mais dependentes de práticas inclusivas e sustentáveis”, explica Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UNB), e um das coordenadora da da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e de Serviços Ecossistêmicos (BPBES).

Das 141 culturas agrícolas brasileiras, 85 dependem da polinização realizadas por insetos como abelhas, mariposas, moscas e besouros. Segundo estudo citado no relatório, os serviços para a economia que esses animais prestam chegam a ordem de R$ 12 bilhões por ano. Espécies como o algodão e a soja dependem da polinização.

“No momento em que você demonstra para um proprietário agrícola que ele tem mais a ganhar em manter áreas de vegetação nativa com a população de polinizadores, porque a presença de polinizadores vai aumentar, no caso da soja, por exemplo, em 20% a produção dele. Ou no caso do café, de 15 a 18%, [esse produtor] vai entender que ele também tem a ganhar com essa proteção e vai passar a colaborar com a implementação do que a gente está propondo”, afirma o biólogo Carlos Joly, da Unicamp, que também é um dos coordenadores da BPBES e um dos fundadores da proposta.

Para o engenheiro florestal, Fabio Scarano, da UFRJ, o relatório aponta para a necessidade de transversalizar a assunto, não só envolvendo o governo e o setor econômico, mas os próprios cientistas e a academia.

“A ciência que trata da biodiversidade está muito biológica. Para a gente entender melhor a relação da biodiversidade com o bem-estar das pessoas e os serviços que a natureza oferece para as pessoas, a gente precisa trabalhar no sentido de casar um pouco mais as ciências naturais com as ciências sociais e isso envolve pensar política científica de maneira diferente do que estamos fazendo”, afirma.

Os números e destaque do relatório

* Até 2030, a mudança no uso da terra seguirá sendo o principal vetor de perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos no país, e continuará a ser um fator-chave ao longo de boa parte do século 21;

* O território nacional abriga cerca de 42 mil espécies vegetais + 9 mil espécies de vertebrados + 129 mil invertebrados conhecidos;

* Espécies ameaçadas: 1.173 da fauna + 2.118 da flora;

* De 141 culturas agrícolas analisadas no país, 85 dependem de polinização por animais;

* Cerca de 80 famílias e 469 espécies de plantas são cultivadas em sistemas agroflorestais no Brasil;

* Mais de 245 espécies da flora brasileira são base de produtos cosméticos e farmacêuticos; ao menos 36 espécies botânicas nativas possuem registro de fitoterápicos;

* O Brasil exporta mais de 350 tipos de produtos agrícolas e a agricultura familiar produz 70% do que é consumido pela população brasileira;

* 2/3 da energia elétrica consumida no Brasil provém de usinas hidrelétricas que dependem da integridade de ecossistemas;

* O Brasil é o terceiro maior país exportador de produtos da silvicultura, responsável por 3,64% do volume total do mercado global;

* O setor do turismo no Brasil gera 43 mil empregos e agrega R$ 1,5 bilhão ao Produto Interno Bruto (PIB) do país;

* Estima-se que, entre 2013 e 2025 o Brasil dobrará sua produção pesqueira, passando a produzir 1.145 mil toneladas de pescado;

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