Argentina. Revivem as notas da Missa para o Terceiro Mundo do Padre Carlos Mugica

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23 Outubro 2018

Preservar a memória, espalhar a mensagem, cancelar a condenação injusta sofrida. Esse foi o espírito com que o grupo "Quinto de Cantares" tocou na última sexta-feira a Missa para o Terceiro Mundo, uma obra escrita pelo padre Carlos Mugica, conhecido como o Cura Villero por sua dedicação aos marginalizados em Buenos Aires, que foi banido logo após seu assassinato, em 11 de maio de 1974. A versão original dessa obra, gravada mais de quarenta anos atrás pelo religioso e cantada pelo popular Grupo Vocal Argentino com uma orquestra de mais de cinquenta elementos, sofreu uma verdadeira obra de censura por parte da Aliança Anticomunista Argentina de José López Rega (a famigerada Tripla A).

O comentário é publicado por Il Sismografo, 22-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

As cinco mil cópias do LP e as gravações foram destruídas porque a mensagem contida na Missa Cantata tinha sido considerado "subversiva", mas quem queria encobrir a riqueza do pensamento do padre Mugica não levou em conta a memória da base, que é preservada entre o povo e as pessoas comuns.

"Poder recuperar, reconstruir e tocar a Missa para o Terceiro Mundo foi uma grande honra para nós, mas principalmente foi uma dívida com o padre Mugica", disse à mídia local Oscar Escalada, barítono e guitarrista do "Quinto de Cantares". "Nós todos vivemos aqueles anos e lembramos a obra pastoral de Padre Carlos, que não só foi assassinado, mas também sofreu uma injustiça brutal pela censura que o atingiu após a morte. Para nós já foi uma grande honra - continuou o músico - poder tocar a sua obra no dia 11 de maio, o aniversário do martírio, durante uma Missa e diante do local de sua sepultura".

O tenor Galo García, membro do "Quinto De Cantares", tinha sido anteriormente um membro do Grupo Vocal Argentino, o primeiro a interpretar a Missa escrita por Mugica. "O que eu tenho vivo na memória - o tenor lembra - é que quando nós gravamos, toda hora Mugica vinha para conferir como tinha ficado a missa. Ele estava sempre presente porque fazia questão de ser entendido muito bem, aquilo que os textos diziam, a mensagem que transmitia a missa que ele havia escrito e que havia corrigido muitas vezes. O que o preocupava era que cada linha do texto fosse compreendida, era importante para ele que as pessoas entendessem a mensagem que queria transmitir."

A arrecadação da exibição musical da última sexta-feira foi inteiramente destinada às obras de assistência fundadas por outro sacerdote portenho, Carlos Cajade, que morreu em 2005 e foi fortemente influenciado pelo trabalho de seu homônimo assassinado em 1974. "Carlos na época tinha 24 anos e ficou chocado com o homicídio, lembra o irmão do padre Cajade, por isso tenho certeza que o evento que aconteceu esta noite o deixaria extremamente feliz, foi uma noite dedicada à sua memória, dois homens da Igreja sinceros e reais, próximos das pessoas e dos seus problemas, das suas esperanças".

Carlitos Mugica vinha de uma família abastada, que vivia nos bairros ricos de Buenos Aires: a mãe herdeira de latifundiários, o pai um advogado envolvido em política, conservador e antiperonista. Ele cresceu com cozinheiras e empregadas, praticando tênis, futebol e rugby. A vocação sacerdotal havia surgido aos 20 anos, graças a uma viagem a Roma para o Jubileu de 1950, grande prova de energia da Igreja de Pio XII. Inteligência vívida, coração apaixonado, temperamento resoluto: seus dons humanos não foram ignorados pela Igreja de Buenos Aires.

Depois da ordenação, por um determinado período ele também fez parte dos colaboradores próximos ao cardeal Antonio Caggiano. O que direcionou para outros caminhos a sua sensibilidade sacerdotal impetuosa foi, no início da década de 1960, a experiência pastoral realizada quase por acaso entre as cabecitas negras de Villa Retiro, os pobres e os imigrantes de uma das mais antigas favelas portenhas. Na onda do Concílio, Mugica estava entre os primeiros padres argentinos a aderir ao Movimento dos Sacerdotes para o Terceiro Mundo, que na linha de figuras como o bispo brasileiro Helder Camara, se envolveram em lutas populares em nome da opção pelos pobres. Em Mugica, tal participação tomou a forma de verdadeira militância política nos movimentos da esquerda peronista, após o golpe que em 1955 derrubou o governo do presidente Juan Domingo Perón e obrigou-o ao exílio. "Sou um convertido ao peronismo e dizem que os convertidos são mais fanáticos", dizia sobre si mesmo o padre Mugica.

Em 1972, estaria ele, e também outro sacerdote villero, Jorge Vernazza, no avião que da Europa levava de volta Perón para a Argentina, para seu último e fugaz retorno ao poder. Em todos aqueles anos, Mugica conviveu com o medo de que as autoridades eclesiásticas o obrigassem a abandonar o hábito sacerdotal por seu envolvimento político. Aquela militância, naquela época e naquelas circunstâncias, ele vivia como resultado concreto e inseparável de sua opção pelos pobres: "Nada e ninguém vai me impedir de servir a Jesus Cristo e à sua Igreja lutando com os pobres por sua libertação", escrevia Mugica com uma frase que as Curas Villeros de hoje escolheram como slogan para as celebrações destes dias.

Nas circunstâncias da morte, encontramos os sinais e as tensões que acompanharam toda a história de Mugica, sacerdote e militante peronista. Nos últimos meses de vida Carlos acabou sob ataque da direita e da esquerda, na sangrenta deflagração das facções e dos aparatos ligados a Perón que abririam o caminho para os anos da ditadura militar. Mugica entrou em conflito com o polêmico José López Rega, ministro dos serviços sociais do governo, conhecido por sua filiação a ambientes ocultistas maçônicos e títere da Aliança Anticomunista Argentina, a organização paramilitar a que, inclusive os parentes de Carlos, atribuem o assassinato do sacerdote. Mas, nos últimos tempos, sua lealdade a Peron desencadeou contra ele mesmo a hostilidade dos grupos que escolheram a guerrilha e a opção revolucionária a golpes de bombas, sequestros e atentados, a partir do Movimentos Peronista Montonero. Mugica, que anteriormente nunca descartara a insurreição popular como resposta à opressão, assumiu posições claras contra o recurso a violência política.

"Os grupos que pretendem assumir a representação popular para perpetrar atos violentos", escrevia naquela época o sacerdote "não só se opõem gravemente a Lei de Deus, mas também desprezam um povo que lealmente manifestou a sua vontade." E ainda: "Muitos guerrilheiros não são absolutamente pessoas do povo: são intelectuais pequeno-burgueses que aprendem a revolução nos livros, e não na realidade."

Na noite de 11 de maio de quarenta anos atrás, o último dia do Padre Mugica foi um dia normal de um sacerdote da Villa: jogou futebol com alguns garotos villeros, depois se reuniu com casais de jovens noivos na paróquia de São Francisco Solano e, por fim, celebrou a missa vespertina pré-festiva. Seu assassino o matou do lado de fora da igreja. Mais de 20 mil pessoas compareceram ao seu funeral. "Aqueles que militavam em organizações políticas o consideravam um líder político", explicou o padre Guillermo Torre, seu atual sucessor na igreja villera de Cristo Obrero (Cristo Trabalhador) "mas para as pessoas da Villa era simplesmente ‘el padrecito'".

Jorge Mario Bergoglio não conhecia bem Mugica. Havia se encontrado com ele em poucas oportunidades na Universidade del Salvador, onde Carlos mantinha cursos de teologia na década de 1960. Mas, como arcebispo de Buenos Aires, em 9 de abril de 1999, foi Bergoglio a presidir a cerimônia de translação dos restos mortais de Mugica para a capela de Villa Retiro, onde passara grande parte de seu sacerdócio. Assim rezou o atual bispo de Roma naquela ocasião: "Pela morte do padre Carlos, pelos seus assassinos materiais, por aqueles que foram os idealizadores de sua morte, pelo silêncio cúmplice de grande parte da sociedade e pelas vezes que, como membros da Igreja, não tivemos a coragem de denunciar seu assassinato, que o Senhor tenha piedade".

Quarenta anos depois de sua morte, as acusações e as suspeitas que influentes setores eclesiais jogavam naquele tempo sobre Mugica e muitos dos Curas Villeros se dissolveram. Para os sacerdotes de trinta e quarenta anos que atuam hoje nas Villas, Mugica e os outros da primeira geração de Curas Villeros são os precursores de uma experiência eclesial que continua a confessar de formas sempre novas a sua fonte evangélica. "O tempo que flui torna as coisas mais claras", disse novamente o padre Torre: "agora vemos melhor que também para os primeiros, o único critério era o Evangelho. Amar os pobres, vivendo entre eles, como fez Jesus”.

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