Ganha, mas não leva?

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03 Outubro 2018

"Guedes e Bolsonaro prometem escrever um novo capítulo da tragicomédia do liberal-autoritarismo periférico", escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, em artigo publicado por CartaCapital, 02-10-2018. 


Eis o artigo.

Aqui e acolá, circulam murmúrios soprados, dizem, pela turma encastelada nos bastiões da direita brasileira. Como sabem até as pedras das ruas, essa tigrada está homiziada nas cavernas da alta finança ou acoitada nas sentinas da rasa cultura, gentes que se completam nas ameaças à vida civilizada.

Nas ruas, nas praças, nas esquinas, flutuam sugestões a respeito dos resultados das eleições, sugestões que infestavam os torneios varzeanos da antiga São Paulo de Piratininga. Nos concorridos torneios de chute na bola e nas canelas dos adversários, os murmúrios cochichavam “ganha, mas não leva”.

Na várzea dos meus tempos, quase sempre as desavenças eram resolvidas no braço. Tiros e facadas, só em doses moderadas. Quando o pau quebrava, os visitantes, minoritários, escapavam para os caminhões – já preparados para a fuga – com o uniforme de jogo.

Os temerários que aceitavam apitar os jogos sofriam os espancamentos de praxe, quando não eram expulsos por jogadores do time local, insatisfeitos com a arbitragem. Visitantes eram em geral assaltados por mediadores caseiros. Não tugiam nem mugiam. Galo no terreiro do vizinho é galinha.

Já no embate eleitoral de nossos dias, as desavenças são resolvidas nos Facebooks, Instagrams ou Twitters da vida, ou, se preferir o distinto leitor de CartaCapital, nas geringonças que simulam a inteligência humana. A chusma de valentões do teclado manda bala nas provocações, ameaças e fanfarronadas. Reconstituem um ambiente social e político da guerra de todos contra todos em nome de Deus, da Família e dos bons costumes. A invocação de Deus para propósitos truculentos viola o Segundo Mandamento inscrito pelo Senhor nas Tábuas de Pedra de Moisés: Não Tomar Seu Santo Nome em Vão.

Martin Wolf, em magnífico artigo no jornal Valor de 26 de setembro, comentou o livro recente de Yascha Mounk, da Universidade Harvard: “Mounk argumenta que tanto o ‘liberalismo não democrático’ quanto a ‘democracia não liberal’ ameaçam a democracia liberal. Sob a primeira, a democracia é fraca demais: os laços sociais e a segurança econômica são sacrificados no altar da liberdade individual.

Sob esta última, o liberalismo é fraco demais: o poder é capturado por demagogos que governam em nome de uma maioria raivosa ou, pelo menos, de uma minoria de bom tamanho, que é convencida de que constitui ‘a verdadeira população’. O liberalismo não democrático acaba no domínio da elite. A democracia não liberal acaba em domínio autocrático.

O argumento de Mounk, além disso, é o de que o liberalismo não democrático, notadamente o liberalismo econômico, explica em grande medida a ascensão da democracia não liberal: ‘Grandes porções de política pública são isoladas da contestação democrática’. Ele aponta para o papel dos bancos centrais independentes e para a maneira pela qual o comércio exterior é regulamentado por acordos internacionais criados por negociações sigilosas realizadas dentro de instituições remotas”.

A história das sociedades contemporâneas trouxe o mercado como instância dominante da sociabilidade, o que supõe o “indivíduo livre” cujas ações egoístas ameaçam, para o bem e para o mal, a estabilidade do conjunto. Essa forma peculiar de sociabilidade torna difícil a mediação do conflito entre os impulsos egoístas de acumulação de riqueza e a construção do espaço democrático e republicano, relação contraditória que só pode ser mediada precariamente pela política e pelo direito.

No entanto, a história recente da Sul América registra episódios singulares entre ditadores e liberais econômicos. Não eram exóticos os carinhos entre o general Augusto Pinochet e os Chicago Boys, as crias de Milton Friedman, no Chile dos anos 1970 e 1980. Tampouco na desditada Argentina o general Jorge Videla sentiu incômodos diante das políticas ultraliberais e desastrosas do economista Martínez de Hoz.

O então celebrado (ou celerado?) ministro enfiou seu país no endividamento externo depois do choque do petróleo, recurso natural que sobrava nos Pampas. Martínez de Hoz argumentava, então, que a abertura da economia ao ar fresco da concorrência externa e à abundância de petrodólares baratos iria levar a economia argentina ao pódio dos países desenvolvidos. Os fatos sugerem que essa esperança não se concretizou.

A peculiaridade dessas inefáveis experiências ditatoriais sul-americanas é o arranjo entre autoritarismo político e “cosmopolitismo” liberal na economia. Nada há de estranho ou estapafúrdio, portanto, no contubérnio Paulo Guedes - Jair Bolsonaro. A dupla promete um novo capítulo na tragicomédia do liberal-autoritarismo periférico.

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