A tentação una e trina da idolatria vencida por Jesus. Artigo de Giannino Piana

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24 Setembro 2018

“O mysterium iniquitatis, como o Apocalipse define com uma expressão incisiva, continua sendo inviolável. O enigma, portanto, permanece em sua inteireza. Mas a vitória de Jesus sobre o maligno abre caminho para a esperança.”

A análise é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas, em artigo publicado por Corriere della Sera, 23-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O episódio das tentações de Jesus, relatado com algumas pequenas variações por dois Evangelhos sinóticos, o de Mateus (4, 1-11) e o de Lucas (4, 1-13) – em Marcos há apenas uma breve menção (Mc 1, 12s) – teve, ao longo do tempo, uma ampla ressonância no campo artístico e literário.

O “não” radical do Filho de Deus às adulações do demônio tornou-se objeto de representações pictóricas de grande sugestão e de curiosas (às vezes conflitantes) interpretações teológicas – como não lembrar do “Grande Inquisidor” de Dostoiévski? – unidas pelo desejo de mostrar a vitória do bem sobre o mal.

O relato evangélico não deixa de surpreender. A “provação” ocorre em um contexto particular: o deserto, escolhido por Jesus para dar início à “vida pública” jejuando e rezando. A astúcia do demônio está em ouriçar o desejo profundo (e desviante) do homem, que o leva a reivindicar a própria autonomia e autossuficiência radicais, abrindo mão de Deus ou, melhor, substituindo-se a ele.

A resposta de Jesus não tarda. A rejeição do milagre como simples manifestação de poder em proveito próprio – a transformação das pedras em pão –, a negação do poder mundano – o senhorio sobre os reinos da terra – e, por fim, (mas não por último em ordem de importância), a renúncia a curvar Deus às próprias exigências, pondo-o à prova, são sinais da mesma fidelidade absoluta do Filho à vontade do Pai.

Os estudos exegéticos mais recentes detectam como as três tentações dizem respeito, na realidade, a uma só: a solicitação a transgredir o primeiro mandamento, aquele que ordena a não fazer nenhuma imagem de Deus e a não o nomear a fim de salvaguardar a sua transcendência absoluta.

Desse modo, o episódio adquire um valor simbólico; marca com clareza a linha de demarcação entre a religião verdadeira e a falsa, entre a fé autêntica e o recurso à idolatria. Mas o episódio das tentações introduz mais um elemento de reflexão, ligado à presença do outro protagonista, o “tentador”.

O “não” de Jesus não se limita simplesmente a rejeitar as propostas de Satanás; é, mais radicalmente, um “não” à sua pessoa, como representação do mal absoluto. E, por isso, levanta a inquietante questão da origem do mal; questão que, apesar das muitas tentativas de filósofos e teólogos de lhe dar uma interpretação, ainda não encontrou respostas satisfatórias.

O mysterium iniquitatis, como o Apocalipse define com uma expressão incisiva, continua sendo inviolável. O enigma, portanto, permanece em sua inteireza. Mas a vitória de Jesus sobre o maligno, graças ao poder da Palavra (“Está escrito”), abre caminho para a esperança. E solicita o compromisso de cada um para trabalhar para que o mal seja derrotado todos os dias e cada vez mais dê espaço para a presença na história do reino do Senhor.

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