Viganò, o ''Savonarola de Varese'': do exílio nos EUA ao confronto com Bergoglio

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04 Setembro 2018

Alguém até o definiu como o “Savonarola de Varese”. Na realidade, Dom Carlo Maria Viganò, o ex-núncio nos Estados Unidos que pediu a renúncia do Papa Francisco, não sinaliza que vai baixar o tom em relação a Bergoglio. Mas a linha de silêncio continua no Vaticano.

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada em Il Fatto Quotidiano, 03-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O nome de Viganò saltou para a crônica durante o escândalo do Vatileaks 1, em 2012, quando, entre muitos documentos confidenciais de Bento XVI tornados públicos, havia também algumas cartas do núncio.

Nascido em Varese em 1941, o diplomata foi ordenado padre em 1968 e incardinado na Diocese de Pavia. De lá, foi uma ascensão contínua. Viganò frequentou a Pontifícia Academia Eclesiástica que forma os sacerdotes destinados ao serviço diplomático da Santa Sé nas nunciaturas de todo o mundo e na Secretaria de Estado.

O homem logo chamou a atenção e gerou estima, sendo chamado pelo então substituto, ou seja, o ministro do Interior vaticano, Dom Giovanni Benelli, como seu secretário, junto com o argentino Leonardo Sandri, hoje cardeal prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais.

Eram os anos de Paulo VI, de quem Benelli era aluno e herdeiro, e ao qual deveria suceder nos dois conclaves de 1978.

Aqueles que trabalharam lado a lado com Viganò na Secretaria de Estado falam dele como um homem escrupuloso, preparado e imerso no trabalho. Em 1989, João Paulo II o nomeou observador permanente da Santa Sé junto ao Conselho da Europa. Em 1992, Wojtyla também o nomeou arcebispo, ordenando-o pessoalmente em São Pedro, e o enviou como núncio apostólico à Nigéria.

“A Igreja te envia, Dom Carlo Maria Viganò, - disse-lhe João Paulo II na homilia – como pró-núncio apostólico na Nigéria, com a tarefa de que tu sejas testemunha da solidariedade da Igreja para com as jovens Igrejas daquela grande nação africana, compartilhando com elas a alegria do anúncio evangélico.”

Depois de seis anos, em 1998, o papa polonês chamou-o novamente para Roma, confiando-lhe o prestigioso cargo de delegado para as representações pontifícias na Secretaria de Estado. Um observatório privilegiado a partir do qual Viganò tinha a direção de todas as nunciaturas do mundo. Foi aí que o diplomata encontrou-se com Dom Sandri, que, de 2000 a 2007, entre os pontificados de Wojtyla e Ratzinger, assumiu o papel de substituto.

Para Viganò, porém, o cenário mudou completamente com a chegada do cardeal Tarcisio Bertone à cúpula da Secretaria de Estado no lugar de Angelo Sodano. De fato, entre os dois, os confrontos eram cada vez mais frequentes, a ponto de convencer o purpurado salesiano a transferir o núncio como secretário do Governatorado do Estado da Cidade do Vaticano.

Foi que Viganò, mais uma vez, se fez valer e curou uma situação de déficit e corrupção gigantesca. O núncio se encontrava bem trabalhando junto com o cardeal Giovanni Lajolo, que, como ele, havia ido transferido da Secretaria de Estado ao Governatorado como presidente.

Viganò não escondia a sua esperança de suceder Lajolo, nascido em 1935, e de ser nomeado cardeal por Bento XVI. Sua esperança, porém, despedaçou-se quando Bertone decidiu afastá-lo de Roma e, no fim de 2011, fez com que ele fosse nomeado por Ratzinger como núncio em Washington.

Viganò fez de tudo para não partir. Pediu para ser recebido por Bento XVI e tentou resistir ao exílio nos Estados Unidos, dizendo que, desse modo, o seu trabalho de moralização do Governatorado viraria fumaça de uma só vez. “Beatíssimo Padre – escreveu Viganò a Ratzinger – a minha transferência do Governatorado provocaria uma profunda confusão naqueles que acreditaram que era possível curar tantas situações de corrupção”.

O núncio chegou até a pedir que o papa alemão adiasse a sua partida, porque devia assistir ao seu irmão sacerdote doente. No entanto, os dois não se falavam há vários anos por maus-humores ligados a uma herança. Bento XVI não voltou atrás em relação à sua decisão para não desmentir Bertone, e Viganò foi forçado a partir. Nos Estados Unidos, a relação com os bispos estadunidenses era bastante boa.

Enquanto isso, em Roma, Bento XVI renunciou, e o latino-americano Bergoglio o sucedeu. O núncio confiou em um retorno ao Vaticano como vencedor, talvez com a púrpura tão desejada. Havia quem falasse de um verdadeiro “ressarcimento”.

Em 2015, a viagem de Francisco aos Estados Unidos foi um triunfo. A acolhida na Casa Branca com o então presidente Obama, o discurso no Congresso dos Estados Unidos, que pela primeira vez acolhia um papa, e o da ONU foram um sucesso. Bergoglio, como de praxe, foi hóspede do núncio apostólico Viganò, que esperava ter posto o selo definitivo no seu retorno a Roma. E, sobretudo, esperava ter finalmente conquistado o barrete vermelho.

Mas o papa não o transferiu de Washington, nem o nomeou cardeal, e, ao completar 75 anos, a idade canônica da renúncia, ele se limitou a mandá-lo para a aposentadoria.

O núncio voltou ao Vaticano onde, em Santa Marta Vecchia, um edifício ao lado da residência de Bergoglio, havia mantido o seu apartamento, levando consigo as chaves para os Estados Unidos. Mas Francisco quis que ele o deixasse e lhe informou que não gostaria nem mesmo que ele fosse morar na residência dos núncios em repouso, na Via dell’Erba, uma travessa da Via della Conciliazione, a poucos passos de São Pedro.

Um exílio no exílio. Viganò ficou duplamente ferido e, segundo alguns colaboradores próximos do papa, meditou a vingança a ser servida obviamente fria. Muitos na Cúria Romana enfatizam que ele é certamente alguém que tem os dossiês que importam e que, pelos cargos que desempenhou em mais de 40 anos de serviço diplomático, especialmente na Secretaria de Estado, seguramente está na posse de informações que poderiam fazer muito mal para esse pontificado, mas também para os dois anteriores.

O jogo, em suma, não está nada encerrado. Até porque Viganò, que já interveio três vezes para atacar o papa e os seus principais colaboradores, não tem nenhuma intenção de voltar atrás.

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