Inteligência artificial na África: “O risco de captação de valor existe”. Entrevista com Cédric Villani

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23 Junho 2018

A criatividade africana impulsionada pela inteligência artificial. O matemático, que saúda a emergência de um verdadeiro ecossistema digital, alerta para os perigos de parcerias com os gigantes da internet.

O matemático Cédric Villani, medalha Fields 2010 e deputado do Departamento de Essonne (A República em Movimento), liderou a missão parlamentar sobre a inteligência artificial (IA), cujo relatório foi apresentado ao governo francês no dia 29 de março passado. Ele trabalhou com os Institutos Africanos de Ciências Matemáticas (AIMS) e o Next Einstein Forum, em Kigali, na Ruanda.

Alguns dias depois dessa entrevista, o Google anunciou, na quarta-feira, 13 de junho, a criação de seu primeiro centro de pesquisa de inteligência artificial em solo africano, em Acra, Gana. Para essas pesquisas, que serão especializadas em saúde, agricultura e educação, o gigante da internet lançou, na esteira das redes sociais, uma convocação para candidatos para pesquisadores em “machine learning”.

A entrevista é de Laure Belot, publicada por Le Monde, 18-06-2018. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

As aplicações de inteligência artificial estão surgindo na África na educação, no meio ambiente, na saúde, etc. O que isso significa?

Em primeiro lugar, é uma notícia muito boa ver atores empresariais surgirem em um continente em que, tradicionalmente, o serviço público foi, há muito tempo, a carreira mais procurada. Este surgimento da inteligência artificial é possível porque a barreira de entrada em termos de estudo, sobre este assunto, é menos importante do que em outros campos científicos. Se tivermos uma boa ideia, o custo do desenvolvimento inicial é, além disso, relativamente pequeno. O que é caro, o que é difícil, é ter o material e os bancos de dados. A dificuldade, então, o que dá valor a essas aplicações, é encontrar um uso e o modelo econômico que o acompanha.

Um sistema D é colocado em prática. Para se desenvolver, esses empreendedores participam de hackatons, competições internacionais de inovação...

Podemos ver essa tendência em claro e em escuro. Em claro, vemos emergir uma verdadeira vontade e atores empreendedores que assumem o comando. Em um pouco mais obscuro, tudo isso emerge fora do sistema, no contexto de um continente que tem tanta dificuldade em para endireitar suas instituições no plano político, educativo e universitário. Está borbulhando e, ao mesmo tempo, a universidade africana está lutando para decolar, apesar do talento de alguns estudantes altamente motivados e de alguns acadêmicos de renome. Estas iniciativas africanas muito ágeis são apoiadas principalmente não por governos do continente, instituições universitárias ou empresariais locais, mas por gigantes internacionais.

Nós assistimos a uma “corrida ao ecossistema” por parte de grandes grupos, como o Facebook ou a IBM, muito ativos na identificação e no acompanhamento dessas start-ups em sua caminhada rumo à inteligência artificial...

As grandes plataformas têm uma vantagem: elas oferecem a esses empresários do “all included”, “tudo integrado”. Quando a IBM, o Facebook ou a Amazon oferecem uma tecnologia, a empresa pode dizer, ao mesmo tempo: aqui está o programa, as condições e os produtos que o acompanham. Ao propor essa abordagem global a um empreendedor, o grupo o integra de fato em uma comunidade, um ecossistema. Não é apenas um contrato sobre um projeto.

Você considera isso um risco ou uma oportunidade para o desenvolvimento da África?

Eu não vejo muito risco para os empreendedores em si mesmos; para eles é uma grande oportunidade. O principal problema se coloca, de maneira mais difusa, para os governos e as instituições. Existe o risco de captação do valor e da competência por instituições estrangeiras. Isso é um pouco parecido com o que já vimos na França: as grandes plataformas são as concorrentes número um do governo francês para o desenvolvimento da inteligência artificial.

Essas grandes plataformas captam todo o valor agregado: o dos cérebros que recrutam e o dos aplicativos e serviços, pelos dados que absorvem. A palavra é muito forte, mas tecnicamente é uma abordagem de tipo colonial: você explora um recurso local criando um sistema que tira o valor agregado para a sua economia. Isso se chama cibercolonização.

Então, estamos assistindo a uma cibercolonização da África?

É um pouco cedo para dizer... Mas é possível, se não tivermos cuidado, que o que vai acontecer na África esteja na continuidade do que já aconteceu no passado no mundo ocidental. A cibercolonização não será tão violenta quanto a colonização histórica, certamente. Mas em termos econômicos, ela pode ser extremamente poderosa. É um risco para a sociedade, para as sociedades como um todo, porque tudo o que é tomado pelas empresas privadas serve para defender os interesses das empresas privadas, e não o interesse comum ou geral de um país.

É uma questão de relação de forças. Ao mesmo tempo, não podemos culpar as grandes plataformas em questão, que desenvolvem legitimamente seus interesses. Elas não infringem a lei, elas dão uma chance aos empreendedores. Elas participam da transferência de competências. E trarão muito aos Estados que saberão colaborar com elas em uma relação que não seja muito desequilibrada.

Que pistas você recomendaria?

Não é preocupante que um continente em desenvolvimento esteja sendo ajudado por outros continentes onde a tecnologia está mais desenvolvida. Mas se o caso é de longo prazo em sentido único, é preocupante e nocivo. É importante desenvolver instituições africanas públicas e privadas de alto nível: universidades, centros de formação, mas também empresas que possam ajudar e financiar iniciativas locais. E também é necessário desenvolver fundos de financiamento africanos, empresas africanas que façam bom uso da inteligência artificial, uma boa interação entre a pesquisa africana e a economia africana.

Africanos cada vez mais conectados

A África entrou definitivamente na era da telefonia celular. “A taxa de equipamentos está agora em torno de 100% e, em muitas partes do continente, o celular é a única maneira de se comunicar”, diz Karim Koundi, diretor associado da Deloitte Afrique. Os africanos, cada vez mais acostumados a estar conectados em qualquer lugar e instantaneamente, optam pelo smartphone, cujo crescimento é exponencial. “O número de aparelhos, atualmente 350 milhões, deve dobrar até 2020”, diz o especialista.

Todos os habitantes do continente ainda não remam na mesma galera. Os usos dos telefones celulares são diferentes “entre os países costeiros, onde a qualidade da conexão é melhor e os preços das comunicações são mais baixos, e os outros, como o Chade e o Níger, mais isolados; mas a diferença está diminuindo”, analisa Karim Koundi. Agora, segundo ele, “80% do território habitado” é coberto por redes de telefonia móvel.

Os cidadãos africanos adotam hábitos de uso similares aos de outros continentes. “Para falar uns com os outros pelo celular, eles usam cada vez menos a voz e preferem conectar-se por aplicativos como o Facebook Messenger, WhatsApp e Skype”. Uma evolução com consequências econômicas diretas: “Os operadores de telecomunicações estão ameaçados de se tornarem apenas fornecedores de tubos. A inteligência se desloca para os serviços e os aplicativos”, observa Karim Koundi. Os aplicativos escolhidos, Facebook Messenger, WhatsApp e Skype pertencem, respectivamente, ao Facebook e à Microsoft.

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