Proibição de mulheres sacerdotes parece não ser doutrina estabelecida em 1992

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15 Junho 2018

Comecei minha carreira no jornalismo trabalhando no arquivo, a sala cheia de armários com as notícias antigas do jornal, cuidadosamente recortadas de cada edição e meticulosamente separadas, classificadas e arquivadas em envelopes A4 amarelos. Eu amava analisar os arquivos antigos, ler os recortes frágeis e amarelados de notícias sobre eventos e pessoas de muito tempo atrás.

O comentário é de Dennis Coday, publicado por National Catholic Reporter, 14-06-2018 . A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Tive um gostinho dessa época recentemente quando estava pesquisando sobre a ordenação de mulheres. (Embora tenha feito a pesquisa sem precisar ter medo de pó e de desfazer o papel. Agora os arquivos são eletrônicos — e o nome ganhou até outra conotação. Não existe nem um lugar físico mais, apenas um ícone na tela e espaço num disco rígido.) Encontrei verdadeiros tesouros olhando histórias antigas, como esta manchete surpreendente de 23 de outubro de 1992: "Bispo Untener III desafia o sacerdócio masculino" (no original, em inglês, Bishop Untener 3rd to challenge male priesthood). Trata-se do falecido bispo de Saginaw, Michigan, Ken Untener.

A edição de outono da publicação diocesana, Seasons, foi totalmente dedicada ao tema "As mulheres e a Igreja", e continha um ensaio de 2.000 palavras de Untener que explorava a questão da ordenação das mulheres. A questão "claramente tem argumentos de ambos os lados que não podem ser considerados de forma leviana", escreveu ele. Era outubro.

No mês anterior, Michael Kenny, Bispo de Juneau, Alasca, havia publicado um artigo na América dizendo que achava insatisfatórios os argumentos defendidos por Roma contra a ordenação de mulheres. Uma semana depois, P. Francis Murphy, bispo auxiliar de Baltimore, escreveu na Commonweal que acreditava que as mulheres deveriam ser ordenadas por questões de "justiça".

Claramente, algo estava no ar no outono de 1992. Isso dá credibilidade à ideia de que a proibição da ordenação feminina não foi claramente estabelecida no "magistério ordinário e universal" em 1994, quando o Papa João Paulo II emitiu a carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, que explicava por que as mulheres não podem ser ordenadas padres católicos apostólicos romanos.

Mas o verdadeiro tesouro do NCR de 1992 foi a notícia da página seguinte: o perfil de Untener, escrito pelo correspondente de assuntos do Vaticano, o incomparável Peter Hebblethwaite. É um grande retrato de um grande bispo. Segue uma pequena amostra:

Na reunião dos bispos dos Estados Unidos em novembro de 1990, Untener levantou algumas questões sobre um projeto de orientações para a educação sexual.

Após reafirmar a doutrina de Humanae Vitae, o documento dava espaço à "esperança de que a lógica expressada aqui é convincente".

Untener questionava se "convincente" era a palavra certa. O ensino é "não é convincente para as pessoas em geral", disse ele aos colegas bispos, "não é convincente para os leigos católicos, não é convincente para muitos sacerdotes e não é convincente para muitos bispos".

Comentando sobre a "sincera crença [do documento] de que Espírito Santo de Deus está agindo através do Magistério... no desenvolvimento da doutrina", Untener acrescentou que também temos "uma sincera convicção de que o Espírito Santo age através de todo o povo de Deus no desenvolvimento da doutrina".

O sensus fidelium é mais do que uma pesquisa de opinião, e não se trata de quantidade de pessoas. Mas "quando as pessoas discordam” da gente, acrescenta Untener, "não devemos presumir que é mera opinião", o que acontece "na cabeça e no coração do nosso povo deve valer alguma coisa".

O documento considerado chamava os “dissidentes” a estudar e rezar por sua posição. Untener tem uma resposta muito característica: "Eles não poderiam nos dizer: "Fazemos... se vocês fizerem, e vamos fazer juntos"? Será que esse processo enfraqueceria a autoridade dos bispos ou na verdade reforçaria nossa autoridade?"

Depois, Untener faz as perguntas que geralmente são reprimidas. As perguntas reprimidas não desaparecem, elas ficam escondidas e envenenam a vida da Igreja. Mas esta é a minha forma de falar, não de Untener. Ele é extremamente cuidadoso para não falar com recriminação, acusação ou violência.

"Faço perguntas de forma direta e em voz alta", concluiu o discurso aos bispos em 1990, "por estar convicto de que se nós não perguntarmos, sem querer estamos causando grandes danos à credibilidade e à unidade da Igreja que amamos".

O ano de 1992 era uma época anterior à Internet no NCR. Por isso, esses dois artigos não foram imediatamente disponibilizados on-line. Mas agora estão disponíveis: "Untener 3rd bishop to challenge male priesthood" e "Saginaw Bishop Untener 'There goes a shepherd'" (em inglês).

Untener, que liderou a diocese de Saginaw, Michigan, por 24 anos, morreu de leucemia no dia 27 de março de 2004. Ele tinha 66 anos. Seu obituário dizia: "Bispo Untener: um estilo de liderança que ia contra os ventos da maioria."

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