Hospitalidade eucarística: uma freada brusca do Vaticano

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08 Junho 2018

Uma carta do pontífice aos bispos alemães bloqueia um percurso de comunhão para os casais mistos católico-protestantes, que parecia estar bem encaminhado.

A reportagem é de Claudio Geymonat, publicada em Riforma, 07-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O verdadeiro “furo” jornalístico ligado à visita que a delegação do Comitê Nacional Alemão da Federação Luterana Mundial (FLM) realizou nos últimos dias ao Vaticano foi dado com precisão por Sandro Magister no seu blog hospedado pelo site da revista L’Espresso. Nas mesmas horas em que os evangélicos alemães atravessavam os Muros Leoninos, acompanhados também pela italiana Cordelia Vitiello, vice-presidente do Consistório da Igreja Evangélica Luterana na Itália (Celi), recebendo do Papa Francisco uma exortação para “não correr impetuosamente para ganhar metas ambiciosas, mas caminhando juntos com paciência. sob o olhar de Deus”, chegava aos bispos católicos alemães uma carta do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Luis Francisco Ladaria Ferrer, cujo conteúdo tinha sido estabelecido com o próprio papa nos dias anteriores.

E se trata de um conteúdo de peso, um verdadeiro fechamento sobre o tema da eucaristia para os casais mistos católico-luteranos, tema que, nestes meses, desencadeou muito debate na Alemanha e não só.

A questão foi reenviada a uma reflexão mais madura, que não pode chegar de uma única conferência nacional (a alemã, neste caso), mas deve ser implementada pela Igreja universal em relação a um assunto espinhoso que pode modificar as relações com as outras comunidades eclesiais.

Em síntese extrema, repassemos as etapas do caso: em 22 de fevereiro deste ano, durante sua última assembleia, a Conferência Episcopal Alemã anunciou a publicação de um guia pastoral sobre a partilha da eucaristia pelos casais interconfessionais.

Um guia pastoral que previa aberturas para os inúmeros casais formados por um protestante e por um católico, casais unidos na vida de todos os dias, mas separados na mesa do Senhor. A abertura proposta ainda não era generalizada: seria necessário decidir caso a caso, e a decisão final deveria caber aos responsáveis pelo cuidado das almas, aos quais o documento é dirigido principalmente.

Nas semanas seguintes, sete bispos alemães se dirigiram ao prefeito Ladaria e ao presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Kurt Koch, para pedir esclarecimentos sobre uma iniciativa que os signatários acreditam que viola a unidade da Igreja, porque passa por cima de decisões que devem vir do Vaticano.

Com pressa e fúria, nos primeiros dias de maio, foi organizada uma audiência no Vaticano, da qual participaram vários bispos alemães, entre eles o cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal Alemã, recebido por Koch e pelo próprio Ladaria.

Nessa ocasião, haviam sido relatadas as palavras do pontífice, que, em essência, exortavam os bispos alemães a continuarem no diálogo e a chegarem possivelmente a uma decisão unânime. Nenhuma referência, portanto, a um diktat que caía de cima, mas sim o forte desejo de uma solução compartilhada e não divisiva.

Agora, porém, o balde de água fria, com esta última carta que, embora elogie os esforços ecumênicos da Conferência Episcopal Alemã e da EKD, a Igreja Evangélica na Alemanha, ressalta que o texto apresentado em primeira instância levanta problemas de notável relevância.

Por isso, afirma-se: “O Santo Padre, por isso, chegou à conclusão de que o documento não está maduro para ser publicado”.

Os motivos listados, por pontos:

a) A questão da admissão à comunhão de cristãos evangélicos em matrimônios interconfessionais é um tema que toca a fé da Igreja e tem uma relevância para a Igreja universal.

b) Tal questão tem efeitos sobre as relações ecumênicas com outras Igrejas e outras comunidades eclesiais, que não devem ser subestimadas.

c) O tema diz respeito ao direito da Igreja, principalmente à interpretação do cânone 844 do Código de Direito Canônico. Visto que, em alguns setores da Igreja, há questões em aberto a esse respeito, os dicastérios competentes da Santa Sé já foram encarregados de produzir um esclarecimento oportuno de tais questões no nível da Igreja universal. Em particular, parece oportuno deixar ao bispo diocesano o julgamento sobre a existência de uma “grave necessidade iminente”.

d) Para o Santo Padre, é uma grande preocupação que, na Conferência Episcopal Alemã, permaneça vivo o espírito da colegialidade episcopal. Como o Concílio Vaticano II sublinhou, “as Conferências Episcopais podem trazer hoje uma contribuição múltipla e fecunda, a fim de que o senso de colegialidade se realize concretamente” (constituição dogmática Lumen gentium, n. 23).”

Se isso não é uma pedra tumular sobre os esforços ecumênicos realizados nesses anos e selados pelas grandes cerimônias de 2017, ligadas aos 500 anos da Reforma Protestante, falta pouco.

Tanto que, quase imediatamente, chegou a resposta admirada do cardeal Marx, expressada nestes termos:

“No colóquio de 3 de maio de 2018, em Roma, disse-se aos bispos participantes que eles deviam encontrar ‘um resultado possivelmente unânime, em espírito de comunhão eclesial’. O presidente, por isso, está surpreso que essa carta tenha chegado de Roma, antes mesmo de ter se encontrado tal solução concorde. O presidente vê expressada na carta a necessidade de mais colóquios dentro da Conferência Episcopal Alemã, acima de tudo no conselho permanente e na assembleia plenária de outono, mas também com os respectivos dicastérios romanos e com o próprio Santo Padre.”

Lund e as declarações feitas naquele 31 de outubro de 2016 sobre a “responsabilidade pastoral comum” de responder à “fome e sede espirituais” de muitos fiéis que desejam “receber a eucaristia na mesma mesa, como expressão concreta da plena unidade” parecem estar muito longe agora.

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