A revolução das ciências sociais por Aníbal Quijano. Entrevista com César Baldi, Fernanda Bragato e Nelson Maldonado-Torres

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 07 Junho 2018

O sociólogo peruano Aníbal Quijano, membro-fundador do grupo Modernidade/Colonialidade — M/C, foi um dos principais pesquisadores do pensamento decolonial. Ao longo de seus 90 anos de idade tornou-se referência da ciências sociais latino-americanas pela conceituação de colonialidade do poder. Faleceu na madrugada de 31 de maio, deixando um legado que se expande para academia e para a política da América Latina.

Aníbal Quijano | Foto: Carlos Pozo

Em entrevista ao IHU On-Line, César Augusto Baldi, Fernanda Frizzo Bragato e Nelson Maldonado-Torres explicaram a relevância do trabalho de Quijano para as ciências sociais latino-americanas.

Aníbal Quijano viveu até os 90 anos dedicando sua vida para a pesquisa acadêmica. Formado na Universidade Maior de São Marcos, em Lima, a primeira criada na América. Teve influência do marxismo latino-americano e a partir das década de 1990 dedicou-se a pensar uma teoria de descolonização. Maldonado-Torres, professor membro do grupo M/C, aponta que "sua obra é referência essencial para entender a modernidade ocidental, a América Latina e a envergadura do giro decolonial na e mais além da América Latina".

O grupo M/C expandiu para todas as áreas das ciências humanas a proposta de pensamento decolonial. No Brasil são registrados mais de cinquenta grupos de pesquisa no CNPq com essa linha de pesquisa. Fernanda Bragato ressalta a relevância do legado do peruano: "Quijano revolucionou as ciências sociais e hoje se tornou obsoleto falar em assimetria de poder sem reconhecer os efeitos da colonialidade e sem discutir criticamente o legado da modernidade".

O conceito de colonialidade do poder desenvolvido por Aníbal Quijano apontou novas formas de análise histórica do capitalismo, da modernidade e da colonização. "Quijano é um autor fundamental para destacar como o racismo é invisibilizado na América Latina, como é processo colonial é fundamentalmente racista e como são feitas as classificações sociais, a partir do processo da colonialidade do poder", destaca César Baldi.

César Augusto Baldi/ Foto: Empório do Direito

César Augusto Baldi é pós-graduado em Direito Político pela Unisinos, mestre em Direito pela Universidade Luterana do Brasil no Rio Grande do Sul – Ulbra/RS e doutor na Universidad Pablo Olavide (Espanha). É organizador dos livros Direitos Humanos na sociedade cosmopolita (Renovar, 2004) e Aprender desde o Sul (Fórum, 2015).

 

 

 

Fernanda Bragato/ Foto: Ricardo Machado | IHU

Fernanda Frizzo Bragato possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestrado em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e doutorado em Direito pela mesma instituição, tendo realizado pós-doutorado na University of London (School of Law – Birkbeck College), Inglaterra.

 

 

  

Nelson Maldonado-Torres/ Reprodução: Youtube

Nelson Maldonado-Torres possui graduação em filosofia na Universidade de Porto Rico, é PhD em Estudos Religiosos pela Brown University, de Rhode Island, EUA. Atualmente é professor associado do Departamento de Estudos Latinos e Caribenhos e do Programa de Literatura Comparada, na Rutgers University, em Nova Jérsei, EUA. É membro da diretoria executiva da Frantz Fanon Foundation, da França e pesquisador do grupo Modernidade/Colonialidade.

 

Confira as entrevistas

IHU On-Line — Qual a mudança que Aníbal Quijano propôs às ciências latino-americanas?

César Augusto Baldi — Quijano foi fundamental para, nas ciências sócias latino-americanas, se dar atenção à raça como fundante nas questões. Foi um teórico que procurou mostrar a construção social da raça juntamente com a modernidade e a "invenção" da América. Ele faz um giro distinto de outros autores em vários pontos. Para ele, não é a Europa que descobre a América e, com isso, se torna fundante o eurocentrismo; antes, é a chegada à América que permite a construção de toda a grelha teórica que vai fundamentar o eurocentrismo. E não é à toa que um dos textos fundantes da teoria tenham sido escrito justamente com Immanuel Wallerstein, mostrando que o sistema mundo moderno era, de fato, o sistema mundo colonial-moderno. É por isso que ele dizia que a América, a modernidade e o capitalismo nasciam no mesmo dia, em 1492. Com isso, ele salienta, mais que Enrique Dussel, porque a primeira modernidade é esquecida, e como a presença islâmica e negra foi ignorada na construção da Ibéria. Além disso, ele parte do ponto da heterogeneidade estrutural, um ponto pouco salientado pelas pessoas que divulgam sua teoria no geral, ou seja, que havia uma complexidade maior das estruturas que se moviam juntas, conforme se alteravam determinados parâmetros. Ele era muito herdeiro de José María Arguedas e José Carlos Mariátegui, para o qual escreveu um prólogo sobre os Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Além disso, em especial a partir do artigo sobre colonialidade do poder e classificação social, vai destacar a questão de gênero, no que Yuderkis Spinoza, Rita Segato, Maria Lugones e Ochy Curiel acabam fazendo novos aportes e mostram as divergências em relação ao quadro teórico dele, apontando tais autores as relações entre raça e gênero dentro do ponto de vista da colonialidade.

O colonialismo como sistema político não era mais central, desde a descolonização da África, mas o que Quijano aponta é uma matriz colonial centrada na raça que permanece tanto na primeira onda colonial nas Américas, quanto na segunda da África e Ásia, quanto persistente nos dias de hoje. Porque, para ele, não há modernidade sem colonialidade, mas também não há colonialidade sem falar de raça. Muitas pessoas que ficam salientando a teoria decolonial voltam a apagar a presença da raça. Não fosse isso, não havia motivo para um artigo do Quijano sobre Mariátegui intitulado justamente Que tal, raça?. E daí uma das distinções de aporte em relação aos pós-coloniais; estes, no geral de ex-colônias britânicas, tem em conta a hegemonia de Inglaterra e Estados Unidos, ignorando que o processo já iniciaria com Portugal e Espanha e se mantinha enquanto padrão de poder. Por isso, Quijano não usa a expressão subalternidade e não fala em descolonização, porque a colonialidade ainda vigora.

IHU On-Line — Como a teoria de Quijano sobre a colonialidade segue vigente na América Latina?

César Augusto Baldi — Quijano é um autor fundamental para destacar como o racismo é invisibilizado na América Latina, como é processo colonial é fundamentalmente racista e como são feitas as classificações sociais, a partir do processo da colonialidade do poder. Depois deles, autoras procuraram mostrar sua pouca atenção ao gênero e com isso vieram novos aportes afros e feministas para a discussão. Ele procurou mostrar que algumas discussões não eram da nossa ambiência, do "mundo do lado de cá" e sim da Europa. Não à toa, autoras como Ochy, Thula Pires e Yuderkis, todas negras, têm salientado a não pertinência, para a América "Latina", de discussões sobre interseccionalidade, muito a partir dos aportes de Maria Lugones e das discussões que Rita Segato, sua maior divulgadora, vêm fazendo.

Além disso, a América Latina (uma invenção também colonial, como mostra Mignolo) apagou a discussão com os mitos da democracia racial, ao passo que Quijano mostra que a questão da raça é fundamentalmente para entender todo o processo de classificação social, de construção do que é ou não moderno, do que é visto como importante, de tal forma que o eurocentrismo é uma manifestação de racismo epistêmico, algo que muitxs pensadorxs fazem questão de esquecer. O capitalismo é fundamentalmente um capitalismo racial.

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IHU On-Line — Qual a importância do conceito de colonialidade do poder para as ciências sociais?

Fernanda Frizzo Bragato — O conceito de colonialidade do poder abriu os horizontes dos cientistas sociais porque desvelou aquilo que estava encoberto por uma leitura comprometida com a exaltação da modernidade e com a preservação do seu legado: a colonialidade, ou seja, o lado obscuro da própria modernidade. De fenômeno secundário, o colonialismo é deslocado para o centro da formação das relações assimétricas de poder da modernidade. Embora o colonialismo, como processo de ocupação e/ou administração remota de territórios tenha praticamente chegado ao fim na década de 70, a colonialidade é a característica marcante das relações de poder que se impuseram a partir da modernidade. Embora o liberal-individualismo parta de uma abstrata igualdade entre todos os indivíduos, a concepção de liberdade que o define é intrinsecamente ligada à de propriedade/apropriação. Mas não há espaço para que todos prosperem/acumulem, nem a menor possibilidade que o mundo circundante suporte o modelo de acumulação que orienta as sociedades humanas desde que a Europa se projetou como líder do assim chamado processo civilizatório. Por isso, efetivas estruturas de poder colonial foram sendo construídas na modernidade para expurgar o máximo de gente possível da categoria de humano e, para isso, as ideias de raça e gênero jogaram papel fundamental. Os discursos coloniais que representaram o(a) outro(a) não-europeu como um(a) degenerado(a), um ser inferior, continuam funcionando a pleno vapor para manter grande parte da humanidade excluída de sua real capacidade de ser livre. Muitos são simplesmente descartáveis (os (as) indígenas, os(as) refugiados(as)); outros são úteis para a exploração do trabalho (os(as) negros(as), latinos(as) e os asiáticos(as) pobres em seus próprios países); outras para reforçar o papel de dominação burguesa-patriarcal (mulheres).

IHU On-Line — Qual a importância de Quijano para a ciência latinoamericana?

Fernanda Frizzo Bragato — Quijano nos legou essa importante chave de leitura para compreender a modernidade e o capitalismo em sua relação centro-periferia. Uma relação que, ao refletir a lógica colonial, desde o momento da conquista da América até a ocupação da África, se sustenta em processos de desumanização, que é cultural, como forma de exclusão política e, consequentemente, social e econômica. Pode-se dizer que, junto com Enrique Dussel e Walter Mignolo, Quijano revolucionou as ciências sociais e hoje se tornou obsoleto falar em assimetria de poder sem reconhecer os efeitos da colonialidade e sem discutir criticamente o legado da modernidade.

IHU On-Line — Como e por quais redes de intelectuais o seu legado pode ser percebido?

Fernanda Frizzo Bragato — Uma das principais redes de intelectuais que mobiliza as teorias e os conceitos de Anibal Quijano é o chamado grupo de investigação modernidade-colonialidade composto pelos seguintes pensadores: Arturo Escobar, Catherine Walsh, Eduardo Mendieta, Edgardo Lander, Enrique Dussel, Fernando Coronil, Javier Sanjinés, Lewis Gordon, Nelson Maldonado-Torres, Ramon Grosfoguel, e Santiago Castro-Gomez, Walter Mignolo, além do próprio Quijano. Mas sua obra transcendeu os trabalhos do grupo e vem sendo cada vez mais usada em todas as áreas do conhecimento: educação, antropologia, direito, comunicação etc.

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IHU On-Line — O que Aníbal Quijano revolucionou nas ciências humanas e sociais na América Latina?

Nelson Maldonado-Torres — Quijano foi um grande pensador latino-americano que desde cedo teve uma perspectiva muito refinada da dependência da região, evitando reducionismo economicistas, e quem reconheceu a importância da ideia de raça e de racismo, mais além do étnico, na organização do sistema-mundo moderno e das sociedades nesse mundo. Nisto foi influenciado por Mariátegui e por vários dos seus companheiros na teoria da dependência, mas também pelos movimentos indígenas, pela pensamento e lutas de afro-americanos nos EUA, e por sua estadia em Porto Rico. Nesse sentido, deve se evitar um certo latinoamericanocentrismo, para reconhecer a riqueza de seu pensamento.

IHU On-Line — Qual foi a participação de Quijano no giro decolonial?

Nelson Maldonado-Torres — Quijano foi uma figura principal no trabalho da rede de pesquisadores(as) e ativistas dedicados(as) desde os anos 1990 em definir e avançar no que vem sendo reconhecido como giro decolonial. Foi ele quem alcunhou o termo colonialidade do poder e o pôs no meio do tabuleiro, desenvolvendo-o de forma muito profunda e precisa. Também contribuiu de maneiro muito importante ao projeto de identificar e criticar ao eurocentrismo e a descolonizar as ciências sociais. Tudo isso nos tem servido de base para nossas contribuições ao giro decolonial. Sua obra é referência essencial para entender a modernidade ocidental, a América Latina e a envergadura do giro decolonial na e mais além da América Latina.

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