XVIII Simpósio do IHU abre debatendo a necessidade de um novo paradigma econômico para a casa comum

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Por: Ricardo Machado | 21 Maio 2018

O elegante Teatro Unisinos, no campus Porto Alegre, com a sobriedade de suas longas paredes que se erguem sobre filetes de madeira clara e com estofados em tecido preto, recebeu mais de 250 pessoas durante abertura do XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo com a conferência de Alessandra Smerilli, que apresentou os dilemas para a construção de uma economia socialmente justa e ambientalmente de acordo com os desafios contemporâneos. Intitulada As grandes tendências econômicas sociais que caracterizam o mundo contemporâneo, a fala tomou a atenção dos participantes pelas relações entre desigualdade, futuro do trabalho, investimento sustentável e a responsabilidade ambiental. Sobre o palco, uma mesa com quatro cadeiras, de onde ao centro falou Smerilli e imediatamente à frente um arranjo de diversas flores coloridas traziam um colorido de vida e de beleza simples ao espaço, onde todos, acomodados em suas poltronas, aguardavam a primeira das diversas conferências que compõem o evento.

Antes, porém, uma celebração muito sensível e rápida marcou a abertura oficial do Simpósio e a inauguração do Espaço IHU, na Unisinos Porto Alegre. O grupo Voice In, composto por um quinteto de vozes, interpretou três canções antes da composição oficial da mesa. Logo após, foram convocados à mesa Pe. Pedro Gilberto Gomes, vice-reitor e reitor em exercício da Unisinos; João Geraldo Kolling, presidente da Associação Antônio Vieira - Asav, mantenedora da universidade; e a Profa. Dra. Cleusa Maria Andreatta, coordenadora do Programa Teologia Pública do IHU.

 


Mesa de abertura do XVIII Simpósio IHU com Pe. João Kolling, Pe. Pedro e Cleusa | Fotos: Ricardo Machado/IHU

Em vídeo gravado especialmente para o IHU, o Reitor da Unisinos, Prof. Dr. Pe. Marcelo Fernandes de Aquino, enviou uma mensagem falando do evento sobre o Papa Francisco e da importância do IHU no contexto da Unisinos Porto Alegre. “Nosso Instituto Humanitas Unisinos - IHU vem se destacando na exposição de diferentes pontos de vista que são importantes para termos uma visão mais clara de onde a humanidade pode avançar. Além disso, a celebração desse Simpósio é uma manifestação do apreço de nossa universidade ao que o Papa Francisco vem dando à humanidade”, destacou o reitor.

Na mesma sintonia, Pe. Pedro Gilberto Gomes sublinhou que “a Unisinos tem entre seus objetivos a formação integral da pessoa humana, preparando pessoas para o serviço. Isso é um exercício pastoral e o Instituto Humanitas é o modo de a universidade fazer sua pastoral. É o modo de colocar os grandes temas da humanidade em discussão, para os crentes e não crentes, mas para homens e mulheres de boa vontade. A Unisinos se sente identificada na dimensão mais profunda de uma universidade jesuíta com o trabalho realizado pelo IHU”, ponderou. Em seguida, Pe. João Geraldo Kolling estimou que o “Simpósio possa colaborar no sentido de que consigamos, os religiosos e os leigos, sempre em tudo amar e servir, buscando a glória de Deus, em um clima de paz e bem”. A mesma perspectiva foi tema da breve fala de Cleusa Andreatta, afirmando o desejo de que o “Simpósio possa nos ajudar a discutir e caracterizar o que pode ser essa virada profética de Francisco”.

O último ato antes da conferência de Alessandra Smerilli teve uma breve fala do Prof. Dr. Inácio Neutzling, diretor do IHU, que relembrou a história de fundação do Instituto Humanitas Unisinos - IHU e aproveitou a presença do Pe. Juan Carlos Scannone para recordar sua sugestão de realizar o simpósio que daria origem ao IHU nesses quase 18 anos de história. “Foi o Pe. Scannone quem sugeriu a realização daquele que seria o simpósio intitulado O ensino social da Igreja e a globalização. Hoje estamos com um espaço aqui na Unisinos Porto Alegre, junto ao mezanino, e vamos celebrar esse momento com a canção Hallelujah”, frisou Inácio.

As grandes tendências econômicas e sociais que caracterizam o mundo contemporâneo

Logo no início de sua fala, Alessandra Smerilli chamou atenção para a inadequação do uso da palavra “desigualdade”, que quase nunca expressa a dureza da realidade que pretende descrever. “O termo desigualdade não é apropriado porque não acolhe aquilo que está acontecendo no mundo, pois não podemos olhar de forma isolada a riqueza e a desigualdade. Portanto, a pergunta não é se a desigualdade é certa ou errada, mas quais efeitos ela produz sobre questões como saúde, educação, expectativa de vida etc.”, provoca Smerilli.

Dessa perspectiva decorre outro amplo debate que diz respeito à análise de como a concentração de renda e riqueza em poucas pessoas acaba minando a possibilidade de acesso a vários bens fundamentais às populações mais empobrecidas. “Se uma pessoa impor sua vontade sobre as outras por meio de suas possibilidades econômicas, seus desejos transformam-se em 'leis'”, critica Smerilli. Ela aproveitou o ponto para lembrar a metáfora do Papa Francisco sobre a alta da maré – referindo-se à economia – em que tantos os donos de barcos grandes quanto pequenos sobem de nível. “No nosso mundo não existem somente barcos grandes e pequenos, mas pessoas que não tem nenhum barco e quando aumenta a maré elas simplesmente se afogam”, indaga a economista.

 


Teatro Unisinos durante a conferência de abertura

Assimetrias de gênero, um problema crônico

Outro ponto discutido pela conferencista, foi a questão das desigualdades de gênero onde os índices por países são catastróficos. “A Itália, país de onde venho, ficou em 126º lugar em ranking de 144 países no que diz respeito à equidade salarial entre homens e mulheres para cargos iguais. Quanto maior a igualdade no campo social maior será a igualdade no trabalho”, avalia.

A pesquisadora citou um estudo em que foram analisados os perfis comportamentais entre homens e mulheres em situações de competitividade. Segundo Smerilli, em sociedades matriarcais, como na Índia e em alguns países da África, a situação de competitividade foi resolvida de uma maneira muito diferente que nas sociedades patriarcais como os Estados Unidos. “Essas diferenças confirmam como a educação e as normas sociais modelam comportamentos econômicos. Disso vem a questão: em que direção iremos, qual o caminho?”, indaga. “Precisamos começar a nos perguntar se as diferenças nos comportamentos podem sugerir alternativos aos pensamentos econômicos hegemônicos”, complementa.

Mundo do trabalho

A economista tocou em um tema sensível que é a questão do trabalho e as transformações da revolução 4.0. Ela lembrou que os investimentos em tecnologia são fundamentais para que as sociedades não fiquem alheias aos processos de transformação social . Mas pontuou: “Como fazer com que as novas tecnologias não aumentem, cada vez mais, as desigualdades?”.

“Nesse novo cenário mudam as formas de trabalho, o chamado crowndwork passa a permitir o trabalho de diversas pessoas em pontos diferentes do planeta por meio de uma plataforma que conecta todos desta rede. Então torna-se fundamental saber em que condições esse trabalho se processa e quais são suas novas especificidades”, prospecta. É diante desse cenário que o debate sobre a possibilidade de uma renda básica universal torna-se ainda mais importante. “Essas transformações nos obrigam a pensarmos e discutirmos uma renda de cidadania, que está diretamente ligada aos excluídos, aqueles que estão fora do mundo do trabalho”, frisa.

Ainda sobre o trabalho, Smerilli chama atenção para a dimensão na qual Hanah Arendt se referiria como obra. “O que é o trabalho, simplesmente um meio para viver e consumir? Não. O trabalho serve para dizer ao mundo quem somos e o que viemos fazer. Quando tomamos café da manhã podemos pensar quantas pessoas ao redor do mundo trabalharam para que aquele momento acontecesse e são muitas. O trabalho é nossa contribuição para tornar o mundo mais belo. Impedir um jovem de trabalhar é uma violência, porque o retira da possibilidade de participar desse processo”, analisa.

 


Alessandra Smerilli

Laudato Si', uma guinada na relação com o mundo

Para a pesquisadora, o colapso ambiental e a insustentabilidade nascem de dois elementos: desigualdade e injustiça. É o colapso do planeta que jogou os temas ambientais para o centro dos debates econômicos. “Nos últimos anos estamos começando a entender que a sustentabilidade tem a ver com comportamentos que produzem relações de desigualdades. Enfrentar tal questão seria um modo de contrastar a cultura do excedente que causa problemas ao planeta. Está tudo interligado”, pondera.

Um dos aspectos técnicos mais instigantes da fala de Smerilli é que um dos problemas de ordem central na teoria econômica é que ela jamais trabalhou com a categoria do “limite”. “Essa lógica vem da origem da ciência econômica no final do século XIX quando parecia que os limites da natureza não tinham fim. Contudo, hoje, precisamos repensar isso porque a terra não é considerada dentre os fatores produtivos. Se nós não vemos a terra, tendemos a afligi-la. A economia tem dificuldade de entender o tema da sustentabilidade”, descreve.

Como alternativa, a pesquisadora propõe que as pessoas e, especialmente, as congregações e ordens religiosas sejam responsáveis e pratiquem investimentos sustentáveis, pois são eles os responsáveis por uma mudança de paradigma capaz de produzir uma economia mais humana e igualitária. “O investimento sustentável leva em conta as dimensões social, ambiental e humana. A economia sustentável está em crescimento no mundo todo, mas é um mercado que, para crescer, precisa de consciência e nisso nós podemos fazer a diferença”, convoca.

Para situar historicamente de onde vem esse apelo desde a perspectiva religiosa, Smerilli lembrou dos franciscanos. “As boas finanças nascem com os franciscanos, no século XV, que fazendo o voto de pobreza começaram os financiamentos para o desenvolvimento dos mais pobres e que muitos séculos mais tarde levaria aos microcréditos, às caixas rurais etc.”, recorda Alessandra. “Vivemos um momento histórico em que aumenta a preocupação de que devemos ter mais consciência em relação às pessoas e nossas decisões econômicas. Hoje não é mais tabu falar de bens relacionais, de reciprocidade, de coletividade. Nessa abertura, as mulheres têm um papel muito importante na passagem da economia de uma ciência triste, da riqueza, para uma sociedade pública e de alegria compartilhada”, sustenta. “A sociedade é mais feliz quando progride socialmente, não quando tem mais bens materiais. Papa Francisco está nos levando pouco a pouco às mudanças de paradigma”, finaliza.

Foi entre as mesmas paredes de madeiras nuas que o Teatro Unisinos testemunhou a longa salva de palmas que marcou o fim do primeiro dia de atividades do XVIII Simpósio Internacional IHU. Ao longo de toda esta terça-feira, o IHU volta a receber as centenas de participantes do congresso em diferentes atividades, de minicursos a conferências principais.

Alessandra Smerilli

Religiosa das Filhas de Maria Auxiliadora, Irmã Alessandra Smerilli tem 43 anos e é originária de Vasto (Chieti). Ensina economia política e elementos de estatísticas na Pontifícia Faculdade de Ciências da Educação "Auxilium" de Roma. Em 2014, doutorou-se Economia pela Faculdade de Economia na "La Sapienza" de Roma e é PhD em Economia na Universidade de East Anglia (Norwich, Reino Unido).

Ela é membro fundador e professora da Escola de Economia Civil e membro da Comissão da Ética SGR. Foi coautora com Luigino Bruni de L’altra metà dell’economia (A outra metade da economia, Città Nuova, Roma 2015) e está publicando o volume Carismi, economia, profezia: la gestione delle opere e delle risorse (Carismas economia, profecia: a gestão das obras e dos recursos, com a editora Rogate).

 

Assista à conferência na íntegra

 

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