Chile. Há a confirmação de que houve voos da morte durante a ditadura de Pinochet

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23 Maio 2018

O testemunho chave para a acusação foi o do suboficial Juan Guillermo Orellana Bustamante, mecânico tripulante do helicóptero militar H225 Puma, que decolou em uma manhã nos primeiros dias de outubro de 1973.

A reportagem é publicada por Página/12, 20-05-2018. A tradução é de André Langer.

A Justiça chilena processou pela primeira vez militares por jogarem pessoas vivas ao mar durante a ditadura militar de Augusto Pinochet. “O ministro Jaime Arancibia, da Corte de Apelações de Valparaíso, conseguiu um julgamento que nos parece histórico”, declarou no sábado ao Página/12 Magdalena Garcés, advogada do Londres 38, um ex-centro de detenção e extermínio, transformado agora em espaço da memória e organismo de direitos humanos que atua como demandante da causa.

O juiz Jaime Arancibia Pinto condenou Miguel Krassnoff Martchenko, Richter Nuche Sepúlveda, Emilio de Mahotiere e Carlos Mardones Díaz por associação ilícita e sequestro qualificado dos presos desaparecidos Ceferino Santis Quijada, Luis Norambuena Fernandois e Gustavo Farías Vargas. A sentença foi dada no dia 09 de maio, mas divulgada apenas neste final de semana pela mídia chilena.

O testemunho chave para a acusação foi dado pelo suboficial Juan Guillermo Orellana Bustamante, mecânico tripulante do helicóptero militar H225 Puma” que decolou em uma manhã nos primeiros dias de outubro de 1973 e do qual foram jogados vivos ao mar Quijada, Fernandois e Vargas. Orellana Bustamante deu detalhes precisos não apenas sobre as pessoas que estavam detidas desaparecidas, mas também sobre os outros tripulantes do helicóptero e da data em que o voo da morte aconteceu.

Outro mecânico tripulante do helicóptero com quem o “Puma” se encontrou ao pousar depois da operação no clube de golfe de Rocas de Santo Domingo confirmou o testemunho de Orellana Bustamante. Todas essas informações foram comparadas com os dados disponíveis sobre as datas em que foram presos e, por isso, foi possível entrar com um processo contra os militares.

Apenas com o testemunho de Orellana Bustamante foi possível avançar, porque as testemunhas anteriores, também mecânicos tripulantes dos helicópteros, não eram capazes de identificar as vítimas que eram jogadas ao mar, já que em muitos casos eram embrulhados em sacos e estavam imóveis (adormecidos ou mortos). Então, ao não ter corpo e não poder identificar as vítimas, não havia nenhum ajuizamento possível.

Na sexta-feira, dia 18, a defesa dos dois acusados que se encontram em prisão preventiva recorreu para que possam continuar a responder ao processo em liberdade. O benefício foi concedido a um deles, Mardones Díaz, com a alegação de que aos 91 estava com problemas de saúde e que sofrera um acidente cardiovascular. De la Mahotiere e Krassnoff já cumprem pena por outros crimes cometidos durante a ditadura. De acordo com o depoimento de Orellana Bustamante, levantado pelo portal chileno El Dínamo, foi Krassnoff – que tem mais de 400 anos de condenação por crimes de lesa humanidade – que jogou ao mar os prisioneiros desaparecidos ainda vivos.

“Este sujeito jovem ofereceu resistência, mas este capitão o pegou pelas axilas, virou-o para a porta e jogou-o ao mar. Aqui há um detalhe: o capitão, ao empurrá-lo para baixo, o sujeito consegue apoiar os pés no trem de pouso; trava-se então uma luta, ou seja, um jogo de forças e, visto isso, puxa-o de volta pelas axilas, livra-o do trem de pouso e aí o joga para o mar”, relatou o suboficial retirado sobre uma das vítimas.

“Por esses testemunhos, os demandantes tentam processar também os militares por homicídio qualificado”, disse Garcés. “Com este caso, continuamos a avançar, mas ainda há muito a ser feito, especialmente no que diz respeito à estrutura de comando da ditadura”.

O único antecedente de oficiais do Exército condenados por jogar ao mar presos desaparecidos foi no caso de Marta Ugarte. Em 12 de setembro de 1976, um pescador encontrou na praia Las Ballenas, em Los Molles, a 182 quilômetros de Santiago, o corpo de Marta Ugarte, de 42 anos, militante do Partido Comunista e detida pela DINA (Direção Nacional de Inteligência). Seu corpo acabou na praia. Ela tinha quase todos os ossos quebrados, a pele queimada e faltava-lhe um pedaço da língua. A imprensa disse que tinha sido um crime passional.

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